O Inspetor nas eleições; Por FJ Caminha

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Ele nunca faltava às nossas reuniões semanais preparatórias das eleições estaduais de 2006 do partido PHS, usava da palavra com euforia, força e visceralidade a favor de nossa agremiação na qual eu era o presidente nacional. Admirava essa oratória direta e entusiasmada do nosso querido inspetor da Polícia Cívil, chegando muitas vezes de uniforme vindo da cidade vizinha de Aquiraz.

Como eu tinha excesso de pré-candidatos a presença era um dos requisitos da seleção dos que iriam concorrer a deputado estadual, por isso, quase ninguém faltava. Certa quinta-feira, já no início do encontro na sede da rua Francisco Holanda chega ofegante, dolorido, apressado e ensanguentado o candidato inspetor Alberto, e assim dirigiu-me a palavra:

– Deputado eu estou baleado no ombro, o meliante está ferido grave na viatura lá fora, eu vim aqui dá minha presença e pediu permissão para ir para a emergência do IJF.

– Homem de Deus! O que você está fazendo aqui? Corra logo para o hospital.

Quando apurado o resultado fizemos dois deputados estaduais, eu fui reeleito com 26.536 votos e o Roberto Cláudio eleito pela primeira vez com 21.283 votos. O inspetor obteve somente 689 votos.

Passaram 14 anos quando fui surpreendido ao ver nas redes sociais um candidato a vereador com aspecto bizarro disparando impropérios nas redes sociais. Observei um idoso usando um largo bigode de pelos brancos e adotando uma postura teatral. Na fala concluía: eu sou o inspetor Alberto e não tenho medo de você. Foi quando o reconheci pelo nome.

Agora, nessa eleição de 2024, ele aloprou com um comportamento sociopata explodindo de ódio e disparando ameaças completamente desnecessárias contra o nosso dileto candidato Evandro.

Não sei se o inspetor só está representando um personagem, ou já é um caso de distorção mental em que o personagem se funde com a própria “persona”, o que gera um comportamento que envolve violência e crueldade. Nesse caso, pode haver uma fusão patológica de identidades.

Estou com saudades daquele inspetor amigo, disciplinado e humanista que animou tanto as nossas reuniões, que me apoiou em uma das minhas eleições. Desde aquela época, não o vi mais. Quem sabe se agora depois da sua trágica conduta e respondendo processos decorrentes do seus atos na última eleição possa ela ressignificar seu posicionamento nas redes sociais.

Parece que estamos vivendo uma era de idiotice na política onde certos ditos “influencers” criaram um tipo de discurso extremamente agressivo que atraem seguidores e começam a incutir essa “patologia de idiotice” nos seus públicos.

Será que o que está por trás é a busca de atenção, notoriedade, curtidas, compartilhamentos e visibilidade?

Esta geração obtusa do Tik Tok não ler, não reflete, não questiona, vive da adrenalina despertada pelo entretenimento ilusório das redes sociais e por protesto ou descrença votam em figuras pitorescas da estirpe do mentiroso Pablo Marçal ao inspetor referido.

Francisco Caminha é escritor, advogado, especialista em Ciência Política e servidor público.

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