Imagens de satélites mudam maneira de acompanhar guerra na Ucrânia

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Foto: Gabinete do Presidente da Ucrânia

Equipe Focus
focus@focuspoder.com.br

Antes mesmo da ordem de invasão, satélites comerciais já informavam o mundo sobre a movimentação das tropas russas na fronteira ucraniana. Iniciado o conflito, dados obtidos por eles são usados para tudo: de provar massacres até combater a desinformação. Mais avançados, baratos e independentes, os satélites comerciais encontraram na guerra uma chance de expansão.

Não é a primeira vez que o uso de satélites marca uma guerra. A primeira foi a do Golfo (1990-1991), que popularizou os sistemas de GPS. Também foram cruciais nas guerras do Afeganistão, Síria e na anexação russa da Crimeia, em 2014.

Mas é primeira vez em que permitem provar com tanta precisão atrocidades de guerra – ao demonstrar que cadáveres com sinais de execução na cidade de Bucha não foram “plantados” por forças ucranianas. Tornaram-se uma espécie de câmera de segurança capaz de registrar um crime em escala universal.

“É uma indústria em crescimento”, afirma Anuradha Damale, pesquisadora do Conselho de Informação de Segurança Americano-Britânico. “A tecnologia está mais disponível, tem maior capacidade e é menos cara – embora não seja barata.”

Existem dois tipos principais de satélites comerciais. Os pertencentes às empresas Maxar Technologies e Planet produzem imagens ópticas, usando sensores infravermelhos visíveis, infravermelhos próximos e de ondas curtas para produzir imagens fotográficas. Há limitações, já que satélites que dependem de luz visível ou infravermelha não podem ver através de nuvens e não são tão eficazes à noite.

VERSATILIDADE. Mais desenvolvido, o SAR (Synthetic Aperture Radar), de empresas como Capella e Airbus, emite sinais de radar de micro-ondas na superfície da Terra para detectar propriedades físicas. Usado para capturar e rastrear movimentos de pequena escala, como o de tropas, ele funciona em todos os tipos de clima e à noite.

Na guerra, a utilidade dos satélites é incontestável. “A captura de imagens permite o monitoramento contínuo da situação sem colocar vidas em perigo”, explica Kelly Winter, porta-voz da SkyWatch, plataforma de compra de imagens de satélites. “O monitoramento ajuda a identificar ações futuras, para que as pessoas no local sejam mais bem informadas e preparadas.”

As informações capturadas por satélites de companhias privadas se tornaram tão importantes que Mykhailo Fedorov, vice-premiê da Ucrânia, fez em março um apelo para que as empresas compartilhassem as imagens com os ucranianos. “Precisamos observar o movimento das tropas russas, especialmente à noite”, escreveu ele no Twitter. “Esta é a primeira grande guerra em que as imagens de satélite disponíveis comercialmente podem desempenhar um papel significativo no fornecimento de informações de código aberto sobre mobilização militar, fluxos de refugiados e muito mais.”

Antes atrelados a governos e à inteligência militar, os satélites estão hoje nas mãos de empresas privadas, como a Maxar, BlackSky e a Planet, que ganharam importância, mudando a dinâmica de acesso à inteligência.

PARCERIAS. O governo americano investe em parcerias com empresas privadas de satélites há anos. “O uso de satélites não é novo. A diferença é que, agora, essas imagens são muitas vezes terceirizadas de companhias privadas para os governos”, disse Damale.

Outra mudança foi em relação a quem tem acesso aos dados. Embora seja o principal cliente da Maxar – a quem paga US$ 300 milhões por ano para acessar quatro satélites e arquivos de imagens de alta resolução – e tenha “direitos de preferência” para a atribuição dos satélites, o governo americano não é o único cliente. Como fornecedor comercial, a Maxar pode vender ou divulgar publicamente seus dados.

Sem o selo de “informação confidencial” e com acesso liberado a quem paga por elas – em valores que chegam a US$ 2,50 por km² -, as imagens ganharam tração e chegaram ao público, se proliferando entre cidadãos comuns, difundidas pela imprensa, redes sociais, ONGs e indivíduos.

CRIMES DE GUERRA. Em abril, imagens de satélite desmentiram a versão russa de que o massacre de Bucha, na Ucrânia, havia sido montado pelos ucranianos. Moscou argumentava que os corpos abandonados nas ruas haviam aparecido após a retirada de suas tropas, no começo do mês. Imagens capturadas pela Maxar, porém, mostraram que os cadáveres estavam espalhados há pelo menos duas semanas.

Desde então, empresas comerciais de satélites vêm ajudando a montar casos de crimes de guerra contra a Rússia, documentando ataques a civis. Damale acredita que não há dúvidas de que as evidências comerciais são confiáveis. “Uma imagem de satélite é uma foto com local e data”, afirma. “A partir desses elementos, é possível usar outras ferramentas, como imagens de outras companhias ou o Google Maps, para checar sua autenticidade e veracidade de uma informação.”

PRECAUÇÕES. Para Winter, embora os dados brutos sejam imparciais, alguns cuidados precisam ser tomados. “Como acontece com qualquer fonte de dados, você precisa entender o que está vendo e estar ciente do que está obtendo”, disse.

Segundo ele, muitas empresas aumentam ou enriquecem os dados de satélite com inteligência artificial e modelos de aprendizado de máquina para ajudar seus clientes a monitorar a saúde das plantações ou a infraestrutura crítica.

“A melhor maneira de garantir que você está analisando dados imparciais é trabalhar com uma fonte de dados respeitável que explique o que está fornecendo”, disse Winter.

 

Agência Estado

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