Um cordeiro leão. Por Angela Barros Leal

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João Cordeiro

E eis que, folheando digitalmente as páginas da Revista do Instituto do Ceará de 1945, deparo-me com os “Apontamentos Biográficos de João Cordeiro – Escritos por ele próprio”. Um privilégio poder recuar no tempo e descobrir ter sido J.C., como prefere ele identificar-se na curta biografia, um homem prático, um solucionador de problemas.

Na reunião de fundação da Sociedade Libertadora, em dezembro de 1880, por exemplo, entre infindas discussões sobre o teor dos Estatutos, J.C. batera na mesa e cortara o nó górdio. “Os estatutos que nos convém devem ser simplesmente estes”, decretara alto e bom som, assumindo sua condição de Presidente por aclamação da recém-nascida Sociedade: “Artigo 1º: Libertar escravos, seja por que meio for. Artigo 2º: Todos por um e um por todos”. Simples assim.

O recurso ao lema dos mosqueteiros da obra de Alexandre Dumas era, e continuaria sendo, uma constante na vida desse nativo de Santana do Acaraú, nascido em 1842, fadado a conhecer vitórias extremas e extremas derrotas, respeitado pela coerência e honestidade, odiado pelo temperamento forte e pela vontade insubordinável.

Prático e múltiplo era João Cordeiro. Comandara a Sociedade Libertadora, fundara o jornal Libertador, havia sido Comissário Geral dos Socorros Públicos na seca de 1877 a 1878 – abrindo mão da gratificação para evitar críticas, que mesmo assim vieram –, presidira a Associação Comercial de Fortaleza, administrara seu armazém na capital e a Fábrica Proença, descaroçadora de algodão, em Baturité, especializara-se em recuperar empresas falidas, e fora proprietário de uma pioneira fábrica de chapéus no Rio de Janeiro, entre tantas atividades.

O envolvimento politico, batendo-se a favor da República, o levara a assumir por duas vezes, temporariamente, o governo do Ceará. Nessa condição orgulhava-se de haver mudado o nome de Imperatriz para Itapipoca, de Arronches para Parangaba, de Canoa para Aracoiaba, de Conceição para Guaramiranga, de Acarape para Redenção.

Após ocupar o cargo de Deputado Federal, J.C. foi eleito Senador pelo Partido Republicano. Tornou-se ardente “florianista”, partidário e ajudante de ordens de Floriano Peixoto. Em seus Apontamentos, escritos aos 86 anos de idade no Putiú, Baturité, onde residia a serviço de Boris Frères & Cia., destaca episódios curiosos para nós, da sempre atenta posteridade.

“Todas as semanas havia luta da polícia contra os florianistas”, rememora. Na rua do Ouvidor conseguira escapar dos cascos dos cavalos e das espadas sem corte da polícia. Escapara também do inusitado combate travado no Cemitério São João Batista, do Rio de Janeiro, que tivera, de um lado, a cavalaria armada e, do outro, fieis florianistas defendendo-se com as cruzes de madeira arrancadas dos túmulos.

Conta João Cordeiro que, logo após o embate, se deu o evento que deflagraria sua prisão. Nas palavras dele, um “sujeito muito caviloso” sugestionara um soldado do Exército a matar o presidente Prudente de Moraes, sucessor de Floriano, armando-o com um revólver de dois canos. Falharam ambos na hora do disparo, o que não impediu o soldado de puxar um punhal oculto no cano da bota, e com ele ferir de morte o Ministro da Guerra.

O soldado foi preso e encontrado morto na manhã seguinte, supostamente vitimado por suicídio. Antes disso identificara um certo Deocleciano Mártir como aquele que o havia sugestionado a cometer o atentado. Mártir se fez de um: defendeu-se dizendo que travara a propósito os dois canos da arma, e que seu único interesse era “fazer um susto ao Presidente, de quem não gostava”. Em um desses estranhos enredos da História, o soldado que tentara matar o Presidente chamava-se Marcelino Bispo.

Prudente de Moraes aproveitou para decretar Estado de Sítio. Embora no cargo de senador eleito, e tendo sido há pouco informado da morte do único filho em Canudos, J.C. foi arrastado para um navio ancorado na Baía da Guanabara, no qual permaneceria por cinco meses incomunicável, e no qual seguiria para a ilha presídio de Fernando de Noronha.

Muitas lutas enfrentaria ainda antes de terminar seus dias em Baturité, “paupérrimo e endividado”. Deixara a política anos atrás por não querer fazer dela “um meio de vida”. No final dos Apontamentos incluíra adendos como “J.C. fez a propaganda da plantação do cacau na Serra de Baturité”, ao lado de alguns tópicos pessoais: “J.C. nunca botou luto por ninguém. Não compreende, diz ele, a razão dessa suprema tolice”.

Apesar disso, o jornal A Razão destacou que o Ceará “botou luto” por ele no dia de seu falecimento, 12 de maio de 1931, reconhecendo ter J.C. vivido mais como um leão que como um cordeiro.

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

 

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