
Beatriz Albuquerque e Sérgio Rebouças
Post convidado
O Brasil vive uma fase de intensa polarização política atrelada ao grande descrédito com a classe política de maneira geral. Os partidos e seus respectivos candidatos passaram a se utilizar de todo e qualquer artifício para tentar conquistar votos e atingir suas respectivas metas eleitorais.
Assim, a eleição se afasta cada vez mais do exercício da consciência democrática para se tornar uma espécie de “jogo”, em que o fanatismo cego por determinado partido ou político abre espaço para práticas retrógradas à democracia, como, por exemplo, o chamado voto útil, que é uma forma de manipulação de votos, situação em que os eleitores deixam de escolher os melhores candidatos de acordo com suas perspectivas ideológicas e políticas para votar em um candidato “menos ruim”, com o objetivo de tentar evitar a eleição do péssimo.
Não é de hoje que os brasileiros recorrem à prática do voto útil, tática que está presente em quase todas as eleições. Contudo, durante o primeiro turno das eleições gerais de 2022, essa prática foi adotada por uma parcela excessivamente grande dos eleitores, que muitas vezes desconhecem seus efeitos negativos para a difícil formação da consciência política do país. Ao praticar esse tipo de voto, o eleitor renuncia ao importante direito de exercer a cidadania politicamente consciente, que é essencial para a escolha dos candidatos mais preparados para administrar o país.
Nas eleições de 2022, os próprios partidos políticos e seus candidatos, mesmo cientes dos malefícios dessa prática, buscaram a todo custo incentivá-la, o que representa um retrocesso para o exercício da cidadania e para o avanço da democracia no Brasil.

Vale ressaltar que o exercício da cidadania nas eleições não se restringe apenas ao ato de votar. É de suma importância ao processo democrático que os eleitores participem efetivamente das campanhas, pesquisando e se informando sobre as propostas e planos de governo dos candidatos, atitudes que também não foram incentivadas pelos candidatos durante o período eleitoral. O voto útil é um mero voto de oportunidade ou de conveniências. O eleitor brasileiro precisa compreender a importância do voto consciente em uma eleição.
Naturalmente, a prática do voto útil é favorecida em um sistema marcado pelo fisiologismo e pela ausência de limites ideológicos claros entre os inúmeros partidos. Não há condições de identificação clara e firme do eleitor com pautas de vários desses partidos políticos (muitos sequer apresentam qualquer pauta definida), o que favorece o alinhamento pragmático a um dos dois candidatos favoritos, sobretudo como uma posição de rechaço e protesto frente ao outro.
Em todo caso, diante do preocupante cenário eleitoral no qual se encontra o país, fica claro que ainda existe uma grande deficiência política no cidadão brasileiro, que facilmente pôs de lado seus verdadeiros ideais políticos para votar em candidatos que não o representavam. Ao preferir aderir ao um tipo de voto totalmente pragmático, o cidadão ignora seus princípios e valores básicos, esquecendo-se de que tem uma grande importância para a evolução política e democrática do Brasil.
A constatação dessa deficiência aponta um grande abismo entre o cidadão brasileiro e o verdadeiro exercício da democracia. Deve-se ao máximo combater esse tipo de prática e buscar incentivar uma consciência política firme e duradoura.