Se eu quiser falar com Deus; Por Paulo Mota

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Os irmãos Jeová (hoje, deputado estadual) e Paulo Mota, em foto de 1968, na casa da família, em Sucesso, distrito de Tamboril.

Se eu quiser falar com Deus, talvez precise fechar os olhos e me imaginar rezando na Igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso — templo onde aprendi, menino, os primeiros passos da fé. Foi ali, entre rezas e ladainhas, que se desenhou minha educação espiritual, guiada pelo exemplo sereno dos meus pais, católicos de missa e terço.

No fim de semana passado, voltei àquele templo sagrado. Os festejos da padroeira da cidade onde nasci me chamaram de volta — e, como sempre acontece, fui invadido por uma energia boa, um sentimento antigo que brota do chão de azulejos verdes, das paredes com tintas de memória, dos sinos que dobram quebrando o silêncio daquele vilarejo.

Na porta da igreja, deixei que me fotografassem. E naquele instante, como um sopro vindo de algum lugar entre o sagrado e o esquecido, me veio uma lembrança antiga, de quando eu tinha apenas dois anos de idade — 58 anos atrás. Dizem que eu brincava distraído na entrada quando uma vaca, em disparada, adentrou o templo. Só não me atropelou porque escorregou no piso envernizado. A cada vez que ouvi essa história, ela me chegava como um milagre — e, sim, quem acredita, como eu, sabe reconhecer um gesto de proteção divina.

Aquelas missas de infância com o Padre Heleno, cheias de histórias bíblicas e sermões, moldaram não só a fé, mas também os rituais da convivência: domingo de missa era o dia de vestir a melhor roupa, encontrar os amigos, passear no alarido da feira, partilhar uma galinha caipira suculenta, a primeira coca-cola, o doce de leite que ilustrava a alma.

A igreja de Sucesso integrava a Diocese de Crateús, comandada por Dom Antônio Fragoso, farol da ala progressista da Igreja. Homem culto, corajoso, denunciava a ditadura militar do altar — e suas homilias eram vigiadas por soldados armados. Eu, no entanto, esperava mesmo era pelos cafés da manhã ofertados por dom Fragoso no Palácio do Bispo. Mesa farta, conversa boa, cheiro de pão quente. Era o céu servido com talheres.

Ao contemplar a foto diante da igreja, percebi: aquele quase-acidente foi o primeiro de uma série que me acompanharam pela vida. O último, recente, aconteceu na pista da Avenida Washington Soares. Tentei desviar de uma moto desgovernada e caí. Fratura grave no braço direito. No sábado, entre uma lembrança e outra, li uma entrevista de Paulo Coelho, contando como compôs Não Pare na Pista ao lado de Raul Seixas, numa estrada da Bahia. Aquela frase, que virou música e serve de filosofia de vida para os 78 anos de Coelho, agora me parecia uma oração: não pare na pista.

Agradeci pela sorte de ter sobrevivido a tantos acidentes. Pelos sustos e lições aprendidas com eles. Pelas esquinas que passei, só eu sei. E foi brincando com meu sobrinho Arthur, que mora em Nova Russas, menino encantado que carrega nos olhos a liberdade do sertão, que pensei: tive uma infância assim também. Livre, risonha, de rua, de banho de açude e de sol. Fui menino que estudava perto de casa, que voltava na hora do recreio para comer a tapioca que minha mãe fazia com carinho e sal, vejam que luxo.

Hoje, se eu quiser falar com Deus, talvez não precise fazer mais do que isso: lembrar. Porque lembrar é rezar com os sentidos.

Paulo Mota é mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, especialista em Comunicação Estratégica, Projetos Culturais e Gestão Pública. Ex-Folha de Sã o Paulo, El País e Banco do Nordeste. Atualmente é gerente de Comunicação e Marketing da Companhia de Gás do Ceará.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

Atlasintel: A polícia e a confiança que ainda resiste

Atlas/Focus: Lula mantém vantagem larga no Ceará, mas avanço de Flávio reduz distância

Atlas + Focus: Cid lidera consolidado, Luizianne encosta e Wagner mantém disputa aberta entre os três primeiros

Focus/Atlas: O placar muda com Elmano 48,5% x Ciro 48% e disputa entra na reta final em claro empate técnico

Entenda a super sexta-feira: três pesquisas e três fotografias em uma disputa que continua aberta

O fundamento da crise se deu quando a política passou a pedir ao Supremo que resolvesse a política

Alerta: IA se organiza sozinha, forma uma “gangue” e ataca

Três pesquisas medem o mesmo Ceará e encontram distâncias diferentes entre Ciro e Elmano

Focus + Atlas para o Senado: Cid e Luizianne empatam na liderança; Wagner e Alcides travam disputa pela direita

MAIS LIDAS DO DIA

Ciro Gomes e o Ceará de hoje; Por Ricardo Alcântara

A banalidade do esquecimento e da recordação; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Contrata+Brasil chega a Fortaleza com foco em pequenos negócios

Quaest: três medidas recentes de Lula, incluindo bets, têm apoio da maioria na reta final da eleição

Siará Tech Summit 2026 transforma o Centro de Eventos no Pavilhão da Inovação

Coligação de Ciro Gomes tenta barrar pesquisa Atlas/Focus, mas TRE rejeita e impede censura

TSE trava campanha de Roberto Cláudio e Wagner

Atlas/Focus a seis dias da eleição: Elmano 49% x Ciro 47,6%

Atlas/Focus: Elmano avança entre os mais velhos e nas faixas de maior renda; Ciro concentra vantagem entre jovens