O voto direto e a “celebração da autonomia política” da universidade ; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

COMPARTILHE A NOTÍCIA

“A função mais importante da Universidade na Era da Razão é proteger a Razão”, Allan Bloom

“O declínio da Mente americana: Como o ensino superior falhou com a democracia e empobreceu a alma dos estudantes de hoje”, idem, 1987

“Quem come do meu pirão, toma do meu cinturão”, registro de inteligente tradição popular brasileira.

Por
Paulo Elpidio de Menezes Neto

Alguns ativistas, outros, tecnocratas bem intencionados, celebram a conquista da “autonomia politica” da Universidade pública, saída de uma canetada presidencial.

Reitor e dirigentes acadêmicos serão, eleitos de agora em diante, mediante eleição direta. Nada de “listas múltiplas, tríplice ou sêxtupla”. Um nome enxuto, extraído das entranhas ideológicas da universidade, neste caso, escolhido pelos seus pares.

“Conquista da autonomia política” configura a jeitosa metáfora de consolidação de uma estrutura de governo dominada pelos “coletivos”, segundo o modelo dos “sovietes”, instância de poder com os pés nas bases da burocracia acadêmica.

A “autonomia da universidade”, como conceito e desenho organizacional, perdura, contudo, uma questão por ser resolvida. A eleição direta de seus dirigentes não altera a natureza da formação de poder nesse microssistema de governo, na medida em que a provisão de meios para o seu funcionamento e manutenção não é gerada pela própria instituição, pública e estatal na pia batismal das suas origens. Antes, eram a Igreja, os monastérios e as escolas-cátedras que proviam e ungiam os reitores. Depois, o Estado assumiu o controle do processo, fixou regras e estabeleceu os limites da sua Autonomia, administrativa, pedagógica e política.

Em cinco governos de esquerda, no Brasil, nesta alargada quadra de 18 anos, as listas múltiplas não impediram, entretanto, que o Poder Executivo exercesse controle firme sobre a orçamentação de recursos para as universidades públicas.

Quem controla o cofre e o caixa, controla o governo e define as prioridades. Termina por construir ideias e regramentos. A administração por projetos, a propósito, serviu como mecanismo para diluir as competências dos reitores e impor regras e precedências sobre a Academia, o ensino e a pesquisa.

As relações entre a universidade, o Estado e os seus agentes, outrora conflituosas, em um cenário de divergências e reivindicações, assumiram confortável convergência entre o governo e a academia.

A universidade privada, por sua parte, fugiu habilmente aos controles do Estado, mas não das mantenedoras, cujas matrizes gerenciais mergulham, com frequência, em tumultuosas “interações” familiares.

Modelos de universidades estatais, a exemplo da Rússia, da China, de Cuba e dos países de confissão islâmica, não seguem o corte e as medidas da eleição direta. Destas delicadas providências encarregam-se o partido comunista ou o Corão. Poderia ser uma alternativa em face das novas mudanças que se anunciam, moldura de uma democracia “relativa”.

 

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.O 

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Vídeo: As marcas dos tiros no peito de Cid Gomes e o ruidoso silêncio de uma ruptura

Entre o discurso do colapso e alianças instáveis, Ciro tenta reconstruir seu poder no Ceará

Vídeo de Alcides liga Ciro ao núcleo de Flávio logo após caso Vorcaro

Relação de Flávio com Vorcaro faz Michelle entrar no radar presidencial

Alece vai batizar rodovia do Cumbuco com nome de Lúcio Brasileiro

AtlasIntel detecta erosão do “bônus nordestino” de Lula e acende alerta para 2026; Ceará é ponto importante

J&F, holding dos irmãos Batista, amplia presença no Ceará com compra de termelétrica em Maracanaú

Ciro voltará à disputa pelo Governo do Ceará após 36 anos

Queda da violência esvazia principal discurso da oposição no Ceará

O Ceará em outro patamar: energia, dados e poder

Pesquisa Quaest mostra disputa presidencial em 10 estados, incluindo o Ceará

Obituário: Lúcio Brasileiro 1939-2026

MAIS LIDAS DO DIA

A perda da inocência; Por Angela Barros Leal

Indústria cearense cresce em 2026 com produção em alta e exportações avançando quase 50%

Aeronave da Latam. Foto: Divulgação

Latam retoma voos entre Fortaleza e Miami após sete meses de suspensão

Parque de Tancagem do Pecém recebe R$ 640 milhões e deve operar em 2027

Receita Federal libera consulta ao maior lote de restituição do Imposto de Renda da história, com R$ 16 bilhões

TSE endurece após uso de slogans como “+ Uma Obra” em período eleitoral

Eleições 2026: Deepfakes entra na mira do TSE

Eleições 2026: TRE Ceará capacita juízes para combater manipulação digital

Consumidor pode ser obrigado a tentar acordo antes de processar bancos e empresas, analisa STJ