
— Essa sua foice parece que tá meio cega, seu Adil.
Foi o que me disse um vizinho do nosso sítio, numa clareira da floresta que circunda a cidade de Eldorado, no Vale do Ribeira. Com um esboço de sorriso no canto dos lábios, ele me viu me atrasar na fila de roçadores. A fina ironia daquele participante do mutirão — típico da época do plantio — era uma forma delicada de lidar com a minha inexperiência nas tarefas da lavoura. Nada de estranho que, naquela atividade de ajuda mútua, um mascate como eu se mostrasse tão incompetente.
Para os moradores daquele lugar, eu era um mascate vindo de Minas Gerais (pelos meus novos documentos, o mineiro Adilson Oliveira — “Adil”, no tratamento mais simples), de perto da fronteira com a Bahia (para justificar meu indisfarçável sotaque nordestino). Tocava uma pequena posse de terra em parceria com Dino, segundo marido da viúva Alita — mulher estimada por todos e pertencente a uma família muito conhecida na região.
Moldado pelas vivências no semiárido cearense, meu primeiro sentimento ao entrar em contato com a exuberância da floresta foi de deslumbramento. A nossa pequena porção de terra — um casebre de taipa e duas roças, uma de arroz e outra de mandioca — parecia um pedaço de mundo inexplorado. Rios, riachos, árvores imensas, animais de todo tipo e aves de variadas espécies compunham um cenário maravilhoso e, ao mesmo tempo, hostil: cobras, varejeiras (as moscas do berne), borrachudos — cujas picadas são umas dez vezes mais incômodas que as das muriçocas — formavam o outro lado da moeda.
A naturalidade com que se dera a nossa inserção naquela comunidade — Ruth (como Raquel, uma “ex-empregada doméstica”, minha esposa) e eu — ajudou a diminuir minhas reservas quanto à consistência do projeto de enfrentamento à ditadura. Lembro bem do susto ao saber, por Pedro Pomar, ex-deputado federal e dirigente do PCdoB, que o Vale do Ribeira seria nossa área de atuação.
Vale do Ribeira? Aquela região onde houvera recentes combates entre forças militares e um grupo guerrilheiro liderado por Carlos Lamarca? A pergunta me atravessou com espanto e incredulidade. Pomar confirmou, mas explicou que o PCdoB já atuava ali antes de Lamarca instalar seu campo de treinamento, e que, durante as operações repressivas, não houve qualquer suspeita sobre os membros do partido que ali viviam havia anos. Reforçou: o propósito do PCdoB era outro.
Mesmo sem dissipar totalmente minhas dúvidas, escutei Pomar descrever a missão: estudar a área, estabelecer vínculos com a população, escutar seus anseios, aprender a viver como agricultor, desenvolver habilidades de pesca e caça, manejar armas usadas pela população local, organizar grupos de autodefesa e preparar reação a possíveis ataques militares — tudo com o objetivo maior de contribuir para derrubar a ditadura.
A tática não era de foco guerrilheiro, mas de resistência popular armada, inspirada em experiências vitoriosas de guerra popular ao redor do mundo e nos erros e acertos de levantes brasileiros como a Revolução Praieira, a Cabanagem, a Balaiada, Canudos, o Contestado e outros que Pomar conhecia a fundo.
Ruth e eu começamos, então, a preparação para a nova vida. Passamos a ler tudo o que encontrávamos sobre o Vale do Ribeira e sobre agricultura. Meu primeiro contato in loco com a região foi em julho de 1971, na festa do Bom Jesus em Iguape — evento religioso e recreativo que reunia pessoas de todo o vale. Ao observar a região, imaginei-a cercada por forças militares: o Exército pelas estradas, a Marinha pelo litoral, a FAB pelo ar. Mesmo com a vasta floresta, a ideia de resistência armada me parecia frágil. Voltei ainda mais descrente. Mas o compromisso estava assumido — e seguimos em frente.
Como quintanista de Medicina, esperava-se que eu me preparasse para cuidar de problemas de saúde em eventuais combates. Um dos desafios: aprender a extrair dentes. Para isso, fui estagiar numa clínica odontológica popular de Luciano, um dentista simpatizante do PCdoB. Trabalhei como aprendiz na oficina de próteses com Fábio, um paulistano bonachão, descendente de calabreses.
Logo me tornei um aplicado auxiliar de protético. Lembro de um dia em que Fábio, emocionado, me abraçou comemorando uma dentadura que produzira com muito capricho — encomendada por um amigo, cantor iniciante que se sentia inseguro com sua antiga prótese. Algum tempo depois, o artista estourou nacionalmente. Seu nome? Por razões éticas, não posso revelar. Mas não, não estou dizendo que a dentadura foi responsável pelo sucesso — o talento já era dele.
À noite, após o expediente como auxiliar de protético, Luciano me ensinava técnicas de extração dentária. Mal sabia eu que, quase uma década depois, teria o prazer de ser novamente aluno de um dentista, estagiando no Departamento de Cirurgia Bucomaxilofacial da Faculdade de Medicina Odontológica de Colônia, na Alemanha.
Durante a preparação, Ruth e eu resolvemos — mesmo sob riscos — ir a uma festa pública de Carnaval em São Paulo. Estávamos sufocados pelo isolamento. Com máscaras carnavalescas, nos jogamos na folia. Foi então que, em meio à multidão, avistamos Verônica e Maria Francisca (a Loura), companheiras do movimento estudantil no Ceará. Tiramos as máscaras, corremos, nos abraçamos e brincamos até o fim. Depois, mergulhamos de volta à dura clandestinidade.
Voltei a encontrar a Loura só após a anistia, quando ela me pediu uma entrevista para um livro que escrevia sobre o Genoíno. Com seu jeito direto, foi dizendo que queria saber de detalhes pessoais da convivência — “de política já tenho material de sobra”. Maria Francisca Pinheiro dedicou a vida à democracia e à justiça social, deixando um legado valioso como escritora e professora da UNB. Faleceu em 2 de março.
Chegado o momento de nos instalarmos de vez no Vale, viajamos para Registro, capital da região. Lá ficamos hospedados na casa que Dona Alita herdara. Viúva, morava com os filhos Maria Tereza e José Luís, e casara-se depois com Dino, militante do partido. Enquanto os preparativos para Eldorado se concluíam, adquiri mais uma profissão: auxiliar de pipoqueiro. À noite, eu fazia e ensacava as pipocas e o Dino as vendia, com seu carrinho na praça principal.
É possível que, nessa rotina, eu tenha sido visto — mas não reconhecido — pela Laede, minha colega de faculdade que morava em Registro, após concluir residência médica em Brasília. Soube disso pelo Parente, também colega, só depois do exílio.
Finalmente, chegou o dia de partir para o sítio. Como foi nossa vida na floresta e por que saímos de lá um ano depois da chegada, é assunto para outra historieta.








