Querem comprar minha empresa. E agora? Por Henrique Lyra Maia (Parte 2)

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Henrique Lyra Maia, Bacharel em Administração de Empresas, Especialização em Administração Financeira e Mestrado em Administração de Empresas pela Universidade de Fortaleza, Especialização em Gestão Empresarial pela FGV e Doutorando em Contabilidade e Finanças pela FUCAPE Business School. Sócio da LYRA&MAIA Consultores Associados.

O Crivo da Criatividade

Esse é o segundo artigo de uma série de três artigos sobre como empresários podem se preparar para receber um sócio investidor ou vender a totalidade das suas cotas para investidores externos.

No artigo anterior, detalhei o primeiro crivo pelo qual o empresário deverá atender para aumentar suas chances de realizar uma transação de compra e venda de cotas empresariais. O primeiro crivo foi o da atratividade e o leitor pode conferir nesse link AQUI.

O segundo crivo que a empresa deverá passar é o da confiabilidade das informações. Empresas de capital fechado geralmente implementam um modelo de gestão para se adaptar ao “dono” ou a família proprietária da empresa. Em nossa experiência, é um modelo permeado de informalidades. Os processos não estão bem mapeados, as funções não estão totalmente definidas e o sistema da empresa não fornece informações confiáveis para a tomada de decisão. Essas fraquezas irão resultar em uma baixa qualidade de informações contábeis, que não irão refletir os resultados econômicos e financeiros da empresa. Como dizemos rotineiramente “tudo desemboca na contabilidade”.

Quando investidores procuram alvos para adquirir participações societárias, eles irão solicitar os balanços e relatórios contábeis. Os relatórios gerenciais servirão como apoio, mas a base será o contábil. Se a empresa não tem processos que garantam que as informações contábeis reflitam a realidade, como o investidor sentirá segurança de aportar na empresa?

Superar essa fase as vezes pode levar alguns meses ou até anos, porque a empresa terá que implantar vários controles operacionais, alterar processos, readequar o sistema de informação e contratar pessoas mais qualificadas para conseguir ter efetivamente os relatórios financeiros e contábeis de maneira confiáveis.
Além disso, muitas empresas de pequeno e médio porte são familiares e tendem a misturar assuntos pessoais com os da empresa. Quando o investidor analisa as demonstrações contábeis, há uma distorção no que é efetivamente despesa operacional da empresa e o que é da família, prejudicando a análise. A separação entre o lado pessoal dos sócios e a empresa é um passo importante nesse sentido.

Um fato muito curioso acontece nas empresas familiares que merece ser destacado. Como as distinções entre o que é da família e o que é da empresa se confundem, muitas despesas acontecem na empresa apenas pelo capricho da família. Por exemplo, muitos fundadores gostam de fazer reformas e realizar determinados gastos que muitas vezes não são necessários, pois não irão gerar mais faturamento ou lucros para a empresa. Se o empresário receber o convite de um investidor para comprar parcial ou totalmente a empresa, ele terá que rever a forma como aloca os recursos, pois isso irá afetar o resultado contábil.

Alguns empresários sugerem retirar essas despesas não necessárias ao negócio, sob a alegação de terem sidos não recorrentes, pontuais ou até mesmo apenas pela preferência do fundador. Ao retirar esses gastos não recorrentes, encontramos o lucro recorrente, ou seja, o resultado livre desses gastos. É um caminho possível, no entanto, uma vez o recurso gasto fica difícil convencer investidores de que aquela despesa não era necessária. Assim, as demonstrações contábeis poderão ser prejudicadas e a empresa provavelmente valerá menos por ter esses hábitos por parte da família.

Apesar de muitas pequenas e médias empresas não serem obrigadas a terem balanços auditados, a depender da maturidade da organização, algumas optam voluntariamente por auditá-los, passando assim uma confiança ainda maior para investidores.

É possível realizar uma transação diante de divergências entre o contábil e o gerencial? Se ela for pequena não, mas se for relevante, provavelmente o investidor irá solicitar algumas garantias e/ou irá penalizar no valuation da empresa, pressionando o valor do negócio para baixo. Nesse cenário, provavelmente o empresário não irá sentir-se motivado a vender suas cotas, portanto, o empreendedor voltaria à estaca zero do processo.

Enquanto as demonstrações contábeis não refletirem a realidade da empresa, o empresário terá mais dificuldade de realizar a transação. Para conseguir migrar para esse estágio, são necessários definir bem os processos que afetam as demonstrações contábeis, bem como as pessoas a frente desses processos.

Note que mesmo que a transação não ocorra, por qualquer motivo que seja, se o empresário investir na organização desses processos, além de valorizar mais a sua empresa, obterá ganhos de produtividade, redução de custos e informações confiáveis para tomar decisões.

Em nossa experiência, os ganhos no processo de estruturar as empresas para realizar transações vão muito além de aumentar as chances da venda se concretizar, os ganhos são a melhoria dos resultados financeiros e da qualidade das decisões por parte do empresário.

O próximo artigo selará o último dessa série, na qual irei comentar sobre o terceiro crivo que os empresários devem atender para conseguir aumentar significativamente suas chances de realizar uma transação com investidores no mercado.

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