Ela; Por Angela Barros Leal

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Com muita delicadeza, eu diria que ela é um portento. Portanto, um assombro, uma sumidade, um talento. Ela é a abelha-rainha, a Rainha-mãe, a mãe dos novos tormentos, nascidos e aninhados na mente dela.

Tão sincera, de uma sinceridade indecorosa, ela cria seu meio-ambiente, sua própria atmosfera. Ela se impõe aonde chega, orgulhosa, silencia a todos com sua voz de tragédia grega, sua rajada interminável de metralha, seu rugido de vento inflando velas.

Ela me assusta e não nego: aguardo a chegada dela sem sossego, como quem espera uma enchente, um terremoto, as ondas revoltas de um maremoto, sem ter por perto um lugar seguro: eu sei que ela vem de um canto escuro, e de um ponto cego.

Quando ela desembarca do avião, e põe os pés em terra, o chão se fende como o contorno da boca do Vesúvio. Os pássaros se dispersam em alvoroço, o Tempo fecha em temporal, em tempestade, desaba um novo Dilúvio.

Fica bem claro o conluio dela com as deusas da chuva, da guerra, com os deuses da pura agonia. Ela desce com um feixe de raios nas mãos, e me parece mais poderosa que Santa Bárbara e São Jerônimo. Ela é um raro fenômeno, e de nada se penitencia.

Ela diz ter sido responsável pelo mergulho da vara de porcos no abismo bíblico, pelo extermínio do gado nas pastagens desertas, pela extinção dos rebanhos, pela dormência da caatinga, pela secura do agreste.

Assegura ser dela a letra na lista dos mortos nos campos de concentração, dos que sussurram nomes interditos em salas sombrias, dos que perderam o entendimento, o sentido, dos que esqueceram a missão.

É a letra dela que assina declarações de batalha, que autoriza execuções, que libera as tropas para o saque, que autoriza os infindos dias de exceção.

É ela a artesã das catástrofes ditas naturais, que abalam vidas. Ela é a origem das tempestades de areia e das monções. É dela o olho dos ciclones e o corpo inflado das furiosas enchentes. Da frieza dela se formam as nevascas inclementes.

Os vulcões foram uma criação dela. Os incêndios que ela causa congelam meu sangue nas artérias. Ela conhece o segredo da inversão térmica, dos buracos negros, a causa das explosões de antimatéria.

Às vezes tão materna, ela aquece ao colo a peste, as epidemias, as pandemias com seu séquito de males e tormentos. A Terra gira sob sua força gravitacional e ela se orgulha de espalhar sofrimento.

Ela vocifera em voz medonha, lançando seus olhos de raio-x, raios Gama, sobre nós. Ela é esdrúxula, operística, proparoxítona, com sua língua ferina, bífida (aviso: ela é real. Não é fictícia.)

Os pés dela tripudiaram sobre os vencidos, pisotearam oferendas de rendição, romperam as cabeças dos homens caídos, sem juízo de valor, sem dó, sem pena e sem sorte. Com as mãos nuas, extraiu corações, desfez intestinos, amputou línguas, eliminou vidas sem motivo ou razão.

Ela emudece destinos e se compraz em provocar feridas, exercendo, sem desculpas, sua inexorável missão de morte. Ela não engole palavras. Na verdade, regurgita insultos, cospe blasfêmias de sua própria lavra.

De vez em quando ela me visita: confesso que são momentos de temor, de aflitivas situações, instantes em que sua força vital explode tetos e paredes. A coisa alguma ela se curva. Em nada ela cede.

Vejo de perto que ela não se alimenta com o que nós comemos. Criou seu cardápio próprio de carne alheia, consumindo ossos, devorando destroços, roendo castigos sangrentos. É com isso que ela se satisfaz e engorda, e fere a própria pele em manchas escuras ao passar nas portas.

Pois ela tem, sim, seus momentos vulneráveis, qual fosse alguém de carne tenra. São instantes ilusórios, de fragilidade palpável, prontos para se desfazer assim que ela percebe o prejuízo à sua imagem como um ser voraz, de apetite implacável.

Quando ela se despede e parte, a casa respira em paz. Cada aposento expulsa de dentro o sopro incandescente deixado por ela. E eu – eu reconheço minha profunda inveja, por não ter guardado uma gota sequer daquele poder infinito, que ela tão bem maneja.

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.

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