
Por que importa: O governo do Ceará conseguiu contratar apenas um dos cinco blocos de PPPs de esgotamento sanitário levados a leilão na B3. A baixa adesão do mercado acende um alerta sobre o modelo da concessão e deve levar a uma revisão da estrutura dos contratos antes de uma nova tentativa ainda em 2026.
O que aconteceu
- O Consórcio Ceará Saneamento, liderado pela Terracom, foi o único participante e venceu o Bloco 1 (Norte-Litorâneo).
- A proposta ofereceu desconto de 1,15% sobre a contraprestação mensal que será paga pela Cagece ao parceiro privado.
- Ao longo dos 28 anos de contrato, os pagamentos poderão alcançar R$ 3,74 bilhões.
- O bloco contempla 23 municípios, incluindo Sobral e Jijoca de Jericoacoara, com previsão de aproximadamente R$ 1,1 bilhão em investimentos.
Quem integra o consórcio
Além da Terracom, o grupo reúne:
- CDG Concessões e Participações;
- Cosampa Construções;
- Gimma Engenharia;
- Ellenco Participações;
- Vale do Rio Novo.
O dado que chamou atenção
Dos cinco blocos ofertados, quatro não receberam qualquer proposta.
Os lotes 2, 3, 4 e 5 tiveram a licitação cancelada e deverão ser reestruturados antes de retornarem ao mercado.
O que explica o baixo interesse
Segundo o presidente da Cagece, Neuri Freitas, o governo iniciará uma rodada de conversas com investidores para identificar os principais obstáculos.
Entre os pontos já levantados pelo mercado estão:
- resistência ao modelo de PPP;
- taxa de retorno considerada pouco atrativa diante dos juros atuais;
- volume de obras exigidas;
- indicadores contratuais considerados excessivamente rígidos.
A expectativa da estatal é revisar os projetos e realizar um novo leilão antes do fim do ano.
Contexto
O resultado contrasta com o cenário observado em 2022, quando duas grandes PPPs da Cagece foram disputadas e vencidas pela Aegea, incluindo operações que abrangem Fortaleza, Região Metropolitana e Juazeiro do Norte.
A menor atratividade também acompanha uma tendência recente do setor.
Nos últimos meses:
- uma PPP da Saneago (GO) terminou sem interessados;
- a concorrência da Cagepa (PB) recebeu apenas uma proposta, apresentada pela espanhola Acciona.
O ambiente de juros elevados e a maior seletividade dos investidores têm reduzido a competição em projetos de saneamento.
O plano financeiro
Segundo o diretor comercial da Terracom, Alessandro Hidalgo, o consórcio deverá utilizar um empréstimo-ponte nos primeiros anos para financiar as obras. A fala foi publicada no Valor Econômico.
Na sequência, a estrutura de longo prazo poderá combinar:
- linhas do programa Saneamento para Todos;
- financiamento do BNDES;
- eventual emissão de debêntures de infraestrutura.
Entre linhas
O leilão evidencia que o desafio do saneamento deixou de ser apenas atrair capital privado. Com custos financeiros mais elevados e contratos mais exigentes, cresce a necessidade de calibrar riscos e remuneração para manter os projetos competitivos. O governo cearense agora terá de encontrar esse equilíbrio para garantir a expansão da cobertura de esgoto sem comprometer o cronograma de universalização previsto pelo novo marco legal do saneamento.







