Lendo “Le Monde”, no quartier Latin; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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Minhas estreitas afinidades com a mídia parisiense. Porque me transformei “dependente” da leitura diária do Le Monde no Les Deux Magots.

Le Café de la Sorbonne sobrevive, tantos anos passados, com nova razão social, entregue, agora, aos turistas de passagem e escala curiosa e duvidosa pelo Quartier Latin. Não foi sempre assim.

Umberto Eco reconstitui , em “Numéro Zéro”, o aglomerado de estudantes, vindos do mundo conhecido à época, para estudar em Paris, nos monastérios de Saint-Germaine-des-près e na Sorbonne, aí pelos anos mil e poucos. Rue de la Huchette, rue Saint-Severin, rues des Ecoles, place Saint-Michel, rue Saint-André des Arts et les “alentours” compunham o quadrilátero do que se chama desde aqueles tempos a estes dias “Quartier Latin”, referência à vocação intelectual daqueles lugares ricos de conhecimento e memória.

Vivi e convivi pelas cercanias, a seguir os Cours Magistraux” da Faculté de Droit (Georges Gurvitch, Maurice Duverger…), naquelas enormes salas em semi-círculo, os “amphitheatres”, o catedrático, em veste talar solene, a ler com circunspecção as velhas anotações amarelecidas, em tom monocórdio e formal, com a persignação da autoridade e da idade provecta.

À saída, em uma livraria defronte, na rue Saint-Jacques, nos aprovisionávamos dos textos, impressos, das aulas da semana… Éramos assinantes daquelas falas “roneotypées”, reserva de toda a nossa cultura jurídica, acumulada dia após dia…

Entre as aulas e já no final do dia, acampados nos bistrôs da place de la Sorbonne, juntávamos as mesas do terraço e descansávamos os livros e, em esforço coletivo de mútua ajuda, passávamos em revisão os saberes reunidos em um dia de solenes “classes” e eruditas preleções…

Por vezes, com as sobras de alguns “francos” de uma parcimoniosa economia, íamos ao Balzar, homenagem discreta a Balzac e à função intelectual do bar, das “brasseries”, dos bistrôs e dos restôs na França [legado dos “cafés littéraires” de outros tempos].

Era por essa hora, com a pontualidade, por assim dizer britânica, que aquele senhor magro, alto, com o ar angustiado das criaturas de idade, tão comum entre parisienses, surgia com a sua voz rouca:

“MONDE!”.

E ia deixando exemplares sobre as mesas. Ao final do périplo açodado pelo lugar, voltava a recolher as moedas [os jornais franceses, por esse tempo, não passavam de 1 Franco, talvez valessem mais do que essa irrisória quantia] e as sobras restantes (!).

Já que nos pusemos a falar de bistrôs, cafés, livros e jornais que deixemos um registro insólito para finalizar essas lembranças.

Embora já estivéssemos à salvo das novidades que nos chegavam do Brasil [estávamos em 1964, qualquer alusão a “1984” seria mera coincidência], tínhamos-nos, reconhecido auto-respeito como revolucionários e exilados. E indignados como todos os da idade que tínhamos.

Animados por esses desafios revolucionários, frequentávamos com orçamento magro e limitado as PRESSES UNIVERSITAIRES, no boul’Mich, e nos enchíamos de desejo e necessidade que os nossos Francos não cobriam. Descobri, com o tempo, que meus irmãos em fé e ideolologia compartilhada andavam com as pastas cheias de livros. Curioso, quis saber como procediam para o engordar o reforço da biblioteca pessoal, talvez um sebo ou financiamento da “Coopération Technique”para medicamentos de emergência e leituras assessórias…

A resposta fluiu, simples, com aquele toque de patriotismo dos revoltados:

“Requisitamos os livros em nome da Revolução Brasileira!”…

Tomados de saudável indignação, no exercício de uma heróica militância patriótica, nos tocamos para o boulevard des Capucines para registrar o nosso desacordo e a nossa revolta contra o estado das coisas no Brasil — o Estado a que chegáramos. Batemos à porta de Claude Julien e Jacques Fauvet, na redação do jornal de Hubert Beuve-Marie, em enérgica manifestação contra os militares e a súbita conversão do país aos novos controles do arbítrio.

Nada que resultasse, entretanto, em matéria jornalística de relevo ao julgamento da redação. Da visita resultaria, para orgulho nosso, em um breve registro perdido entre as “nouvelles d’ Outre-mer”…

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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