Alguma coisa em construção; Por Gera Teixeira

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Clube Naútico nos anos 1950

Conheço a Fortaleza a partir dos fins da década de 1950, tendo recordações do Manel, jardineiro e pessoa de confiança da família, indo me deixar no Cristo Rei, instituto que iniciei meus estudos. Vez ou outra reclamava ao Manel de uma súbita dor de barriga, retornando para a casa. Mamãe certamente já sabia da minha invenção, então me fazia passar a manhã toda e muitas vezes até a tarde estudando as tarefas escolares. Não demorou em desistir dessa estratégia.

Ao caminho do Cristo Rei provocava paradas nas bodegas ao longo do percurso para fazer o Manel comprar pirulitos de tábua que armazenava com cuidado na lancheira. Morávamos na Rua Tibúrcio Cavalcante, quase esquina com a Rua Torres Câmara. Hoje, parece-me longe, mas na época era um passeio sem esforço.

Do Cristo Rei fui estudar no Instituto Christus. Era próximo dentro da lógica da época. Embora mamãe fosse deixar meus irmãos no colégio, preferia ir mais cedo caminhando. Sentia o cheiro bom do café das casas no acordar. A brisa esfriava o tempo. Gostava de ir observando os detalhes que surgiam na minha caminhada.

O vozeirão do Wilson Machado, radialista de grande conceito e audiência, conversando com os seus. Ouvi-lo era um privilégio para mim. Algumas calçadas já começavam a ser varridas. Eu era dos primeiros a chegar ao Christus e ficava a conversar animadamente com os colegas. O tema era o futebol alencarino. Como sempre, as gozações entre Ceará e Fortaleza.

Ao ensino de excelência do Christus somava-se uma disciplina com inclinação paramilitar. Antes de nos perfilarmos, havia uma bela cantoria. Tenho lembrança de Peixe Vivo. Depois vinham as ordens de “cobrir” e “descobrir”, para manter a distância correta dos colegas à frente. Marchávamos com disposição e certo orgulho infantil.

Estudei ali até o Ginásio Christus. Depois fui fazer o científico no Colégio Batista. Outros ares, novos colegas e uma novidade importante para nós: era um colégio misto. Rapazes e moças estudavam juntos. Havia um certo glamour de colégio americano. Mister Davis e Dona Sarah eram, de certa forma, a própria alma do Batista.

Havia muitos bedéis. Eram os guardiões da ordem e dos bons costumes. Assim como no Christus, todos se conheciam. Morávamos na Aldeota e, de algum modo, aquela Fortaleza também parecia morar dentro de nós.

A convivência entre rapazes e moças no Colégio Batista, que igualmente oferecia um ensino de excelência, era saudável e respeitosa. Nos anos em que ali estudei, não guardo lembrança de nenhum ato desabonador. Havia um respeito que transcendia a simples diferença entre os sexos. Era um respeito humano.

Quando recordo aqueles tempos, não sinto saudade apenas dos colégios. Sinto saudade de uma Fortaleza que parecia menor sem ser pequena. Uma cidade onde as pessoas se conheciam pelo nome, onde os caminhos eram percorridos sem pressa e onde a confiança ainda era um patrimônio coletivo.

Talvez a cidade não fosse melhor do que a de hoje. Talvez fosse apenas a cidade vista pelos olhos de um menino. Mas existe uma verdade que o tempo não conseguiu apagar: aquelas ruas, aqueles professores, aqueles colegas e aquelas caminhadas ajudaram a formar o homem que me tornei.

E quando volto a elas pela memória, ainda consigo sentir o cheiro do café da manhã saindo das casas, ouvir o canto da formação no Christus e enxergar, ao longe, o menino que caminhava sem saber que estava construindo suas melhores lembranças.

Gera Teixeira é empresário ítalo-brasileiro com atuação nos setores de construção civil e engenharia de telecomunicações. Graduado em Marketing, com formação executiva pela Fundação Dom Cabral e curso em Inovação pela Wharton School (EUA). Atualmente cursa Pós-graduação em Psicanálise e Contemporaneidade pela PUC. Atuou como jornalista colaborador em veículos de grande circulação no Ceará. Integrou o Comites Italiano Nordeste, órgão representativo vinculado ao Ministério das Relações Exteriores da Itália. Tem participação ativa no associativismo empresarial e sindical.

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