Confundimos usar inteligência artificial com dominá-la. Soberania digital não se proclama em discurso: mede-se em megawatts, chips, dados e cérebros. A boa notícia é que o atraso ainda é reversível

Há um autoengano confortável no debate brasileiro: confundimos usar inteligência artificial com dominá-la. Tratamos a IA como software, quando ela é uma nova infraestrutura de poder. E quanto mais a consumimos, mais nos convencemos de que estamos prontos.
Não estamos. Somos campeões de adoção, entre os que mais conversam com assistentes e mais alimentam de graça, com nossos dados, os modelos alheios: dependência travestida de modernidade. E a nossa infraestrutura confessa essa dependência. Citam o SoberanIA, o modelo estatal, como prova de autonomia. Mas onde ele roda? Sobre milhares de chips de uma única empresa americana, a Nvidia, dona de cerca de 80% do mercado mundial: uma inteligência “nacional” sobre um hardware que não fabricamos e não podemos repor sob sanção. E o risco é concreto: em junho, os EUA classificaram como “prática irrazoável” a nossa autonomia regulatória sobre plataformas, o Pix incluído. Soberania digital virou alvo de retaliação comercial.
O despreparo, contudo, é mais profundo, e nem sempre é de silício ou de lei. É de gente. Formamos menos de 400 doutores em computação por ano; os EUA formam cerca de 1.800 há mais de uma década. Nenhum aporte bilionário compra, no prazo de um edital, a massa crítica que deixamos de formar por vinte anos. A conta da omissão se paga em subordinação.
O paradoxo brasileiro é cruel justamente porque temos quase tudo: matriz energética limpa, localização estratégica, cabos submarinos, mercado imenso, universidades relevantes. Possuímos os insumos da era da IA, mas não organizamos a nossa soberania. Exportamos energia, talentos e dados brutos para importar, depois, decisões automatizadas e plataformas opacas.
É aqui que muita cidade se engana. Data centers em solo nacional importam, mas não bastam. Sem integração com universidades e contrapartidas, viram apenas fazendas de servidores a serviço de estratégias alheias. Não por acaso, o Redata, regime que dava mais de R$ 7 bilhões em renúncia fiscal a um setor de pouquíssimos empregos, foi arquivado pelo Senado por premiar, com nossa água e energia, operações que mantêm controle e dados no exterior. Infraestrutura soberana não se faz hospedando galpões com isenção fiscal, e sim ancorando-os em parques tecnológicos dentro de um ecossistema. A cidade que cede terreno, energia e água precisa receber talento, indústria e pesquisa em troca, ou fica só com o passivo.
O atalho é tentador, e o Brasil acabou de tropeçar nele em praça pública. Em junho, a IplanRio, estatal da prefeitura do Rio, anunciou o Rio 3.5, celebrado como IA própria que teria superado gigantes chinesas por meros R$ 500 mil. Durou poucos dias. Os próprios desenvolvedores chineses analisaram os pesos e mostraram que o “modelo carioca” era a fusão de dois modelos deles, e que, sem disfarce, a IA até se identificava como chinesa. Não era inteligência nacional: era marca nacional colada em inteligência alheia. Soberania não se decreta em coletiva de imprensa.
E aqui o diagnóstico vira oportunidade. Dizer que não estamos prontos não é decretar derrota, é convocar à obra. A pergunta não é se usaremos IA, já a usamos na saúde, na Justiça e nas finanças, mas quem definirá os critérios invisíveis dessas decisões. Temos os insumos; falta a estratégia que os organize, numa aliança entre academia, governo e indústria que dê a cientistas e empreendedores o combustível que falta: o poder de computação. Otimismo não é crer que tudo dará certo sozinho: é encarar o gargalo e erguer a base.
Porque a soberania do futuro não será proclamada em discursos nem definida por aplicativos. Será medida em megawatts, fibras ópticas, cérebros formados e capacidade real de computar. Enquanto não entender isso, o Brasil seguirá repetindo o vexame do Rio: anunciar soberania digital sentado, confortavelmente, em servidores alheios.
Machidovel Trigueiro Filho é PhD e Secretário de Ciência, Inovação e Desenvolvimento Tecnológico de Caucaia, Vice Diretor da Faculdade de Direito da UFC, Coordenador do CRIA – Centro de Referência em Inteligência Artificial da UFC, Pós Doutor em Direito na USP/SP, Professor Visitante na FIU/EUA, Professor Pesquisador em STANFORD/EUA. Presidente da Comissão de Data Centers e Cidades Inteligentes da OAB. Foi eleito o “Empreendedor Digital do Ano no Brasil” pela Associação Brasileira de Startups e a Startup Brasil. Professor Titular de Direito Digital.






