A perda da memória. Por Angela Barros Leal

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De forma atravessada, fui envolvida na saga da Enciclopédia desaparecida. De início, talvez como um dos suspeitos. Em seguida, como investigadora aliada. Primeiro, recebo mensagem de Pedro, jovem pesquisador paulista: Soube que você tem informações sobre a Enciclopédia – ele escreve, cauteloso como um detetive em busca de um culpado. Você teria alguma notícia dela, alguma pista?

Qual Enciclopédia – pergunto em resposta, sem entender. A Enciclopédia Brasileira – ele acrescenta. Reconheço o assunto ao que ele se refere. Mas não vou além do pouco que ouvi da escritora Dinah Silveira de Queiroz, primeira esposa do meu tio Dário Castro Alves. Pedro fornece explicações, elabora questões, que não consigo responder, e me considero liberada do assunto.

Dias depois, recebo mensagem de Cecília, com o mesmo teor: o que saberia eu sobre a Enciclopédia Brasileira. Trata-se da neta de Alarico Silveira, o autor da Enciclopédia desaparecida, paulista, advogado, jornalista, Ministro do governo Washington Luís nos anos 1920, pai das escritoras Helena Silveira e da referida Dinah.

A conversa com Cecília é esclarecedora. Filha do diplomata Alarico Silveira Júnior, fruto do segundo casamento do avô, após contato com Paulo, que trata do tema em sua Tese de mestrado, e depois de uma vida ouvindo a triste história do sonho familiar, decidira-se a assumir a busca pelo que restaria da Enciclopédia.

Alarico passara 25 anos lendo, pesquisando e anotando, em fichas manuscritas – cerca de 140 mil delas – informações referentes a todos os domínios da História do Brasil, desde os primórdios. Convivera com Raul Bopp, Cassiano Ricardo, Menotti Del Picchia e outros componentes do movimento Anta, anterior à Semana da Arte Moderna, e assumira o dever de enfrentar o enciclopédico desafio de preservar no papel a Cultura nacional.

Ao falecer, em 1943, as fichas foram passadas aos cuidados do Instituto Nacional do Livro, órgão criado pouco tempo antes, vinculado ao então Ministério da Educação e da Saúde Pública. Quase uma década mais tarde, após insistência da família, de intelectuais contemporâneos de Alarico e de deputados amigos, cobrando o andamento do trabalho, o INL informava que as fichas ainda estavam sendo datilografadas.

A pressão geral fez com que o primeiro exemplar da coleção visse a luz do dia em 1958, sendo impresso o que seria o primeiro volume dos dez previstos, apresentando aos brasileiros os verbetes de A a Anzol-de-tenda – verbete que, por motivos desconhecidos, sequer chegaria a constar nas últimas páginas da publicação. Uma comissão, “composta de escritores de responsabilidade”, conforme jornais daquele ano, encarregara-se da revisão dos originais, tidos como “incompletos” ainda em 1952.

O Prefácio, assinado por Américo Lacombe, informava que Alarico lera “tudo o que lhe pudesse enriquecer os conhecimentos sobre o Brasil: romances, poemas, viagens, roteiros, receitas de doce, rezas, bruxarias, relatórios, memórias, hagiologias e, acima de tudo, ouviu amorosamente a língua do povo, através da linguagem brasileira autêntica e numerosa.” Uma indiscutível contribuição para a cultura brasileira.

Apesar do manancial de qualidades, começava e terminava aí a publicação da Enciclopédia de Alarico. Convulsões políticas, questões financeiras e um varejo de justificativas levaram o processo a estancar no escalão Federal. Com muito empenho, e apesar de formalizar renúncia a direitos autorais, a família conseguiu que as fichas – com exceção de toda a letra C – fossem entregues a uma editora particular.

Nova batalha para a recuperação da letra desaparecida, seguida pela notícia de que a editora entrara em processo de liquidação. Um golpe seguido de outro.

Fico pensando nas idas e vindas dessas 140 mil fichas desgarradas, a própria memória brasileira em papel, ocupando espaço em salas empoeiradas de repartições públicas, sofrendo os efeitos da má conservação, divididas entre o “saque” de outros dicionaristas (insinuado em jornais) e o puro e simples abandono.

Disse Cecília que, décadas atrás, o pai chegara a ter em mãos algumas fichas esparsas, na Biblioteca Nacional. Lá mesmo teria sido informado sobre a existência de mais delas. Encaixotadas em um depósito. No cais do porto do Rio de Janeiro… Fora convidado a vê-las, e dispensara a visita como quem dispensa a visão de um morto.

Ao final da lamentável saga, para a qual foi inútil minha colaboração, penso que, soubesse Alarico de tal fim, poderia ter enriquecido fortemente, em sua descrição da alma do Brasil, os verbetes Desprezo ou Indiferença.

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