O menino entre as feras da praça. Por Angela Barros Leal

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É provável que
as quatro feras tenham desembarcado juntas: os três leões (o maior deles envolto pelo abraço de uma serpente), e o tigre solitário. O menino com o golfinho fazia parte da mesma encomenda, de origem identificada pelas três linhas inscritas ao pé de cada estátua: FOUNDERIES D´ART – DU VAL D´OSNE – 58 Bd VOLTAIRE PARIS.

Foram elas instaladas em locais estratégicos, em volta da praça General Tibúrcio, montando guarda ao Palácio do Governo e ao prédio onde funcionava a Assembleia Legislativa, naquela segunda década do século XX. Imagino que as feras corporificassem, em ferro forjado, os poderes da lei e da ordem – em especial, o leão envolto em luta terrível contra a serpente, simbologia antiga para a batalha do Bem contra o Mal.

E o menino com o golfinho, L Énfant au dauphin, pequena estátua com menos de 1 metro de altura, pesando 100 quilos? Seria ele destinado a uma fonte, quem sabe um chafariz, a água jorrando da concha que ele sopra? Qual seria o papel dele, no meio das tantas feras que, um século depois, ainda se encontram no mesmo local? – ou pelo menos quase todas: isso porque um dos leões, que estaria entronizado em um nicho, na esquina leste do Palácio do Governo, esse ganhou asas, qual o leão alado de Veneza, e voou pelas dobras do Tempo.

O leão que ganhou asas

A criança, l´enfant, o belo menininho de bochechas infladas, pronto para fazer a água jorrar para dentro de uma fonte ou chafariz jamais concluídos, se deixou ficar por lá, ao rés do chão. Foi mudado de local dentro da praça, de vez em quando, por desejos aleatórios de terceiros, findando mal e mal equilibrado sobre uma base precária de cimento, depositada na areia.

 

O belo perfil do L`enfant au Dolphin, desprovido da concha que soprava

Se o peso dele desencorajava sua remoção, não o preservaria da corrosão por agentes atmosféricos, da superposição de camadas de tintas inadequadas, dos resíduos levantados pelo trânsito dos carros, do puro e simples vandalismo. Foi maltratado, viu desaparecerem alguns de seus dedos, teve fraturado um braço, viu sumir uma das mãos com as quais sustentava a concha vazada.

Faça a denúncia! – é a mensagem que recebo no celular, mais de uma vez, a respeito do menino. Não gosto de denunciar – me desculpo de pronto, a um e a outro, polegares voando sobre as teclas, recusando de antemão a responsabilidade que desejam impor sobre meus ombros. 

As respostas vêm do outro lado, incisivas: se ficar perto de parecer denúncia – aliviam –vai ser importante, para que esses bens voltem a receber atenção do município.

A razão é nobre, ou assim me parece. E como jornalista, arrendatária semanal de um espaço que mede alguns centímetros quadrados, dentro do qual sou autorizada a escavar terreno para sustentar minhas opiniões, para desenhar minhas ideias e construir minhas histórias, posso muito bem contribuir com o dever de cidadania e fazer o solicitado. 

Pesquiso nos jornais, pergunto, investigo. Os fatos me chegam, por diversas fontes. Fatos. Registros. Documentos. Não quero o “ouvi-dizer”, o “dizem-que”. Fico ciente da licitação aberta [PE 438/2023] para restauro do conjunto de peças da praça General Tibúrcio. Do número do Processo vigente, em sua segunda etapa [P435785/2024]. Do tratamento a ser prestado ao General, sempre de pé; do zelo com a famosa escritora, vitimada pelo furto constante de seus óculos; da atenção às feras de ferro fundido e, acima de tudo, dos cuidados com o menino mutilado.

Fico sabendo ter ele repousado por meses em espaço subterrâneo da praça, no mausoléu do general Tibúrcio. Não havia condições de deixá-lo exposto, da maneira como se encontrava. Sem autorização para abandonar a rua, onde vivera por mais de um século (isso porque as operações de restauro impedem separar as esculturas do local ao qual estão integradas), o menino se deixou ficar por lá mesmo, sob o tratamento de mãos especializadas, abrigando-se, quando necessário, debaixo do teto do secular Palácio do Governo, hoje sede da Academia Cearense de Letras.

Igualzinho a ele, saídos da mesma fundição Val d´Osne, e da criatividade do escultor Mathurin Moreau, existem pelo menos ainda três exemplares no mundo: um na França, outro na Suíça e mais um no Chile. 

              

Modelo igual, preservado no Chile     Modelo igual, preservado na Suiça         Modelo igual,  preservado na França

Assim como existe em São Paulo, na praça Buenos Aires, uma cópia idêntica à do leão em sua infinda luta contra a serpente. O Bem e o Mal.

 

O leão luta também contra a serpente na praça Buenos Aires, em São Paulo

O menino vindo com as feras prossegue, paciente, aguardando os recursos que possibilitem concluir sua restauração. Penso que não deve ser complicado demais autorizar a finalização dos trabalhos, com assinatura de aprovação vinda de qualquer que seja o nível administrativo. Para nós, cidadãos, para a população, acredito que não faça muita diferença qual a pessoa jurídica que encoraja os processos, e que põe em movimento os recursos para salvar o que o passado teve a gentileza de nos legar. O importante é que os restauros sejam feitos, e que ele retome seu espaço na praça –, até mesmo para evitar denúncias como essa, que não sei ainda como fazer.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

 

 

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