Confissão. Por Angela Barros Leal

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Confissão. Foto: Freepik

Perdoai-me, Senhor, porque pequei, e vim aqui agora, a essa hora da noite, de joelhos confessar onde errei (se bem que não tomeis o que digo ao pé da letra, Senhor, pois é sentada que escrevo a Vós), e meu erro se deu naquele shopping (bem sabeis ao que me refiro, àqueles lugares onde pessoas vão comprar o que não precisam, e comer o que não deveriam, mas isso não vem ao caso), pois voltando àquele shopping, sabeis que não me comportei como deveria se comportar alguém que segue Vossa Igreja e Vossos preceitos, ou pelo menos tenta segui-los, especialmente o que diz “amai-vos uns aos outros”, e não amei, Senhor.

Vi primeiro o homem, de barba e expressão fechadas, e a menininha enrodilhada na proteção dos braços dele, Senhor, talvez tivesse 6 ou 7 anos de idade, o que sabeis ser um tempo de vida não maior do que um suspiro diante de Vossa eternidade, e a menininha sorriu para mim e me disse algo em uma língua desconhecida, não hispânica, o que facilitaria tudo, é claro, e eu sorri de volta para ela, e esse foi o único sinal de humano reconhecimento que manifestei antes de baixar minha cabeça para o aparelho celular (sabeis do que se trata, Senhor, dessa máquina projetado pelo demônio para roubar nossa sanidade mental e matar nosso tempo), e fingir não ter visto nem ouvido a menina, tanto que, quando se aproximou a mãe dela, trazendo um bebê ao colo, e conversou com o homem e a menina naquela mesma língua estrangeira, visivelmente ansiando estabelecer contato com um nativo (no caso, eu), fiz de conta que não os via, Senhor.

Dominus vobiscum, recordo da missa em latim, considerando que posso estar me comunicando de forma errada, já que és o próprio Dominus, Senhor, mas enfim, et cum spiritu tum, Vós, em Vossa profunda sapiência, entendeis o que anseio confessar.

E eles conversaram entre si, em vozes musicais e inauditos sons, e me veio à mente que talvez fossem visitantes, ou migrantes, vindos da Síria (Vós não esquecestes, Senhor, o povo que ocupou a antiga Assíria, antes ou depois dos fenícios, sumérios, assírios, gregos e bizantinos), embora a mulher não usasse véu, e inclusive vestisse calças compridas, por isso mesmo descartei essa nacionalidade, mas isso não vem ao caso agora, Senhor.

Se não eram sírios, conversando em uma língua que em nada se assemelhava à nossa, e Vós bem sabeis, depois da malfadada Torre de Babel, dos 7 mil idiomas disseminados por aí, se não eram sírios talvez fossem ciganos, foi o que pensei, Senhor, e por isso mesmo recolhi meu sorriso de resposta e mergulhei no sorvedouro que é o Instagram (cujos riscos nem Vossa Divindade tenha talvez conseguido apreender em toda a magnitude com a qual se apresenta, esse monstro devorador de nossas parcas horas sobre a Terra).

E prosseguindo em minha humilde confissão, Senhor, aproveitei a rede de internet do shopping e acessei o Google, tentando recuperar dados sobre ciganos e seus costumes, e interrogando a mim mesma se com isso não estaria eu sendo politicamente incorreta, Senhor, esse pecado mortal dos novos tempos, e que talvez não fossem ciganos, porque de repente me pareceram russos, fugitivos talvez de uma guerra em gestação, escapando de uma besta-fera bufando chamas, porém não percebi, na língua que falavam, a modulação da língua russa, comprovada por linguistas como soando tão assemelhada ao nosso idioma.

Perdoai, Senhor, minhas tantas dúvidas e tão desnecessários desdobramentos, pois quem eu via na minha frente, enquanto aguardava meus acompanhantes naquele shopping ruidoso e movimentado, quem eu via sentado em um banco decorativo feito em madeira, eram pai, mãe, uma filha e um bebê, uma pequena família estrangeira, ansiando por atenção, querendo ser enxergada, desejando ser afirmada em sua existência, e que diferença deveria fazer para mim se fossem sírios, ciganos, russos ou alsacianos, se eram pessoas como eu ou você (não interpreteis mal, Senhor, uso o termo “você” no sentido corriqueiro, sem me referir diretamente à Vossa Divindade, acima do Bem e do Mal).

Fato é, Senhor, que ergui entre os dois bancos uma invisível fronteira policiada, fiz de conta que eles não estavam ali, poucos passos à minha frente, e que eram tão inexistentes quanto o espírito de fraternidade que de mim se ausentou, e fingi apreciar as vitrines das lojas, deliciar-me com a música ambiente, evitando ao máximo, e sem razão, a tentação de sorrir para eles, ou de me dirigir a eles e perguntar, com gestos ou palavras (poucas que fossem), que idioma usavam, de onde vinham, o que faziam no Nordeste brasileiro, e nenhuma atenção evidente dirigi a eles, e por isso mesmo me penitencio agora.

O pecado se deu mais ou menos um mês atrás, Senhor, mas o sentimento de culpa não se abateu e confesso que, de vez em quando, retorno ao shopping esperando reencontrá-los, e sei que Vós ireis me ajudar a encerrar essa expectativa, para que eu possa pedir perdão àquela família a passeio, ou em busca de refúgio, o que agravaria minha culpa, minha máxima culpa, e emitir, ainda que com atraso, a humanitária saudação de boas vindas, merecida pelos pobres mortais que somos todos, obedecendo ao que ordena Vosso livro sagrado: acolher o forasteiro, o peregrino, é o mesmo que acolher o próprio Deus, e que assim seja, amém.

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