Obtuário da querida maestrina, por Dimas Oliveira Costa

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Maria Angélica Rodrigues Ellery.

Maria Angélica Rodrigues Ellery, maestrina e professora de música da Universidade Estadual do Ceará-UECE, morreu vítima de COVID aos 74 anos de idade. Seu sepultamento no último final de semana contou com poucos familiares. Seu marido, Eduardo Ellery, que com ela ingressou no mesmo hospital com COVID, segue entubado.

Durante quase meio século formou gerações de músicos no Ceará. Ao lado de nomes como Dalva Stella e Izaira Silvino, posicionou o Estado como um dos mais expressivos centros de formação coralista do País.

Era prima do jornalista Dorian Sampaio, a quem chamava de irmão. De sólida formação clássica, compreendia inexistir contradição entre apresentações que unissem o lirismo de Mozart, Handel à brasilidade de Jobim, Badem ou Luís Gonzaga.

Foi aluna do músico brasileiro de origem Alemã, Joachim Koellreuter, professor de Guerra Peixe e Tom Jobim dentre outros. Koellreuter, além de técnicas europeias incorporou o Hinduísmo indiano com a música microtonal em suas composições além do Zen-Budismo que conheceu no Japão, construindo o que ele nomeava de “estética do impreciso e paradoxal”.

Inúmeras são as histórias de Maria Angélica contadas a partir de seu casarão na avenida treze de Maio, local onde recebia jovens alunos e nomes que marcariam época. Destes, Paulo Abel, cantor e músico cearense de registro vocal soprano raro para homens, se destacava.

Aparecendo sem avisar a qualquer momento, abancava-se no sempre afinado piano e cantava horas a fio. As crianças eram acordadas com a cumplicidade da maestrina. Ela o sucedeu na regência do coral da antiga escola técnica. Paulo Abel foi imortalizado na bela cena em que canta “ ombra mai fu” de Hendel no filme Ligações Perigosas com Glenn Close.

De todas as homenagens possíveis, talvez a mais expressiva, justamente por captar a singeleza do seu espírito seja a dedicada por um ex aluno e hoje Professor, Pablo, da UECE: “Sólida nos argumentos. Nunca condescendente, mas sempre instigante e interessada. Um jeito doce de ser firme. Tanta gente querendo escrever seu nome numa placa, num livro, e Angélica escrevendo seu nome na gente”. Ímpar!

Há três anos havia voltado a reger seu antigo coral, De Angelis, por sugestão e insistência do seu mais importante pupilo, Maestro Poty.

Poucas semanas antes de se internar já comemorava ter recebido a primeira dose da vacina, e de fé renovada, falava sobre a resistência da beleza e da arte contra todo e qualquer esgarçamento do tecido social.

Um exemplo lhe era caro, o da Casa da Vovó Dedé, escola de música para jovens pobres que encravada na Barra do Ceará, traduzia, nesse sentido, o mundo com suas infinitas possibilidades.

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