Historinha sem moral, uma crônica de Angela Barros Leal

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Reparto notícia lida no jornal O Retirante, de agosto de 1877. O jornal se autodenominava “Órgão das vítimas da seca”. Divulgava os acontecimentos daquele ano de calamidades e criticava governantes em linguagem desabrida, sob o manto conveniente do anonimato – o que não fazia dele exatamente um parâmetro de isenção ou confiabilidade.

Costumava imprimir contundentes denúncias contra os que tiravam proveito dos horrores enfrentados pelo povo, e expunha um certo padre, pároco de um certo município, acusando-o de chantagear uma viúva para obter favores da filha dela, menor de 15 anos. E chantagear com o quê, me espanto: com as doações de víveres que ele, como membro da Comissão de Socorros local, deveria distribuir entre as vítimas da seca.

Seria um lobo ao qual foram entregues “as míseras ovelhas”, comparava o jornal ao condenar o “Don Juan de batina”, transcrevendo denúncias contra o pároco, testemunhos e requerimentos de cidadãos, bem como as pálidas justificativas dele, atribuindo as queixas a motivos políticos, porém nem uma só vez negando o episódio. 

Meses depois, o acusado usaria as páginas do O Cearense para escarnecer da vítima, “essa negra, a quem pagaram para me caluniar, longe de ser uma moça, como dizem, é uma mulher há muito prostituída”. Já seria “deshonestada”, na palavra das testemunhas dele; chegara na vila com a pecha de “impudica”; vendia-se “por um vestido e uma rede”, dizia outro, que ouvira de alguém o que dissera mais outro, na porta de um terceiro. 

O padre buscava reforços que confirmassem ter a garota mais de 20 anos, dando lógica à acusação de ser ela “mulher perdida desde muitos anos”, o que, aparentemente, justificaria eventual abuso. O nome de um alegado amante da jovem era oculto em pontilhados, como se fazia nos romances antigos, revelando-se apenas as primeiras letras. O nome dela era exposto às claras, com direito a sobrenome e nome completo dos pais.

O passar do tempo varreu o caso para baixo do pesado tapete do esquecimento. O padre ascendeu na hierarquia eclesiástica. A mãe da menina buscou em outra cidade refúgio da maledicência, e lá faleceu vítima “das febres”. E da menina não mais se ouviu falar, silêncio já esperado desse desmesurado abismo em que viviam as mulheres. Como antecipei, não há moral nesta história.

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