Recém chegando em terras lusitanas ligo para uma amiga. Que me responde em voz cavernosa, como se falasse de dentro de enterradas minas ou por detrás de um emaranhado de lençóis. Eu a escuto como quem ouve sons emitidos das profundezas da terra, um eco a rebater e se desfazer sobre a superfície áspera de paredes de pedra.
Alergia – ela informa, a rouquidão distorcendo o que conheço de sua voz.
Sei bem o estrago que causam as alergias, essa rebelião do corpo em defesa ao assédio de inimigos externos – que no caso dela estão a vir de muito longe.
São os ventos d´África – ela explica, as areias chegadas em Portugal nas asas de tempestades, de instabilidades atmosféricas capazes de carrear correntezas de poeiras pelas vias aéreas usualmente ocupadas por pássaros e aviões.
Confesso que desconhecia tal fenômeno intercontinental. Verdade que, durante algum tempo, sofri com o assalto do pólen causador de alergias a cada primavera norte-americana. Resignei-me a lidar com aquela espécie de musgo a despencar das árvores, em falsamente inofensivos tons de verde, recobrindo ruas, calçadas, o teto dos veículos, o interior dos meus pulmões.
Mas não sabia sobre o risco que podem causas as areias africanas. Aprendo agora com minha amiga que os ventos vêm do Saara –, que não é uma área pontual no mapa, e sim uma região imensa ao Norte do continente, um vasto tapete de areia recobrindo aqui e ali o território de vários países.
E aprendo também que, em determinadas épocas do ano, o Saara inteiro sente ânsias de movimento e de mudança de paisagem, alçando voo em finíssimas partículas dispostas a cruzar terras e oceanos.
Do fundo da cama, ela descreve em voz rouca os dias que não vi, de sol obscurecido pelas ditas partículas de areia vermelha, o céu do entardecer esmaecido por fragmentos que não são apenas de origem mineral.
Em sua longa viagem, como protesta minha amiga, a areia deve trazer consigo fragmentos de pelos de camelos, cinzas de fogueiras apagadas em oásis, pedaços microscópicos de grãos e sementes de plantas alheias à Europa, vagos aromas de tâmaras e damascos, resquícios de vidas e culturas dispostas a penetrar na casa dela pelas frestas das janelas, por debaixo das portas, de nariz adentro, e empurrá-la para o leito onde se encontra em crise aguda de sofrimento.
Portugal, Espanha, Itália e Grécia tem sido os receptores mais frequentes de tais invasões, que não parecem dispostas a recuar em seu avanço. Ela está ciente disso, e de que reparto com ela a mesma sensibilidade alérgica. Ao nos despedirmos, depois que minha amiga reúne fôlego suficiente para me desejar boas-vindas e boa sorte, já percebo que minha própria voz não soa mais a mesma. Não duvido que os ventos d´África tenham começado a soprar seus tormentos junto às minhas vias respiratórias.
Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







