Lar doce lar. Por Angela Barros Leal

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Falta só uma légua – diz o motorista pela terceira vez. Somando nos dedos (o máximo de esforço que, naquelas circunstâncias, eu conseguia investir em operações aritméticas), as seguidas léguas já deviam ultrapassar uns 18 quilômetros, sacolejando com mais três pessoas da família sobre as molas maltratadas de um jipe marcado por cicatrizes ferozes.

Vocês tão vendo ali aquele coqueiral – aponta ele com o queixo, indicando algum lado que não sei se fica à direita, à esquerda ou à frente, e eu sou a primeira a responder, mentirosamente, que sim, que vejo o tal coqueiral, uma miragem em algum ponto da vastidão das areias, enquanto o motorista informa que o local aonde vamos se posiciona cerca de uma légua depois do coqueiral.

O jipe galopa acima, abaixo e entre as dunas, mantendo um empenho digno de apreço. Sob um sol extrovertido, nos amparamos nos metais corroídos que sustentam a estrutura daquele precário meio de transporte; deixamos as marcas de meia lua das nossas unhas no encosto de vinil gasto dos assentos dianteiros; causamos equimoses e contusões involuntárias nas áreas expostas dos corpos de uns e de outros.

Os trechos do percurso se alternam e a estrepitosa troca de marchas do jipe obedece ao capricho do terreno. Por algum tempo, seguimos sobre trechos de areia compactada, ainda úmida, na qual os pneus do veículo deixam sulcos suspeitamente lisos, sem sinal algum de aderência. Caranguejos minúsculos e baratinhas d’água fogem espavoridos para a proteção temporária dos arrecifes e castelos de pedra que emergem da areia, e que logo mais estarão submersos – caso a tábua de marés se aplique a essas lonjuras.

Por outro tanto de tempo, corcoveamos sobre extensões de areia fina, dourada, quase impalpável, suportando com um sorriso fixo e piadas sem graça a trepidação do carro e as espetadelas proporcionadas pela areia inquieta, perambulante, alfinetando com maior intensidade ao cruzarmos com veículos que procedem da direção oposta, ou que nos ultrapassam nesses desérticos caminhos levando à terra prometida.

Estamos de férias. Queremos novidades, mudança de rotina. Somos sexagenários em razoável estado de conservação física e mental, buscando lazer. Aspirando diversão. Sonhando com o ócio. Ansiando pelo repouso paradisíaco em algo semelhante à sombra daquele coqueiral, que o motorista indica com o queixo, a uma légua de distância.

Falo por mim: difícil usufruir das belezas ao longo desse itinerário de léguas mágicas, reproduzindo-se despudoradas diante de nós; difícil visualizar os detalhes da paisagem, levando em conta os olhos salgados pelos grãos de areia e os cabelos emaranhados pelo vento; mais difícil ainda enfrentar o embate épico entre a fantasia e o mundo real, a intensa mobilização de tropas e armamentos pesados destinados ao brutal combate entre o que pertence ao reino das nuvens, e o que se ancora ao rés do chão.

Pelo desígnio do mundo das expectativas, desceríamos lá, no local ao qual nos destinamos, carregados pelas asas fofas de anjos. Aterrissaríamos na ponta dos pés, sustentados pelo sopro de uma brisa entre doce e salgada, o angelical equipamento de bordo registrando pouso suave, gracioso, bem-sucedido.

Toda a nossa ossatura estaria posicionada em seus encaixes corretos, do astrágalo ao parietal, do hálux ao osso frontal. Articulações, tendões, músculos e ligamentos repousados. Nervos imperturbados. Nem um único fio de cabelo fora de seu devido lugar.

A delicadeza do pouso nos levaria a apreciar o ambiente com olhos de esteta, deliciando-nos com o respeito demonstrado à Natureza, com a rusticidade poética das residências, equilibradas à beira do mar, com o marulhar das ondas movendo as conchinhas cor-de-rosa, com a hospitalidade dos nativos.

Nesse rés do chão em que estamos agora, apeando do jipe na porta da pousada, tentando recuperar a firmeza de nossos membros inferiores enquanto equilibramos os poucos volumes de bagagem, nada nos parece belo. A fantasia ergueu seu véu, e por trás dele vimos apenas nossos rostos exauridos, tostados pelo calor.

Mas temos a tarde inteira para descansar, e nos prepararmos para uma semana de convivência casual com os adoradores do sol, com as sacerdotisas da lua, com os comedores de lótus. Uma semana também para esquecermos as vias terrestres, e comprarmos as passagens aéreas que nos devolverão confortavelmente aos nossos sofás, poltronas e rotinas, de onde alardearemos ao mundo que foi bom, é fato, mas que a melhor parte de toda viagem é – e sempre será – a hora da volta ao lar.

 

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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