Os tesouros do padre (2), por Angela Barros Leal

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Um dos desenhos obtidos por Tomás Pompeu Sobrinho para a Revista do Instituto do Ceara de 1956, reproduzindo algumas inscrições encontradas no Ceará conforme indicações do Padre Francisco Teles de Menezes.

O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro guarda os quatro volumes originais e quatro duplicatas do livro manuscrito pelo Padre Francisco Teles de Menezes, totalizando 232 páginas, no qual está registrado parte do patrimônio natural do Nordeste.

Encontra-se em estado “precário”, na própria definição do IHGB, o que deve dificultar sua conversão para meios digitais, porém continua sendo preciosa fonte de informação graças aos apontamentos para a História do Ceará, do Senador Pompeu, e aos trechos reproduzidos pela Revista do Instituto do Ceará, em artigos assinados por Tristão de Alencar Araripe (1909) e Tomás Pompeu Sobrinho (1954 e 1956).

Por eles sabemos hoje da existência disseminada nos sertões daquilo que o padre e o povo chamavam “letreiros”, que os gregos antigos denominavam “grafitti” e que os estudiosos categorizam como litógrafos, inscrições ou pinturas rupestres. Tristão selecionou e ordenou alfabeticamente os locais citados pelo padre, restritos aos limites do Ceará. Pompeu Sobrinho foi além, detalhando as regiões cearenses onde as manifestações eram mais frequentes, como o planalto dos Inhamuns, a serra da Ibiapaba, a região do Banabuiú e o Médio Jaguaribe, e reproduzindo alguns dos desenhos.

Mais científica era a visão deles, buscando identificar a origem de tais letreiros: se indígena, de tribos ainda existentes, se mais remota, de agrupamentos extintos, se ainda mais recuada no tempo, remetendo a visitantes assírios, babilônios, a caracteres do alfabeto grego ou hebraico. Como bem podiam indicar as inscrições do “sino samão”, ou “sino saimão”, corruptela do sinal de Salomão, o “signum salomonis”, dois triângulos superpostos com os vértices apontando para o céu e para o chão.

A interpretação dos historiadores citadinos do século XX diferia dos sonhos do Padre Francisco de Menezes no alvorecer do século XIX, levado a associar os traços na pedra a pistas para ocultos tesouros, indicações cifradas para o esconderijo dos butins das invasões holandesas, sugerido pelos cacos de “louça fina” que diziam encontrar, ou de preciosidades ainda mais valiosas, guardadas sob a terra.

Muitos desses sinais ele vira com os próprios olhos, como os que se assemelhavam a espinhas de peixe, patas de aves, figuras geométricas, abstratas, setas, serpentes, espirais, labirintos, portas e janelas, um mundo delirante de imagens de incerta interpretação. Vira as inscrições humanizadas apostas sobre a pedra na lagoa do Souza, ribeira do Jaguaribe, “no caminho do Aracati para Russas, perto do qual, em um tabuleiro de areia branca, se avistam da estrada umas pedras brancas”.

Com tão precárias indicações geográficas o padre chegara ao lugar indicado e testemunhara “a maior parte das pedras lavrada de pinturas de tinta encarnada, onde estavam uma carreira de mãos, umas grandes e outras de menino, na altura que só um homem alcança, como quem ensopava a mão na tinta encarnada e assentava na pedra”. Talvez as mãos de um pai, talvez as mãos de um filho. E continua: “Em 1787 vi eu, que ainda estavam bem distintas, além de outros caracteres que não me lembro.”

Anos depois, “dizem que não mais se divulgam”, esclarecera o padre, atribuindo o apagamento à impiedade da Natureza: “Julgo que a força do grande calor, por causa das muitas secas, ainda extingue mais que a chuva”.

Vira também, no sopé da fazenda Santa Luzia, em um serrote de pedras à beira de um riacho, a representação de um castelo ao longe, “o qual está todo rodeado de letreiros de tinta encarnada. […] Até a era de 1800 os vi eu, que ainda com trabalho se podiam copiar”. Na Tapera, ribeira do Banabuiú, “entre Inxu [sic] e São João, por um córrego acima, na ribanceira do córrego ao lado esquerdo, estão grandes letreiros em quatro partes nas faces das pedras da parte do poente, de tinta encarnada.

E finaliza, cansado de tantas andanças: “Em umas estão as tintas bem vivas, em outras porém mais apagadas, que só com muito trabalho se podem copiar. O que não fiz por chegar ao lugar já fatigado da grande caminhada”.  Era humano, o padre, que com a coragem “de um indigno sacerdote índio nacional brasílico”, como se definira no prefácio de sua obra, nos deixou de herança imenso e quase esquecido tesouro.

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