O companheiro do silêncio. Por Angela Barros Leal

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Estou no topo de uma montanha, ali de onde posso enxergar o dorso escuro das águias que planam, vagarosas, entre o véu de nuvens. Faz frio, o vento sopra com ímpeto e assovia nos meus ouvidos.

Não deu certo – comunico, de olhos fechados, à minha terapeuta improvisada, que diz ter aprendido na internet como acabar, ou como amenizar, o zumbido que escuto noite e dia.

Vamos tentar assim – ela recomeça.

É agosto, pleno Verão no hemisfério norte da Terra. Estou deitada na grama verde, à sombra de uma macieira. Não devo pensar em Isaac Newton, nem na maçã que originou sua teoria. Preciso me concentrar no coro estridente das cigarras, que não consigo ver, mas cujo zumbido de serra elétrica me preenche a audição.

Nada feito – reclamo com a bem intencionada amiga.

Um mistério, esse zumbido que escuto 25 horas por dia, sem uma pausa sequer para descanso. Algo digno de histórias de terror, daquelas onde o protagonista perde a razão, e avança delirante pelas masmorras de uma mansão, assombrada por espíritos milenares trazidos pelo vento das catacumbas.

Até onde eu sabia, zumbido no ouvido envolvia o que se chamava martelo, bigorna e estribo, partes do ouvido médio, nomes que soavam como algo do século XV acionando imagens de ferreiros e fagulhas, de ferro martelando contra ferro, de cascos de cavalos arrancando chispas do piso de pedras. De alguma maneira, poderia partir da vizinhança do labirinto, outra referência arcaica que em nada auxilia na redução do som constante.

Ao que parece, nada disso faz sentido para a medicina de hoje, na qual o zumbido, promovido a tinnitus, parece ter ganho lugar no armário fechado daqueles males sem causa e sem remédio. Como a Natureza abomina o vácuo, a internet preencheu o espaço vazio e pulula com soluções de medicamentos caseiros e terapias alternativas, como essas que minha terapeuta improvisada tenta me aplicar agora.

E é problema sim, do tipo que mais se agrava quanto maior for a consciência dele. Aquela sonoridade que se mantinha sob controle, em segundo plano, variando a frequência de AM a FM no background da movimentação do dia, parece que se encorpa, ganha vida e soma forças quando o silêncio se instala.

O otorrino que busco para uma consulta recosta-se na cadeira, cruza os braços, e me olha cheio de compreensão. Ele também sofre com o zumbido, e pretende aguardar comigo a descoberta do remédio para a extinção desse mal. O clínico geral, por sua vez, durante a consulta de rotina, assume postura filosófica e receita paciência e aceitação. Que eu me acostume a conviver com o ruído, é o que diz. Que eu aceite esse fenômeno como um mal menor, que talvez se resolva com um bom headphone sintonizado em um fundo musical.

Ele certamente não sofre de zumbido.

O som é volúvel, indefinido e altamente variável. Pode ser escutado em algum ponto entre o sistema auditivo interno e o ambiente externo. Pode soar como se viesse do lado de fora, tão claro como uma buzina de carro ou a furadeira de um marceneiro, a tal ponto que surpreende saber que outros não estão escutando também.

Pode variar em intensidade e vibração, oscilando como a tentativa de receber uma mensagem de rádio produzida por uma emissora com problemas de transmissão. Pode crescer ou reduzir o volume, imitando uma orquestra que alterne o som dos metais com o compasso dos instrumentos de percussão.

Pode variar de um ouvido para o outro, como se os volteios manuelinos das orelhas fossem caixas de som independentes. Ou pode virar-se para dentro, acionando os ossículos da audição em uma sinfonia ainda mais poderosa, impossível de definir ou complexa demais para explicar.

Escute a canção do vento – diz o título de um dos livros de Haruki Murakami, um dos mais brilhantes escritores japoneses que, até onde sei, não sofre com zumbido. Levo para casa a receita do clínico geral e tento conviver com o enxame de abelhas que rodeia minha cabeça. Até que descubram o remédio, preciso incluir na rotina a aceitação desse barulhento companheiro, cuja fidelidade traz, como única vantagem, não me deixar sozinha no silêncio.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus.jor.

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