Um ano de analfabetismo. Por Angela Barros Leal

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Welkom é fácil de decifrar: assemelha-se a welcome, bem-vindo. Stop também é simples de entender, assim como bagage. Não sei o que é uitgang, mas desconfio que seja saída, pelo fluxo de passageiros seguindo naquela direção. Links, rechts, direita, esquerda, e lá estamos nós a caminho da rua. Desnecessário dizer que identifico a palavra universal taxi. Sei o que é bus. Deduzo que Centraal Station seja o que pareça ser, a estação central de trem. E a ela nos dirigimos a caminho de Antwerpen. Ou Antuérpia.

Incômoda, a sensação de estar analfabeta. As placas, outdoors, anúncios externos, enviam recados que não compreendo. As letras integram nosso alfabeto. Pelo menos isso. Mas não tenho ideia do que dizem essas palavras em flamengo – flemish, língua prima do alemão, prima-irmã do holandês –, com excesso de vogais, com letras entre nós de pouco uso, tantos k, tantos y, tantos z.

O que seria te huur, ou te koop, nas placas penduradas em prédios, beste prijsgarantie. Se dá para inferir que o melhor preço era garantido para o aluguel e para a compra, como saber o que seria o tal kantoor, presente em outras placas, sem pensar logo em corais de barítonos e tenores, ou sem uma enésima visita ao dicionário para descobrir que significa simplesmente escritório?

Nos locais de compras descubro que uitgang, saída, tem seu complemento em ingang, entrada. Faz sentido. Pego nas prateleiras latas, vidros, produtos que reconheço pelo que vejo dentro das embalagens, pelo valor de face, ignorando o que esteja impresso nos rótulos.

O Agente da Polícia que visitou nossa casa, cumprindo seu dever rotineiro de avaliar as condições de moradia de quem se instala na Bélgica, recomendara, em inglês perfeito, e com indisfarçável orgulho nativo: Matricule seu filho em uma escola inglesa. Um ano é pouco tempo para ele aprender nossa língua. Bom conselho.

Escuto sirenes passando na rua, oito andares abaixo. Pelo janelão de vidro, única fonte de luz da sala, no apartamento estreito, espremido entre outros de igual desenho, remanescentes dos pós-Guerra (mantendo o anacronismo de um cinzeiro dentro do elevador), pelo janelão vejo o alvoroço de luzes e sons do lado de fora.

A internet está começando a dar seus primeiros passos. A tecnologia se agita com a estreia do Windows 95. Sites de busca estão engatinhando e a www pisca seus olhinhos infantis. Redes sociais não foram sequer sonhadas. Ligo a televisão para descobrir o que pode estar causando o alarido, quase à frente de nosso prédio, do outro lado da avenida.

Sob um selo de URGENT (palavra familiar) a apresentadora fala com a testa franzida e olhar preocupado. Ao vivo, a jornalista elabora tensos comentários ao microfone, diante do local que integra minha paisagem. A imagem retorna à apresentadora no estúdio, que segue o alarmado discurso. E eu não entendo absolutamente nada do que foi dito. Nem. Uma. Única. Palavra.

Na manhã seguinte apanho o jornalzinho do bairro, deixado diariamente nas caixas postais. “Burooh is geen makelaarsbedrijf, noch een grote vergelijkingssite waarbij de focus ligt op bulk”, enuncia uma das matérias. “De wet zegt wél dat de toegang tot cafés en dancings verboden is voor kinderen jonger dan zestien jaar als er geen volwassene bij is”, elabora a outra.

Por mais que eu leia e releia, nada faz sentido, exceto uma ou outra palavra perdida (cafés, dancing). Letras até então conhecidas aglomeram-se em uma barreira impenetrável, ilegível. À tarde vou saber, pela informação trazida por meu filho da escola inglesa (pois seguimos o conselho do policial), que se tratara de ameaça de bomba em um edifício que abriga idosos. Se não posso imaginar a razão para alguém aterrorizar idosos, percebo muitíssimo bem os riscos de residir em um local desconhecendo o idioma.

A Europa encontrava-se em plena estação das bombas, é bom que se informe, naqueles meados dos anos 1990. O que se plantara pelo mundo, na Sérvia, na Chechênia, em Israel, no Japão, de alguma maneira estava sendo colhido por lá.

Dias antes, finalizava as compras no supermercado e o sistema de som anunciara algo em alto e bom som. Uma promoção a mais, pensei distraída, enchendo o carrinho. Só vim a tomar consciência de estar em meio a mais uma ameaça de bomba quando percebi todas as atendentes do caixa, todas as kassieren, deixando apressadas seus postos e disparando uitgang a fora – caminho que, evidentemente, segui.

Em um ano de analfabetismo na Bélgica comprovei o que pressentia. Entender o que se passa à nossa volta não é apenas necessário: muitas vezes pode ser vital.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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