
Em viagem ao Amazonas, em 1866, Elisabeth Cary Agassiz observou algo surpreendente a ela, esposa do estudioso naturalista Luiz Agassiz, e pessoalmente interessada na taxionomia, ciência responsável por classificar e categorizar todos os seres vivos.
O que é isso? – apontava Elisabeth, em seus trajes do século XIX, para uma árvore verdejante das terras amazônicas: Planta – respondia o indígena a seu lado. E isso, o que é? – questionava outra vez, após dar alguns passos em suas botinas oitocentistas, indicando algum animal rondando os arbustos. Bicho – era o que ouvia.
Experimentava, a norte-americana, as peculiaridades de um mundo primitivo, no qual os elementos naturais de flora e fauna eram desprovidos de uma designação. As árvores frondosas, o denso matagal, o eriçado das moitas, os cachos de flores à sua volta, tudo o que compunha a opulenta floresta chegava a ela como planta. Os animais da criação que ali mantinham seu habitat atendiam por bicho. Compunham, fauna e flora, os bichos do mato.
Elisabeth estava habituada a registrar o que via usando a hierarquia da ciência criada pelo botânico e zoólogo Lineu, partindo do mais abrangente para o mais específico (reino, filo, classe, ordem, gênero, espécie e subespécie, saber hoje desaparecido de nossos livros escolares). Certificava-se de que se encontrava em um Éden na Terra, onde planta e bicho existiam em carne e osso, em tronco e raiz, em galho e flor, indiferentes às demandas classificatórias impostas pelo conhecimento.
Antes dela, e ainda sobre a questão dos nomes, William Shakespeare estava ciente disso: “Uma rosa com qualquer outro nome teria o mesmo perfume”, escreveu o inglês na peça Romeu e Julieta. Assim como ousariam escrever, séculos depois, tanto a autora Gertrude Stein (“Uma rosa é uma rosa é uma rosa”) como o time publicitário da empresa “onde um pneu é um pneu”.
Nenhuma outra palavra deveria se fazer necessária.
Penso que os nomes possuem seu poder próprio, exercem sua mágica de forma contundente. John Wayne não seria John Wayne caso tivesse mantido o cognome ganho na pia batismal. Um Marion Morrison – o nome escolhido pelos pais dele –, não atuaria de forma tão convincente em tantos filmes de cowboy, não exterminaria tantas tribos indígenas com a mesma determinação que a máscula legenda John Wayne, do mesmo modo que um outro par de MMs – Marilyn Monroe –, não extravasaria tamanho poder de sedução nas telas caso houvesse conservado o doméstico Norma Jeane.
O nome próprio pode ser concedido como uma bênção. Estão aí os milhões de mulheres abençoadas sob o manto de Maria. Os milhões de Josés, de Antônios e de Franciscos, valendo-se da fé nos santos aos quais louvam em seu onomástico. Até mesmo o nome Jesus, que é usado com frequência em países de língua hispânica, e se encontra presente no registro oficial de cerca de 35 mil brasileiros e brasileiras, como Maria de Jesus bem ilustra.
Graças ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aprendo que esse número de homens atendendo ao chamado de Jesus é significativamente superior ao dos 188 Hitlers, ou dos 107 Stalins, ou ainda dos 27 Mussolinis que percorrem as ruas brasileiras.
Que o IBGE saiba, não há registro de nenhum cidadão batizado com o nome de Barrabás, nem de Calabar, embora existam alguns Judas, aos quais em boa hora os pais (ou, mais possivelmente, a religiosidade e o bom senso do sacerdote) salvaram do bullying infantil e da impiedade popular acrescentando o adendo Tadeu, homenageando assim São Judas Tadeu, também um dos doze discípulos de Cristo.
Deixando de lado a questão peculiar dos nomes próprios, reforço minha certeza de que, para todos os idiomas, nada pode ser mais cruel do que empregar termos genéricos na utilização corriqueira, a exemplo, na nossa língua, das palavras-coringa negócio e coisa. Isso para não falar no emprego combinado de ambas, criando o terrível negócio do coisa, fórmula que beira o sacrilégio.
Desde o primeiro dia da criação, quando Deus chamou as trevas de noite e a luz de dia, desde quando a Sra. Elisabeth Agassiz cá esteve com seu marido, investigando plantas e bichos, continua sendo louvável dar um nome a cada coisa e classificar cada coisa com a sua justa denominação. Pode ser difícil, mas todos ganhamos quando são dados nomes aos bois. Em todos os sentidos…

Angela Barros Leal é jornalista, escritora e colaboradora do Focus Poder desde 2021. Sócia efetiva do Instituto do Ceará.







