Quando a família governista precisa discutir a relação, a análise de Ricardo Alcântara

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Os sorrisos são francos, mas as disputas interna tornam-se barulhentas.

Quem acompanha o processo político no Ceará não tem motivos para se mostrar surpreso com os ataques verbais de Ciro Gomes à honra de seus “inimigos íntimos” do PT local. Em um debate recente (Focus Coloquium), alertamos que o apoio — frequente e ostensivo — das alas lulistas da aliança governista (PT e MDB) ao nome da governadora Izolda Cela como candidata preferencial a nova eleição estava esticando demais a corda, sabidamente pouco flexível, de Ciro, que apoia outro nome, o do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio. Não se passou uma semana, desde então, para que a projeção se confirmasse.

O quadro geral é difícil para Ciro. Narciso não é menino. Sabe bem o que se passa à sua volta. O candidato a presidente não tem mais de trinta dias para se mostrar viável às lideranças regionais de seu partido (PDT) e não são grandes suas chances de ultrapassar consistentemente a barreira dos dois dígitos nas pesquisas de opinião. Se não conseguir, será um estouro de boiada: vai cada um cuidar de sua própria sobrevivência política. Aqui mesmo, no seu Ceará, suas intenções de voto são inferiores às do presidente Bolsonaro, que não é um candidato propriamente benquisto pelos nordestinos em geral.

Embora seja filiada ao partido de Ciro, e reconhecida como um quadro leal aos Ferreira Gomes, Izolda Cela — aí, sim, surpreendentemente — reagiu de imediato à fala áspera da liderança, discrepando de público, e com a sobriedade formal de quem não entrou na disputa a passeio: emitiu uma nota em que prestigia os aliados por ele criticados, numa clara demonstração de desagrado. A política possui dinâmica própria: embora filiada ao PDT, é inegável que o centro de gravidade da candidatura da governadora, pelo conjunto de forças que mobiliza, se encontra, pelo menos no momento, mais distante de Sobral.

Ricardo Alcântara é publicitário e escritor. Escreve artigos com a análise política no Focus.

Izolda não é uma política profissional. Foi indicada a vice-governadora na chapa de Camilo Santana para orná-la com um design social mais realçado — uma mulher dedicada à Educação. Assumiu agora o governo, a princípio, em cumprimento à sua função, com a desincompatibilização de Camilo, que concorre ao senado. Uma nova candidatura ao governo, com declarada preferência do ex-governador, é uma possibilidade, mas não uma obsessão pessoal. Isso lhe dá uma liberdade de ação mais desprendida que, em momento crítico, lhe dispensa de engolir alguns tipos de sapos — e eles são robustos na elaboração da engenharia eleitoral.

Portanto, ter a governadora em seu partido não significa, necessariamente, ter o governo mobilizado em torno do nome indicado por ele na medida esperada. O processo de construção dessa candidatura dirá a intensidade com que o Palácio da Abolição irá mobilizar seus canais de influência e pressão para elegê-lo — se for outro e não ela mesma. E a truculência retórica não é a modalidade mais indicada para abrir caminho a outro candidato, que não a própria governadora, sobretudo quando o conjunto de lideranças que dão força efetiva à aliança já a apoiam.

Conclusão? Curta a valsa, mas cuidado para não pisar no pé da noiva e ser abandonado no altar!

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