A solidão dos lúcidos

COMPARTILHE A NOTÍCIA


Por Ricardo Alcântara
fortaleza.ricardo@gmail.com

Há uma corda tensa, estendida sobre o abismo. Em cada margem, grupos antagônicos disputam o monopólio da virtude. Uns se julgam acima da lei e podem cometer no poder os mesmos desvios que tanto condenavam sem sofrer sanções, já que têm a senha de acesso à emancipação da humanidade. Outros, em sua ânsia de ordem, julgam as leis insuficientes e clamam por um ato de força que restaure, sob o império do medo, uma pátria isenta de controvérsias. Em ambos, a mesma pretensão: como corretores do paraíso, vendem o que não conhecem: ambos, quando receberam a tarefa, conduziram nações ao terror, deixando para trás economias em ruína e traumas psicológicos irreparáveis.

Tão contaminado está o exercício da política partidária no país que é quase impossível penetrá-lo sem contrair os vírus que esterilizam a conduta de quem queira mudar as coisas. Muito pior do que ver a produção nacional apodrecer no congestionamento das rodovias (por motivações legítimas, mas métodos condenáveis) é o desabastecimento de autoridade que faz escassa a oferta de alternativas consistentes para a crise. A paralisação dos caminhoneiros é uma boa metáfora para o governo Temer: ele, igualmente, não anda, nem deixa passar. É um governo tão desastroso que tanto sua continuidade quanto sua interrupção se tornam alternativas igualmente críticas.

Enquanto isso, a insensatez marcha na direção do impasse. Enquanto os caminhões paravam o Brasil, o plenário vazio do congresso nacional (afinal, era sexta-feira e ninguém é de ferro) era o retrato acabado da amplitude e profundidade do abismo que nos separa – nação e Estado. Os que tensionam a corda sobre ele, incitando o agravamento do quadro, são aqueles mesmos que, dito no início, pouco prezam a lei: uns a consideram insuficientes; outros, feitas para uso exclusivo de seus adversários. E aqueles que procuram se manter fiéis aos preceitos pacientes do “pior regime (à exceção dos demais), a Democracia”, vivem a solidão de sua lucidez expostos aos ataques daqueles celerados que tencionam a corda sem se dar conta de que, uma vez partida, ela arrastaria a todos para o mesmo fundo escuro da crise.

 
 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus para presidente no Ceará: Lula amplia vantagem e chega a 60,8%; Flávio tem 28,9%

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

MAIS LIDAS DO DIA

Produção de veículos cresce 10,2% em setembro e atinge melhor resultado para o mês desde 2014

Faturamento da indústria de transformação cai 3,5% em agosto, aponta CNI

UOL: 69 parlamentares eleitos são investigados ou réus por crimes

Nordeste no banco dos réus: 27 milhões de ataques em três dias

Vicente Aquino chega ao BNB em área estratégica — e sob pressão

Siará Tech Summit 2026 começa em Fortaleza reunindo ecossistema de inovação, tecnologia e negócios

Batalha pela cobrança de ingresso para entrar em Jeri: Urbia sofre novo revés na Justiça

Com aplausos, Kátia Abreu expõe incômodo no PT: “Paulistas sem voto” e “menos Janja, mais Alckmin”

Os dois brasis; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto