Governo bloqueia CPFs das bets, mas publicidade e influenciadores continuam sem limites. Por Frederico Cortez

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Por Frederico Cortez

O Brasil avançou ao criar a Plataforma de Autoexclusão das apostas esportivas, também conhecida como bets. A iniciativa, coordenada pelo Ministério da Fazenda, permite que qualquer pessoa solicite, de uma única vez, o bloqueio do acesso às casas de apostas autorizadas e manifeste o desejo de não receber mensagens promocionais das operadoras. É uma medida importante, especialmente para aqueles que perceberam que o entretenimento se transformou em problema.

Mas, diante desse avanço, uma pergunta me parece inevitável: quem bloqueará os algoritmos?

Hoje, o principal ambiente de captação de novos apostadores não é mais o site das plataformas. É o Instagram. É o TikTok. É o YouTube. São as redes sociais. É ali que influenciadores, celebridades, artistas e campanhas milionárias transformam apostas em sinônimo de prosperidade, riqueza rápida e estilo de vida.

Embora a plataforma permita que o usuário deixe de receber comunicações das operadoras, ainda não está claro se essa proteção alcança o ecossistema das redes sociais. Afinal, pouco adianta bloquear o CPF se os algoritmos continuam entregando, todos os dias, vídeos, anúncios e conteúdos patrocinados sobre apostas para milhões de brasileiros.

Essa discussão vai muito além do direito do consumidor. É uma questão de saúde pública.

A ludopatia, nome dado ao transtorno do jogo, é reconhecida pela Organização Mundial da Saúde. Não se trata de falta de disciplina ou de fraqueza de caráter. É uma doença capaz de destruir patrimônio, comprometer relacionamentos, provocar ansiedade, depressão e, em muitos casos, levar famílias inteiras ao colapso financeiro.

Os números começam a revelar a dimensão do problema. Dados do Ministério da Saúde apontam crescimento próximo de 140% na procura por atendimento em saúde mental relacionado ao vício em jogos nos últimos anos. Mais impressionante é a conta que essa expansão produz.

Plataforma para autoexclusão de contas em bets já tem 217 mil cadastros

Levantamentos divulgados em 2026 indicaram que os gastos do sistema de saúde com pacientes afetados pelos jogos on-line são cerca de 500 vezes superiores ao valor destinado ao SUS pela tributação das próprias bets. Em outras palavras, a arrecadação é pequena diante do custo social que recai sobre toda a sociedade.

É verdade que a regulamentação era necessária. As apostas esportivas de quota fixa foram autorizadas pela Lei nº 13.756, de 2018. Durante anos, porém, o mercado funcionou praticamente sem regras específicas. O cenário começou a mudar em 2023, com a aprovação da Lei nº 14.790, que entregou ao Ministério da Fazenda a responsabilidade pela regulamentação e fiscalização do setor. Em 2024, surgiu a Secretaria de Prêmios e Apostas e, desde 2025, apenas empresas autorizadas podem operar legalmente no país.

Foi um avanço. Mas a regulamentação não elimina os riscos.

Em períodos como a Copa do Mundo, quando a paixão pelo futebol se mistura a uma avalanche de publicidade, o número de apostadores cresce significativamente. E é justamente nesse ambiente de emoção que muita gente passa a enxergar as apostas como solução financeira. Não são.

Aposta não é investimento. Não substitui renda. Não resolve dívidas. E, em muitos casos, cria problemas ainda maiores.

Por isso, a plataforma de autoexclusão deve ser vista como uma ferramenta de proteção. Ela pode ajudar pessoas a estabelecer limites, preservar a saúde mental, proteger o patrimônio e evitar que uma diversão se transforme em tragédia.

Mas talvez seja hora de avançarmos para uma nova etapa. Se os algoritmos conhecem nossos gostos, hábitos e preferências, por que não poderiam respeitar a vontade daquele que simplesmente não deseja receber publicidade de apostas?

Talvez o Brasil precise discutir algo semelhante ao “Não Me Perturbe”, desta vez aplicado ao ambiente digital. Um mecanismo que permita ao cidadão dizer: “Não quero ser impactado por anúncios de bets”.

Porque a verdadeira liberdade não consiste apenas em ter o direito de apostar, mas sim em ter o direito de não ser constantemente estimulado a fazê-lo através do bombardeio de publicidades.

Frederico Cortez é advogado, fundador do escritório Frederico Cortez Advocacia. Especialista em direito empresarial, propriedade intelectual e direito digital. Palestrante e escritor de artigos de opinião jurídica, sendo referência bibliográfica em obras jurídicas e trabalhos acadêmicos. Presidente da Comissão Especial de Propriedade Intelectual da OABCE. Fundador da startup Youmarca – Proteção Inteligente.

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