Católicos “neutros”, evangélicos “posicionados”; Por Emanuel Freitas

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Política e eleições: é aconselhável que fiquem de fora do templo.

Ditados populares costumam atravessar gerações oferecendo lições sobre as dinâmicas da vida social. Alguns deles, porém, com o passar do tempo caem em desuso, pois mostram-se obsoletos. Este é o caso daquele que diz que “religião não se discute”. Além de podermos discuti-las, sob o viés analítico, somos capturados pelas discussões que se fazem a partir da sua manipulação para os diversos fins.

Há muito tempo a religião “pulou para fora” dos templos, como afirmava o antropólogo Clifford Geertz. Pode ela ser encontrada em diversos lugares: programas de TV, bares, academias de musculação, clínicas pets, reality shows, futebol e, em especial, nos espaços e cenários de poder político.

Desse modo, se esperava que, uma hora ou outra, a religião fosse acionada para fins político-eleitorais na disputa municipal em Fortaleza, que opõe um candidato do PT a outro do PL, que conta com fartos apoios de líderes religiosos.

Igrejas importantes, do ponto de vista do número de fiéis e do poderio econômico e político que detém, têm manifestado apoio a André Fernandes. Na primeira segunda-feira deste segundo turno, um grupo considerável de pastores se reuniu em hotel de Fortaleza para “ungir” o suposto “candidato do senhor Jesus”, “profetizando” sua vitória.

Era o mesmo grupo que, em 2020, denunciava o “fechamento das igrejas” e a “perseguição aos cristãos” caso José Sarto (PDT) ganhasse aquela eleição. Ele ganhou e as igrejas continuam existindo, inclusive alguns líderes até ocupam cargos em secretarias de Sarto, o “perseguidor”.

Na reta final da campanha, áudios apócrifos, mas não muito, passaram a atacar Evandro, o “petista”, com mensagem voltada para o eleitorado cristão: ele seria “a favor das drogas, da prostituição, promover o aborto e excluir Deus das escolas e da sociedade”. A Justiça mandou derrubar, mas já deve estar no coração e nas mentes de muitos “irmãos”, submetidos às “profecias” de suas autoridades religiosas.

Felizmente, a reação intra-religiosa veio: neste final de semana, um grupo de pastores, tendo à frente o presidente da Videira (que tem importante presença entre jovens), publicou nota pública em que se condena os “usos políticos” da fé cristã e dos templos, tal como se vê largamente aqui e acolá.

“O Evangelho do Senhor jamais será de esquerda ou de direita (…) só existe um Santo dos Santos, Jesus Cristo de Nazaré, o único digno de nossa adoração e fidelidade. Não há candidato enviado por Deus e nem pelo Inferno”, diz a nota.

Assim, entre evangélicos, nada de neutralidade: muitos marcham com André, pondo seu pastoreio e suas estruturas a serviço de sua eleição. Alguns, posicionam-se contra os usos da fé que, cá entre nós, é feito por aqueles que estão com a “onda azul”.

Os católicos, por sua vez, optam por uma tal “neutralidade”. Nesta semana, duas notas muito discretas, e com o mesmo script, trataram de um “esclarecimento sobre as eleições”.

Numa delas, o Carmelo Santa Terezinha, depois de ver circular em massa vídeos de Alcyvânia e André no espaço, dialogando com as monjas, fez circular nota em que diz “não possuir candidatos próprios” e “receber a todos, sem distinção”. Isso porque, além do vídeo, santinhos com a imagem de Santa Teresinha em uma das faces e as imagens da dupla do PL na outra serem fartamente distribuídos nos festejos dos dias 01 e 15 deste mês, pela campanha do PL.

Na outra nota, que circula pela terceira vez nesta campanha, a Comunidade Shalom, de onde Alcyvânia é membro, também diz que “não possui candidatos” e que “cada pessoa é livre para escolher seus representantes”. O fato é que a candidatura do PL usa fartamente pessoas de lá, com cordão no pescoço inconfundivelmente identificado com a Comunidade, que tem intensa pregação contra esquerda e contra o PT.

Carmelo e Shalom, assim, longe de se posicionarem contra os usos da religião para fins eleitorais, como fizeram os evangélicos, e mesmo longe de assumir a identificação factível de seus membros e de sua cosmologia com uma das candidaturas, optam por uma neutralidade que, a exemplo da posição do PDT, sabemos bem o que significa.

A neutralidade, neste caso, deixa livre a utilização dos elementos para os interesses “deste mundo”.

Amém!

Emanuel Freitas da Silva é articulista do Focus Poder, professor adjunto de Teoria Política da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e Doutor em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).

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