Um amor do tamanho do mundo. Por Angela Barros Leal

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Noite de sábado. Vésperas do Carnaval. Momento bom para as vovós serem convocadas a cuidar dos dois netos, enquanto os pais ganham o que chamam alegremente de “Vale-Night”. A avó desembarca na casa alheia carregando os pertences indispensáveis para a longa noite. No lugar do novelo de linha, traz na sacola um notebook. Ao invés das agulhas de tricô, carrega o mouse, o gravador e um par de headphones, que se revelarão indispensáveis. Novos tempos, baby!

Os pais beijam os pequenos inocentes, que esguicham lágrimas e fingem agudo sofrimento diante do abandono. Deve existir um livro que passa às crianças, de geração a geração, esses truques antigos, que continuam funcionando. 

Tão logo os pais deixam a casa, coração esmagado pelo punho do remorso, a dupla de meninos se enche de vida nova, tal e qual escorpiões fingindo de morto. Um deles se diz faminto, e quer que a avó produza esfiha de calabresa, prato multinacional equilibrando o sabor do mundo árabe com a criatividade da Itália. O outro, cronicamente esfomeado, envereda pelos encantos gastronômicos do Oriente, e exige sushi. 

Sushi. Ora vejam só. No meu tempo, reflete a avó, enquanto se comunica com os aplicativos de delivery, no meu tempo criança alguma ia sequer pensar em comer peixe cru, mergulhado em um molho escuro e ardido, de indefinida procedência. No meu tempo também, pensa aliviada a avó, não existiam aplicativos.

Ambos devoram os pedidos, que devem ter vindo infiltrados de energia em pó. A cama dos pais é o local onde se abrigam após o jantar, para assistir na televisão o que bem querem, entre saltos e cambalhotas capazes de incomodar o vizinho do andar debaixo e de testar os nervos da avó. Que, contra todos os prognósticos sensatos, insiste em dar continuidade a seu trabalho no computador.

Após longo tempo, cerca de 5 minutos, o silêncio se faz ouvir além dos headphones. A avó, instalada na mesinha de estudos da nora, de costas para a cama, vira o pescoço para certificar-se de que seus netos ainda se encontram lá. Sim, estão, só que em estado de profunda imobilidade diante da tela da TV.

Assistem ao que parece ser um programa infantil, conduzido por um casal que não para de falar, e que se trata, um ao outro, pela primeira sílaba dos nomes. Devem dominar o dom da hipnose, já que os meninos foram abduzidos para outro mundo. Estão calmos, cegos, surdos e mudos para tudo que não seja a tela. Dois pequenos robôs, miúdas estátuas de sal, olhos fixos na televisão.

A avó aceita o sossego. Sabe que, logo mais, após outro longo período de 4 ou 5 minutos, estarão de volta à enérgica atividade física. Os pulos sobre o colchão recomeçam, aquecidos agora pelos murros e pontapés com que demonstram o amor que sentem um pelo outro. A avó interfere ocasionalmente, quando o choro de um deles perturba a gravação que escuta nos headphones.

Novo silêncio, dessa vez mais profundo. Na tela, um rapaz narra uma história mirabolante, ilustrada por figuras montadas com peças de Lego. E a avó tem o desprazer de ver justamente o trecho em que o rapaz ensina às crianças como convencer os pais a comprarem uma caixa de Lego. Mudem o canal! – esbraveja a avó, preocupada com a ameaça que corre a economia familiar.

Os meninos vestem suas roupas de Homem-Aranha e de Hulk, armam-se com espadas de plástico, e prosseguem empenhados na missão de destruir a cama, o quarto, e tudo que esteja em volta deles. Inclusive a própria avó, que de costas aos riscos ocupa-se em dar continuidade a seu trabalho.

O visor do relógio digital mostra o avanço dos minutos. Das horas. Uma de cada vez. Por volta das 11 horas da noite, um dos meninos, o mais velho, dá mostras de cansaço. Esperançosa, a avó reduz a luminosidade e acompanha o lento piscar dos olhos, a acomodação nos travesseiros, e a súbita chegada do sono, que o captura na velocidade com que se apaga um interruptor de luz elétrica.

O neto mais novo resiste. Mantém-se em estado de animação suspensa, imerso na brincadeira de assistir outras crianças brincando. É quase meia noite quando ele resolve dormir, e emite sua despedida em um fio de voz, acolchoada de sono: “Boa noite, vovó”. 

E foi naquele instante que a avó teve vontade de pedir aos pais deles que não tivessem pressa de voltar, vontade de atirar ao lixo o headphone e todo seu aparato tecnológico, e de resgatar das antigas brumas o dom de tecer uma manta muito, muito grande, um amplo cobertor do tamanho do mundo, sob o qual ela pudesse enroscar-se com os dois netos que dormiam, e manter-se abraçada a eles, para o resto da vida, protegendo-os de todo Mal.

 

 

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