Carta de uma nova casa. Por Angela Barros Leal

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Queridos filhos.

Chegamos bem, e já estamos devidamente instalados. Estávamos nos preparando há algum tempo para essa viagem a território estrangeiro (embora nunca se esteja preparado o suficiente), e tivemos a sorte (bato três vezes na madeira!) de enfrentar um trajeto até agora com poucos sobressaltos, atravessando uma ou outra turbulência, o que é inevitável.

Interessante observar como o tempo passou tão veloz, dando a impressão que, de um instante para o outro, havia chegado a hora da mudança! Um dia, estávamos aí, perto de vocês, e no outro dia já estamos aqui, com um oceano de vida entre nós. Mas penso que tal surpresa é natural, comum a todos os que vivenciam a mesma experiência.

Observamos, aqui e ali, o comportamento rebelde de alguns companheiros de viagem, aqueles que vêm a contragosto, calcanhares fincados no chão, praticamente arrastados. Cá entre nós: tanto esforço me parece desnecessário, quando se trata de algo que se coloca “na casa do sem jeito”, como dizia a avó de vocês, e quando a outra alternativa é bem mais – digamos, indesejada…

Acredito que não vai ser complicado nos adaptarmos ao modus vivendi dessa casa. Aliás, é bom mesmo nos habituarmos logo! Pelos comentários que ouvi, há um percentual elevado que faz desse novo lar um ponto de curta permanência. Sabemos que, sem aviso algum, a qualquer instante podemos ser transferidos para a casa no final da rua. Isso traz um tanto de insegurança, mas é como falei: é a única certeza que temos.

Até agora, não percebemos muitas diferenças, em comparação com a morada anterior, e continuamos a nos divertir como sempre. Ou quase como sempre… Se bem que notamos logo as novidades em alguns costumes, e o aumento de cuidados em relação às nossas experiências prévias, o que eu também considero natural.

A questão do vestuário é um exemplo. Para os homens, quase nada se altera em termos de comodidade das bermudas, dos jeans, das camisetas e chinelões. E eles ainda contam com uma vantagem: são dispensados de usar paletó e gravata.

Para as mulheres, como sempre, as exigências se mostram mais restritivas. Nada de saia curta, nada de mostrar os joelhos, nada de decotes, de roupas sem mangas, ou coladas ao corpo. Biquinis, alcinhas finas e transparências são vistas com inconfundível má vontade. Maquiagem não costuma ser bem recebida e cabelo longo não é lá muito recomendado, exceto se preso na nuca, ou em um coque. Salto alto então, a ordem é esquecer. Mais aconselhável usar um par de tênis, ou adquirir o hábito das sandálias rasteiras – de preferência com solado de borracha.

Perdemos o direito a certos luxos, como tapetes e privacidade, sendo também dificultado o acesso a escadas. Nos banheiros, somos rodeados por barras nas paredes. Em termos de alimentação, tudo me parece meio sem graça. Quase nada de sal, muitas frutas, legumes, verduras, adeus às carnes, às massas, e o pior: nada de doces. Um imenso sacrifício.

Percebo que somos bem aceitos pela comunidade em geral, até mesmo com alguns privilégios. Desde a casa que antecedeu a essa, já nos reservavam filas exclusivas nas instituições de atendimento público, no caixa das lojas, e assinalavam locais especiais para os de nós que (ainda…) dirigem carros, o que não posso negar que seja bastante conveniente.

Apesar disso, percebo também que em certos lugares nos olham com estranheza. Em bares, por exemplo, em áreas esportivas, em territórios estudantis, somos encarados como se estivéssemos confusos, perdidos, e eu confesso que isso nos faz sentir um tanto deslocados. Mas é assim mesmo. Melhor assim do que nos transformarmos em seres invisíveis, o que costuma acontecer com frequência maior do que a desejada…

Nossa forma de comunicação também tem se mostrado diferente do modelo usado por essas pessoas, e nossas referências culturais – podemos dizer que são de outro mundo.

Às vezes, falam conosco em voz muito alta, como se não estivéssemos escutando, ou então tratam de reduzir as dimensões do nosso corpo, usando uma fartura de diminutivos: perninha, pezinho, mãozinha… Acham que estamos em processo de encolhimento, o que não está muito longe da verdade. Ou então é coisa própria desse lugar, provocando tal efeito sobre a visão que a comunidade tem de nós, ocupantes da casa 70.

Enfim, apesar de tais novidades (que muitas vezes até nos servem de desafio e de estímulo), vamos levando muito bem a vida por aqui. Se conseguirmos nos demorar, e mudar para a casa 80, aqui do lado, quem sabe se, em poucas décadas, vocês também virão ocupar a casa 60, uma acolhedora Casa de Passagem, e nos encontraremos nesse endereço chamado Velhice, onde não há de faltar carinho e acolhimento!

Até lá!


Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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