Bets: somos livres? Por Aline Ponte

COMPARTILHE A NOTÍCIA

A meu ver, o debate sobre as proibiçõesdas bets precisa considerar quanto controle existe em uma escolha atravessada pela dependência e pela promessa de mudar de vida, sobretudo quando essa promessa vem de pessoas que admiramos e reconhecemos como exemplos de sucesso.

“Cada um faz o que quiser com o próprio dinheiro.” No debate sobre as bets, essa frase parece encerrar a discussão. O indivíduo é adulto, conhece os riscos e deve responder por suas escolhas. Interferir seria uma afronta à liberdade. Mas esse raciocínio depende de uma premissa que merece ser examinada: a de que poder realizar uma ação significa ter pleno domínio sobre ela.

Entre a ausência de uma proibição e a existência de uma escolha autônoma há uma distância grande, nem sempre perceptível. Nela cabem a dependência, o sofrimento, as pressões econômicas e a esperança de que um acontecimento extraordinário resolva aquilo que a vida cotidiana parece incapaz de transformar.

No século XVII, Espinosa já questionava nossa confiança na liberdade da vontade. Na Ética, argumentava que os seres humanos têm consciência de suas ações, mas frequentemente desconhecem as causas que os levam a agir. Sentir que escolhemos, nessa perspectiva, não basta para demonstrar que compreendemos ou governamos aquilo que nos move.

Basta examinarmos, com alguma honestidade, uma compra recente. Quanto daquela decisão nasceu da necessidade? Quanto veio do desejo de pertencimento, da comparação com alguém ou da tentativa de aliviar uma frustração? Não encontrar uma justificativa econômica não torna uma escolha ilegítima. Mas perceber essas influências deveria diminuir nossa certeza de que somos inteiramente senhores das próprias decisões.

Diante da dependência, essa tensão se torna mais evidente. Uma pessoa pode querer apostar e, ao mesmo tempo, desejar profundamente deixar de ser alguém que precisa apostar. Pode abrir o aplicativo enquanto lamenta estar fazendo exatamente aquilo que prometeu evitar.

Harry Frankfurt ajuda a compreender esse conflito. Em seu artigo Freedom of the Will and the Concept of a Person, distingue o desejo de fazer algo da vontade de que determinado desejo governe nossa conduta. Seu exemplo do dependente que deseja resistir mostra por que seguir um impulso não equivale, necessariamente, a ter a vontade que se gostaria de ter.

No contexto das apostas, portanto, precisamos perguntar também se a pessoa consegue interromper o jogo quando decide que deveria fazê-lo. Que liberdade estamos defendendo quando alguém pode começar, mas encontra dificuldades crescentes para parar?

A perda de controle e a continuidade apesar dos prejuízos podem fazer parte de um quadro de dependência. Nesses casos, apelar somente à força de vontade exige justamente o exercício da capacidade que está comprometida. Nem todo apostador desenvolve um transtorno, mas essa diferença precisa ser reconhecida para que a autonomia de todos não seja presumida a partir da experiência de alguns.

Há também uma dimensão social. A promessa de enriquecimento rápido encontra terreno favorável quando as possibilidades de melhorar de vida parecem estreitas. Para quem já não confia no trabalho como caminho de mobilidade, a aposta pode ganhar o sentido de uma oportunidade excepcional.

As preocupações financeiras ocupam a atenção, pressionam decisões e dificultam olhar além das urgências. Isso não torna quem enfrenta dificuldades incapaz de escolher. Significa que decidir sob o peso de uma dívida, com medo de faltar o básico, é diferente de decidir com segurança e alternativas disponíveis.

Minha leitura é que, quando o futuro parece bloqueado, a promessa de uma saída imediata ganha um peso desproporcional. O prêmio passa a representar a possibilidade de quitar dívidas, oferecer conforto à família ou interromper uma trajetória de frustração. A esperança de transformação se concentra em um evento improvável.

É nesse ponto que a promessa de uma solução mágica encontra espaço: quando uma chance remota começa a parecer mais concreta do que qualquer caminho disponível, as vezes o único.

E essa promessa ganha força quando vem de alguém admirado. Um artista, um atleta ou um influenciador empresta à publicidade parte da confiança que construiu com seu público. A familiaridade pode diminuir a desconfiança; o sucesso de quem anuncia pode conferir credibilidade ao produto anunciado. Para quem recebe a mensagem, nem sempre é fácil separar a admiração pela pessoa da avaliação do risco.

Por isso, a responsabilidade de quem promove as apostas também precisa entrar na conversa. Há uma assimetria entre receber para anunciar uma possibilidade de ganho e comprometer o próprio dinheiro na expectativa de alcançá-la. A esperança de melhorar de vida merece respeito. Justamente por isso, sua exploração comercial exige limites.

Também precisamos olhar para o ambiente em que a decisão acontece. A disponibilidade permanente, a velocidade das apostas e os estímulos para continuar participam da experiência do jogador. O controle individual é exercido dentro de um sistema que oferece repetidamente a oportunidade de apostar de novo.

Nesse contexto, “jogue com responsabilidade” é uma orientação insuficiente quando toda a obrigação de estabelecer limites recai sobre o consumidor. A liberdade individual não elimina a responsabilidade de quem desenvolve, promove e distribui produtos capazes de causar danos.

Reconhecer esses fatores não resolve, por si só, a discussão sobre uma proibição total. Uma medida precisa ser avaliada por sua capacidade de proteger pessoas, pela possibilidade de fiscalização e pelos efeitos sobre o mercado clandestino. Restrições à publicidade, limites de perdas e acesso ao cuidado também merecem fazer parte desse debate.

O que não podemos é descartar toda intervenção com o argumento de que cada um sabe o que faz. Os prejuízos alcançam o orçamento familiar, os relacionamentos e pessoas que nunca decidiram apostar. A escolha individual não encerra uma discussão cujas consequências são compartilhadas. A falácia está em tratar a existência de uma escolha como prova suficiente de liberdade. Entre poder fazer e conseguir decidir há condições concretas que precisam ser consideradas.

Defender a autonomia exige atenção àquilo que pode enfraquecê-la. Exige cuidado com quem perdeu o controle, responsabilidade de quem lucra e oportunidades reais para que a esperança de mudar de vida encontre outros caminhos.A liberdade de entrar em uma aposta importa. A possibilidade real de sair dela também. Quando celebramos apenas a primeira, corremos o risco de chamar de liberdade uma experiência da qual a própria pessoa está tentando se libertar.

Aline Ponte é psicóloga, pós-graduada em Psicopedagogia e Psicopatologia, com formação em coaching executivo. Especialista em Gestão de Negócios e Programa CEO e Programa COO pela FGV. É CEO (Libercard), liderando desenvolvimento de produtos, equipes e relações institucionais.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

Ciro Gomes e o Ceará de hoje; Por Ricardo Alcântara

A banalidade do esquecimento e da recordação; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Contrata+Brasil chega a Fortaleza com foco em pequenos negócios

Quaest: três medidas recentes de Lula, incluindo bets, têm apoio da maioria na reta final da eleição

Siará Tech Summit 2026 transforma o Centro de Eventos no Pavilhão da Inovação

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

TSE trava campanha de Roberto Cláudio e Wagner

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens