As portas criptografadas do futuro. Por Angela Barros Leal

COMPARTILHE A NOTÍCIA

A tela do computador pisca para mim em cumplicidade enquanto um algoritmo desconhecido demanda uma senha. Reviro meu ficheiro cerebral em busca da palavra chave, a key word que possa me dar acesso ao que procuro. Que senha terei usado… Tento datas de aniversários dos familiares. Endereços. Nomes dos animais de estimação, vivos e mortos. Apelidos e sobrenomes. Tento uma combinação randômica desses dados. Uso maiúsculas. Minúsculas. Nada funciona.

Até um tempo atrás, pouco sabia eu de senhas. Na infância, se impusera em minha memória uma senha ressonante, assombrosa, capaz de abrir os portais de cavernas de tesouros das mil e uma noites: Abre-te sésamo! – tudo junto, sem acento, e com ponto de exclamação no final. Essa era a que conhecíamos, familiar às crianças, a senha do chefe do bando dos quarenta ladrões, aquela que fazia girar, por desconhecidos mecanismos, a monstruosa rocha por detrás da qual o ouro, a prata, as pedras preciosas roubadas em terras árabes findavam ocultas de seus legítimos donos.

Abretesesamo! ampliava nossa imaginação para o significado de tesouro, palavra que trazia já embutida o ouro que conhecíamos tão somente de vê-lo no dedo anular de nossos pais. Abretesesamo! abrangia a incógnita da pérola, meio mineral, meio animal, fruto estranho gerado no ventre das ostras.

Incluía ainda os rubis e safiras, topázio e esmeraldas, jade e ametistas, preciosidades das quais sabíamos os nomes, porém não o valor monetário, apreciadas por nós, crianças, pelas cores, pelo brilho, e pela certeza de que o ruído de nossos dedos mergulhando nelas, movendo-se em meio a elas qual pequenos polvos, não seria tão diverso do som que obtínhamos ao erguer as mãos e deixar cair punhados quase líquidos de coloridas bilas.

Havia também o segredo do cofre, onde era mantido o revólver – garantia da segurança física da família – junto com as joias das avós, o dinheiro em papel, as certidões, os recibos, documentos sem tempo e sem preço que ancoravam nossa frágil segurança material. Esse segredo não contava exatamente como senha, apesar de similar na função. Víamos atentos como o dial prateado era girado entre polegar e indicador, com delicadeza de amante, tantos números à direita, um estalo, outros tantos à esquerda e novo estalido, até que se encaixassem saliências e reentrâncias, permitindo a abertura da portinhola de ferro e o acesso a seus mistérios.

Mais tarde, aprendemos que as senhas eram utilizadas nas guerras mundiais. Fugindo da fuzilaria inimiga, protegendo-se em trincheiras úmidas sob céus de chumbo, aguardando o suprimento de reforços humanos ou de informações vitais, um militar norte-americano criado a leite e milho gritava Flash! e sua contraparte respondia Thunder!, em meio aos clarões e trovões dos bombardeios cinematográficos.

Na Guerra Fria conhecemos os espiões em seus longos casacos de chuva, chapéu sombreando meio rosto, mãos nos bolsos e cigarro preso no canto da boca, trocando um com outro informações falsamente triviais: Dia bom para nadar, enunciava um, ao que o outro, olhos fixos no horizonte retrucava, a meia voz, a contrassenha: Mais favorável à noite. E as barreiras desabavam para a troca de comunicações sigilosas, clandestinas.

Tudo isso eu sabia. Até a chegada da Revolução Tecnológica, fazendo de mim mais um refém das senhas diárias.

Não desisti da tentativa de recordar o código com o qual espero acessar os portais luminosos desse mundo temporariamente inalcançável. Quis o supremo criador da tecnologia cifrada que todas as assistentes fossem femininas, de doces vozes, e ganhassem nomes pouco intimidadores, assim como Cris, a assistente virtual a aguardar impávida o digitar das letras e números.

O tempo escorre da ampulheta e nada me vem à mente, exceto admiração e crescente respeito pelos hackers. Esses sim são os donos de todas chaves, os usuários frequentes de um abretesesamo! particular, invasores ferozes de nosso Inferno mnemônico. São eles os salteadores invisíveis dos portões atrás dos quais depositamos o balanço de nossas contas bancárias, os dados de nossa saúde, as fotografias e lembranças de nossas famílias, o registro do que dissemos, do que compramos, do que lemos e do que ouvimos.

Devem eles ter parte com o diabo, como diziam os avós. Enquanto insistimos nós em frustradas tentativas – nós, os legítimos detentores dos códigos alfanuméricos que, em geral, nos protegem apenas de nós mesmos – eles conseguem, em um toque de dedos, acessar o conteúdo de nossos aparelhos celulares, redes sociais, de nossa tão vulnerável privacidade.

Cris esgotou seu tempo e desapareceu para atender a outros, mais desenvoltos. Busco um número telefônico. Que me conduz por novo labirinto de opções a serem digitadas. Enquanto aguardo, me vem a certeza de que, pelo menos para mim, esse futuro de portas criptografadas chegou cedo demais.

 

Angela Barros Leal é jornalista e escritora.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: dobradinha Cid-Luizianne soma 59,6% dos votos válidos para o Senado

Atlas/Focus: Elmano 49,9% x Ciro 49,6% dos votos válidos; Ceará chega à urna separado por um fio

Focus/Atlas: Aprovação de Elmano vira a favor; Avaliação do governo melhora, mas continua dividida

Atlas/Focus: Cid e Luizianne nas duas primeiras posições no Senado; dupla abre vantagem sobre Wagner e Alcides

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

MAIS LIDAS DO DIA

Michelle Bolsonaro é eleita senadora pelo Distrito Federal

Nikolas Ferreira é reeleito e se torna o deputado federal mais votado da história

Erika Hilton é reeleita e se torna a mulher mais votada da história do Brasil

Cid Gomes reeleito: o grande articulador de 2026

Flávio x Lula no 2º turno: 2026 repete 2022, mas com diferenças decisivas

Elmano: uma vida construída passo a passo

Luizianne senadora: a volta por cima de quem nunca saiu do jogo