Pesos & medidas, por Angela Barros Leal

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João Cordeiro foi Senador da República, amigo de Floriano Peixoto. Figura máxima do abolicionismo no Ceará. Político de corajosas atitudes e de enorme prestigio.

Em meio ao noticiário do ano de 1877, um dos mais devastadores da História do Ceará, informação meio distraída publicada no jornal Cearense repercutiu na Corte Imperial: em Fortaleza, diante de várias testemunhas, o abolicionista e então Presidente da Associação Comercial do Ceará, João Cordeiro, medira no quintal de seu comércio, à rua da Palma, n. 43, as impressionantes dimensões de um pé de mandioca ali plantado dois anos antes.

Conforme a notícia, teria a planta as seguintes dimensões: “O tronco 9 palmos de altura e 2 e meio de circunferência. Dele partem 4 galhos, cada 1 dos quais tem 12 polegadas de circunferência e atingem a 25 palmos de altura. Uma das raízes, a que podemos descobrir, tem 65 palmos de extensão. A copa tem de circunferência 115 palmos!”

“Escrevo para aprender”, dizia o Barão de Studart, “não para dar lições.” Que sei eu sobre pesos e medidas, menos ainda sobre tais parâmetros corporais, resquícios da figura de algum Rei há muito finado pelo qual foram pautados o pé, o palmo, o polegar, plebeiamente comparável à silhueta de um boi no açougue – peito, pá, pescoço, picanha.

Busco no Dicionário Prático Ilustrado, edição luso-brasileira de 1966, a conversão para o sistema atual e faço as contas com certa insegurança. A trilha dos números não me é familiar e antecipo profusas desculpas caso sejam percebidas incorreções de maior monta.

A altura do tronco ia a 2 metros, com pouco mais de meio metro de circunferência. De lá, abria-se ele em galhos que se estendiam a mais de 5 metros, com 30 centímetros de circunferência cada um. A raiz exposta alongava-se por 14 metros e a circunferência da copa oferecia 25 metros de sombra.

Um pouco mais, um pouco menos, agora sim, visualizo as dimensões do gigantismo vegetal brotado em um ano de seca, apreendido através das lentes do sistema métrico decimal aqui chegado no final do século XIX.

Por insistência do Imperador e pela ciência e arte do gaúcho Cândido Baptista de Oliveira, matemático, deputado, ministro e senador – senador justamente pelo Ceará onde, ao que se saiba, jamais caminhou um palmo (22cm) ou sequer uma polegada (2,5cm) – a Lei Imperial n. 1.157 de 1962 tentou implantar no Brasil, de forma gradual, o sistema made in France.

Em livro intitulado Memória sobre a Adoção do Sistema Métrico no Brasil, datado de 1859, o político Cândido Batista já expunha a conversão das medidas de comprimento, capacidade e peso, enquanto dividia matematicamente suas mil e uma atividades entre a direção do Jardim Botânico, a publicação da Revista Brazileira, voltada às ciências letras e artes, às sessões no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, onde era Vice-presidente, ao estudo das latitudes e longitudes, e ao sistema financeiro do Império.

Era pouco Cândido para tantas missões. Sabia ele que a batalha pela aceitação do sistema decimal seria longa e dela não veria o final, falecendo em um naufrágio em 1865. Por longo tempo ainda a tradição inglesa continuaria arrastando seu manto pelas terras brasileiras, encorpando-se à medida que se afastava dos grandes centros, onde a indiferença, a desinformação e o costume retardavam sua adoção.

Nem é preciso ir muito longe na cronologia: os livros de culinária de nossas avós, sendo eles datados da primeira metade do século XX, traziam ainda as medidas da farinha de trigo, da manteiga e demais ingredientes ao puro modelo inglês.

E é curioso registrar que até hoje, bem encaminhado o século XXI, sobrevivem pelo menos duas remanescentes dessas medidas imperiais: as polegadas, com as quais são produzidos canos, conexões hidráulicas e as telas de TV, e aquela outra, indizível, dos palmos inescapáveis da nossa derradeira morada.
Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

 

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