Para quem acompanha as transformações demográficas da sociedade brasileira sabe que, daquelas mais importantes, o crescimento exponencial dos que se identificam como evangélicos é das mais importantes. Com implicações culturais, econômicas e políticas, para dizer o mínimo.
Hoje, não se faz análise política, especialmente em se tratando da cobertura sobre Brasília, sem que se imponha a consideração dos atores do campo político que também desempenham papéis no campo religioso. “Bancada evangélica” e “frente parlamentar evangélica” são expressões com as quais já nos habituamos.
Tão importante o segmento se tornou que, para além de uma já considerável literatura escrita sobre o tema, séries documentais que objetivam “explicar” o fenômeno “evangélicos” têm sido produzidas por diversos órgãos de mídia. A mais nova – Crentes, Além dos Muros -, com três episódios, é de produção da Globo News.
Com depoimentos de fiéis e líderes religiosos, a produção ainda apresenta projetos sociais promovidos por igrejas. Tudo para demarcar a importância do segmento.
Pois é, ironicamente, no momento em que a série é apresentada, uma outra produção do grupo Globo, de 1989, traz uma outra representação sobre os “evangélicos”. No final das tardes desse ano de 2025, a emissora apresenta, no canal aberto, a reprise da novela Tieta. Nela, um estranho pastor, interpretado por João Dória, perturba a cidade de Santana do Agreste, e sai escorraçado depois de afugentar a vida de beatos e beatas, e converter alguns, como o icônico “bafo de bode”.
Lá, porém, com uma sociedade majoritariamente católica, o líder religioso era facilmente nomeado como “rabudo, chifrudo, enviado de satanás”!. “Possuída por Deus”, a beata Perpétua, vivida por Joana Fomm, vocalizava a visão deturpada que o Brasil, sob o jugo católico, tinha dos “irmãos”. A expulsão do pastor é um ato de mais pura comédia, do risível.
Bem longe do caráter imprescindível que o segmento tem hoje.
Veja a série, (re)veja Tieta.