Repensar o propósito do ensino superior, por Antônio Colaço Martins Filho

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Antônio Colaço Martins Filho é chanceler do Centro Universitário Fametro – UNIFAMETRO (CE). Diretor Executivo de Ensino do Centro Universitário UNIESP (PB). Doutor em Ciências Jurídicas Gerais pela Universidade do Minho – UMINHO (Portugal), Mestre em Ciências Jurídico-Filosóficas pela Faculdade de Direito da Universidade do Porto (Portugal), Graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará. Autor das obras: “Da Comissão Nacional da Verdade: incidências epistemiológicas”; “Direitos Sociais: uma década de justiciabilidade no STF”. colaco.martins@unifametro.edu.br. Escreve no Focus.jor.

Por Antônio Colaço Martins Filho
Post convidado

Certa feita, questionada sobre o que o estudante de Psicologia busca no respectivo curso de graduação, uma experiente professora do referido curso pontificou: os alunos buscam entender as dores, as angústias, o desespero, em suma, os sentimentos, suas causas e repercussões. Deslumbrado com a descoberta, secundei que a conclusão me remetia a uma reflexão de Saramago, em seu romance, “A viagem do elefante”, no qual o Nobel de Literatura compara o passado a um imenso pedregal que muitos percorrem como se fosse uma rodovia, ao passo que outros levantam cada uma das pedras “porque precisam saber o que há por baixo delas”, ainda que eclodam animais desagradáveis ou perigosos.

Clayton Christensen, professor da Harvard Business School e referência mundial no tema inovação, ao analisar o que os estudantes buscam no ato de frequentar as escolas, concluiu que eles almejam a valorização pessoal (sentir-se importante) e a companhia de seus amigos. As finalidades, nada sofisticadas, vão de encontro ao destaque que as Instituições de Ensino costumeiramente conferem à infraestrutura, ao currículo, à qualificação do corpo docente etc. Não por acaso, em face dos propósitos estudantis acima elencados (sentir-se importante e andar com amigos), o mesmo autor indica que as gangues são concorrentes diretas das escolas. A evasão escolar em proveito das organizações criminosas e os rituais de iniciação de ambas as ocupações denotam o acerto do autor.

No momento em que o Google lança o Google Career Certificates, programas de seis meses que, em termos de conteúdo e empregabilidade/trabalhabilidade, pretendem ser menos onerosos e mais valorizados pelos empregadores do que cursos de graduação tradicionais, faz-se imperioso ter uma atenção especial pelo que motiva cada estudante a se matricular.

Ao investigar qual o job to be done dos cursos de ensino superior, entendo que as Instituições de Ensino Superior – IES´s não devem se contentar com os burocráticos formulários padrões, que costumam apontar empregabilidade, aquisição de conhecimento, ascensão e mudança de carreira como motivadores-padrão da escolha de todos os ingressantes, independentemente da carreira que escolheram. Ao revés, entendo que se faz necessário criar processos de escuta qualitativa, desarmada, desvinculada de interesses corporativos, desapegada de dogmas acadêmicos e que seja capaz de captar também aquilo que não fazia parte do script inicial.

Imersas em um oceano escarlate e constantemente ameaçadas por players consagrados de outros setores da economia, as universidades precisam abandonar a tradicional postura de elaborar currículos e experiências, de costas para os estudantes e seus propósitos, sob pena de receberem o mesmo tratamento em retribuição.

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