A guerra esquecida

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@terra.com.br
A guerra na Síria ocupa lugar de destaque nas preocupações das grandes potências. Interesses geopolíticos podem levar a uma conflagração mundial. Guerras de menor interesse estratégico são esquecidas, como a guerra civil brasileira, esquecida até pelos nossos políticos e intelectuais. Travada, durante muito tempo na periferia das nossas cidades, permaneceu relegada aos noticiários policiais, categoria desprestigiada nos meios de comunicação. Não era – e ainda não é – reconhecida como tal por muitos. Fazia vítima nos ônibus e pontos de espera desta modalidade de transporte, nos bares da periferia, em seus bailes e ruas mal iluminadas. Vitimava, no comércio de drogas ilícitas, inadimplentes e concorrentes. Achávamos que isso não atingiria outros espaços sociais. A cultura hedonista aderiu de corpo e alma ao consumo de drogas, gerando rios de dinheiro. Nasceu assim a bandidagem milionária.
A rica logística do crime garante o abastecimento de armas e munições, o suprimento da mercadoria que a tudo financia, corrompe do “flanelinha” que passa a agir como “avião”, para abastecer o consumidor, até autoridades. A guerrilha ideológica nunca teve tanto dinheiro, armas, munição, “recrutas” e “colaboradores” – inclusive no interior do aparato estatal. Nunca atacou tantos prédios públicos, matou tantos policiais, ou causou tanto pânico, periodicamente na população, em tantos estados e cidades, escapando completamente ao controle dos órgãos de segurança.
Autoridades se curvam, fazendo discretamente acordos com a bandidagem. Ficou evidente: temos uma guerra civil. Os atingidos não são apenas usuários de ônibus, transeuntes de ruas escuras da periferia, frequentadores de bailes dos subúrbios ou membros das facções em luta. Os exércitos das drogas mostraram-se fortes o bastante para conturbar as cidades e controlar território. Sim, casas são confiscadas para uso das facções, uso este que só é possível mediante controle de território. Ainda assim a nossa guerra civil permanece esquecida em plena campanha eleitoral. Conferir destaque ao tema continua parecendo coisa de ignorante, pessoa incapaz de entender a complexidade do problema e suas raízes sociais. A ideologização dos meios letrados nos cegou.
A realidade é que a complexidade do fenômeno é maior do que os esquemas para os quais tudo se resume a uma divisão dicotômica da sociedade entre oprimidos e opressores. Temos corrupção em larga escala nos meios privilegiados. Temos gente decente entre os pobres. A guerra tem muitas frentes. Uma delas é a das representações simbólicas. Deformadores de opinião desorientaram a sociedade. Levaram-na a pensar ideologicamente, a um olhar complacente para com o crime. A sedução libertária em face do hedonismo levou-nos a financiar a bandidagem via consumo da sua principal fonte de aprovisionamento: o comércio de drogas. Outro lado é o da confrontação, que não é suficiente para ganhar a guerra, mas sem qual também não se alcança a vitória. Não se enfrenta um conflito sem leis de guerra, que não devem durar mais do que a conflagração. Temos o estado de sítio. Por que ainda não recorremos a ele, declaramos o estado de guerra e elaboramos leis de vigência transitória compatíveis com as necessidades da situação?
 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Camilo e Luizianne reabrem canal político após anos de distanciamento

A aposta do Ibmec no capital humano cearense

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

MAIS LIDAS DO DIA

A sabedoria do não sei; Por Gera Teixeira

A insustentável leveza da democracia; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto