Lições práticas de política; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

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[Parsifal Barroso, um intelectual renascentista na política do Ceará]

O pôr do sol na política

“A política é quase tão excitante como a guerra; e não menos perigosa.” — Winston Churchill

“Em política, nunca diga ‘nunca’ e nunca diga ‘sempre’.” — Napoleão Bonaparte

Por Paulo Elpídio de Menezes Neto

Provavelmente, a última função pública de Parsifal Barroso, ao aposentar-se como ministro do Tribunal de Contas da União, consolo de um político de grande atuação, foi a de diretor pró-tempore da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia da UFC. Corria o ano de 1968.

Fora nomeado interventor para pôr termo a um quase levante de alunos e professores contra o reitor Fernando Leite, cuja inépcia na condução dos assuntos mais delicados da Universidade ganhava dimensões surpreendentes.

Narrei esse episódio em livro de poucos leitores sobre os anos de chumbo dos governos militares.

[No Ceará, os livros são comprados nas festas de autógrafos pelos amigos mais chegados. Como não os lerão — há exceções honrosas —, não sabem o que fazer com aquele tijolo incômodo de vaidades impressas…]

Pois bem. Retomo agora o veio da história para mostrar a sabedoria de um político profissional dotado da magia da palavra, exemplo marcante deixado por Parsifal Barroso. A política não foi o esconderijo de Parsifal; era um intelectual de vasta cultura, um “renascentista” na política, como dele dizia Djacir Menezes.

Pelos vazios do velho prédio da Rua Barão do Rio Branco, no Centro de Fortaleza, ficávamos, o “interventor” e o “insurgente”, a conversar perdidamente. Eduardo Diatahy e Hélio Barros compunham, por vezes, aquele conluio intelectual.

Parsifal era um causeur, dotado de extraordinários recursos memorialísticos e da palavra. Nesses embalos, confessou-me certa vez que não era difícil entrar na política:

— Difícil é saber o momento adequado para afastar-se dos atavios do poder.

E explicava como os políticos perdiam, por descuido ou premeditação, a noção da oportunidade para retirar-se da política. Como deixar o tabuleiro de xadrez no qual os lances mais audaciosos nem sempre alcançam o intento dos personagens que os animaram?

Ele mesmo não foi capaz de perceber a sua hora de recolhimento. Deixou, mais de uma vez, a ocasião propícia passar bem ao seu lado, sob os seus olhos. Avisos não lhe terão faltado, mas a mosca azul do poder não lhe deu sossego.

Aposentado, ex-quase tudo na política brasileira, íntimo das veleidades dos homens e dos interesses que cercam o poder do Estado, aceitou ser interventor numa faculdade de gente arreliada, pé no chão, a fazer subversão controlada em pleno governo Médici, do “Brasil, ame-o ou deixe-o”…

Em um 31 de março, de triste lembrança, dispôs-se a fazer uma conferência sobre o movimento revolucionário, nos seus primeiros cinco anos dos vinte e um de uma longa jornada autoritária, no auditório do velho prédio que abrigara, no passado, a Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará. Sozinho, seguido pelo secretário e pelos funcionários administrativos, proferiu algumas palavras para uma obsequiosa audiência ausente…

Na verdade, cumpria, a contragosto, sugestões da DSI, braço longo dos órgãos de segurança e informação na UFC.

Nas conversas de corredor com Parsifal Barroso, caminhando peripateticamente entre as velhas colunas desbotadas do “pátio dos milagres”, como ele chamava o lugar, conheci a práxis da ciência política, a memorialística bem contada, em português culto, incontrolável nos adjetivos e no gestual amistoso, porém combativo, dos braços alongados. Era um intelectual cooptado pela política do Ceará, vencido pela província profunda da qual nunca se libertaria.

Comentava as suítes de Beethoven com a facilidade e a acuidade de quem descrevia as proezas de seu sogro, o coronel Chico Monte, chefe de uma das mais fortes oligarquias cearenses.

Foi ali, com o mestre exemplar, que aprendi minhas primeiras lições sobre o poder e sobre como pode ser perigoso navegar por suas entranhas sem sextante e sem o brilho das estrelas…

Completei minhas pretensiosas investidas pela teoria política com os aplicados exercícios epistemológicos sobre o poder, pelas páginas de O Príncipe. Mas já trazia comigo bagagem suficiente para entender as exortações do secretário florentino…

Paulo Elpídio de Menezes Neto é articulista do Focus, cientista político, membro da Academia Brasileira de Educação (Rio de Janeiro), ex-reitor da UFC, ex-secretário nacional da Educação superior do MEC, ex-secretário de Educação do Ceará.

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