
Por Fábio Campos
Existe uma diferença importante entre uma chapa provável e uma chapa ideal. A primeira nasce das circunstâncias, das negociações possíveis e das limitações impostas pela realidade. A segunda é aquela que, ao menos em teoria, reúne o maior número de forças políticas, acomoda interesses estratégicos, amplia a competitividade eleitoral e projeta um grupo político para além de uma única eleição. Quase nunca as duas coincidem.
O desafio do governismo cearense, neste momento, é justamente fazer com que coincidam. E há fortes sinais de que o processo caminha nesse sentido.
Desde que a possibilidade de Ciro Gomes disputar o Governo do Ceará pela oposição deixou de ser apenas uma especulação e passou a integrar efetivamente o cenário político de 2026, dirigentes dos partidos aliados começaram a rever cálculos que, até então, pareciam consolidados. A questão deixou de ser apenas como reeleger o governador Elmano de Freitas. A pergunta passou a ser outra, muito mais ampla e complexa: qual composição teria capacidade de preservar a unidade da base governista, ampliar o arco de alianças, acomodar seus principais protagonistas e enfrentar um adversário que continua sendo um dos nomes de maior reconhecimento da política cearense?
É justamente dessa reflexão que nasce uma composição tratada, reservadamente, por importantes lideranças governistas como a mais competitiva possível.
Segundo fontes de primeira linha ouvidas pelo Focus Poder, esse desenho reúne o governador Elmano de Freitas (PT) na disputa pela reeleição; Domingos Filho (PSD) ocupando a vice-governadoria; o senador Cid Gomes (PSB) buscando um novo mandato; e a deputada federal Luizianne Lins (Rede), representando a Federação Rede-Psol, na segunda vaga ao Senado. As quatro suplências permaneceriam como objeto da etapa final das negociações, justamente porque carregam um valor político que, em determinadas circunstâncias, pode ser tão importante quanto a própria titularidade.
Seria um erro, contudo, analisar essa composição apenas sob a ótica da sucessão estadual. As fontes ouvidas pela reportagem insistem que a verdadeira dimensão dessa articulação está naquilo que ela representa para o futuro do grupo político hoje no poder. A eleição de 2026 deixou de ser apenas uma disputa pelo Palácio da Abolição em busca de manter a hegemonia no Ceará. Ela passou a ser um movimento estratégico que alcança Brasília, influencia a sucessão municipal de Fortaleza em 2028 e pode repercutir, inclusive, sobre o processo de reorganização do Partido dos Trabalhadores para o período pós-Lula.
É justamente por isso que essa dificilmente seria uma chapa construída apenas segundo as preferências pessoais de Camilo Santana ou Elmano de Freitas, que têm em mãos o protagonismo natural de liderar as negociações. A questão é que as circunstâncias políticas passarm a impor uma construção coletiva, capaz de assegurar (essa palavra é perigosa em política) a hegemonia local e refletir interesses que extrapolam os limites do Ceará. Quando uma eleição estadual passa a dialogar diretamente com o projeto nacional do presidente da República e com a trajetória de um ex-ministro de Estado que se tornou um dos principais quadros nacionais do PT, as decisões deixam de ser exclusivamente locais para assumir dimensão nacional.
Nesse contexto, Luiz Inácio Lula da Silva torna-se o personagem que dá sentido à amplitude da aliança. Não somente pela imensa força eleitoral do presidente no Estado.
O Ceará consolidou-se como um dos principais pilares eleitorais do presidente no Nordeste, e preservar essa estabilidade política interessa diretamente ao Palácio do Planalto. Uma vitória robusta de Elmano significaria mais do que a continuidade de um governo estadual; representaria a manutenção de um dos mais importantes palanques de Lula no país e de uma ampla bancada alinhada ao governo federal no Congresso Nacional. Nesse ponto, eleger o dois senadores virou uma prioridade. Afinal, é no Senado que as coisas se afunilam.
Ao lado de Lula, surge naturalmente a figura de Camilo Santana. Cada vez com mais força.
Se, em 2014, Camilo era visto como uma aposta para governar o Ceará, hoje ocupa posição muito diferente. Depois de dois mandatos à frente do Executivo estadual, da folgada eleição para o Senado em 18, da vitória de Elmano no primeiro-turno em 22, da condução do Ministério da Educação e agora como líder de Lula no Senado, Camilo, mais do que nunca, passou a integrar o núcleo político do presidente da República e a ser mencionado por aliados e observadores como um dos principais nomes da nova geração petista para o período posterior ao ciclo de Lula.
Qualquer projeção sobre 2030 depende, evidentemente, do resultado da eleição presidencial de 2026, mas há um entendimento consolidado entre interlocutores do governo: para quem constrói uma trajetória nacional, é fundamental manter sua base política sólida e vencedora no estado de origem. E, claro, o enador é, junto com Lula, um cabo eleitoral determinante.
É por isso que Camilo acompanha com máxima atenção as conversas em torno da chapa majoritária. Dessa vez, não exatamente uma chapa à sua imagem e semelhança. Um Ceará unido fortalece sua posição em Brasília. Um Ceará fragmentado produziria exatamente o efeito inverso. A estabilidade política do Estado passou a ser também um ativo nacional.
Dentro dessa lógica, cada nome da composição cumpre uma função muito específica.
A candidatura de Elmano à reeleição representa a continuidade administrativa e política do ciclo iniciado por Camilo Santana. Seu nome reúne, sem contestação interna, o apoio do PT, do governo federal e de todos os partidos que hoje integram a base. Elmano é amplo, não é um governante personalista e sabe compartilhar poder. Fundamentalmente, entra na campanha com popularidade em alta. Esse ponto é um princípio para o sucesso eleitoral.
A presença de Domingos Filho acrescenta um componente de enorme relevância institucional. Ao deixar o MDB para estruturar o PSD no Ceará, Domingos fez uma aposta que, anos depois, mostrou-se politicamente acertada. Construiu uma legenda com identidade própria, autonomia e forte capilaridade municipal, tornando-se um dos principais articuladores da política cearense. Atentem: não se subestima um grupo político que tem a vice-prefeita de Fortaleza, Gabriella Aguiar, e que levou, pela segunda vez, o deputado federal Domingos Neto à relatoria-geral do Orçamento da União, uma das funções de maior influência do Congresso Nacional. Além de outras, são credenciais que ampliam o peso político do PSD nas negociações.
No caso de Cid Gomes, a lógica parece atender a duas necessidades simultâneas. A primeira é preservar sua liderança dentro do PSB, partido que hoje reúne dezenas de prefeitos e uma das maiores estruturas municipais do Estado. A segunda é criar condições para acomodar diferentes correntes internas da legenda. Segundo fontes do Focus Poder, uma das alternativas discutidas envolve reservar ao grupo do deputado federal Júnior Mano uma suplência considerada estratégica na chapa ao Senado. Não há decisão tomada, mas o cenário ilustra o grau de complexidade das negociações.
Cid é peça fundamental na disputa. Ao que se sabe, já muito disposto a se candidatar novamente ao Senado. Sua força política, sobrenome e reconhecida capacidade de organização nas campanhas políticas o tornam imprescindível na composição da chapa. Sua relação pessoal com o governador facilitou as coisas e anulou os, digamos, contratempos que teve com Camilo Santana.
Como a política é dinâmica, a imposição do redesenho criou algo que há apenas alguns meses era absolutamente improvável: Luizianne Lins compondo a chapa majoritária. Luizianne foi claramente alijada das mesas de negociações logo após dar aval à candidatura de Elmano em 2022. Seu caminho era disputar novamente uma vaga de na Câmara dos Deputados. As circunstâncias mudaram. O ponto de inflexão: há uma semana, Luizianne voltou a conversar com Camilo Santana. Foi uma conversa longa. Certamente apimentada pela sempre necessária DR.
Saiu algo do encontro? Não se sabe ao certo, mas a notícia principal é o encontro. Em política, por si só, sentar-se frente após anos de guerra fria é o indicativo que importa. Em paralelo, a ex-prefeita já havia intensificado o diálogo com Cid Gomes. As fotografias divulgadas pelos próprios protagonistas e os encontros tornados públicos revelam que antigas divergências perderam espaço para um objetivo maior: preservar a unidade do campo governista diante de uma eleição mais desafiadora.
Sua presença também amplia o alcance político da chapa. Além de incorporar a Federação Rede-Psol à aliança, Luizianne mantém forte densidade eleitoral em Fortaleza e dialoga com segmentos históricos da esquerda. Há ainda outro aspecto que valoriza sua eventual candidatura. Caso Lula seja reeleito e, em um cenário futuro, Luizianne venha a ser convidada para integrar um ministério, hipótese discutida apenas nos bastidores, o primeiro suplente assumiria o mandato. O precedente mais recente é o de Camilo Santana, cuja ida para o Ministério da Educação abriu espaço para que suas suplentes exercessem o mandato no Senado. Em Brasília, suplência nunca é apenas um detalhe; é um ativo político de enorme valor.
Talvez o aspecto mais interessante de toda essa construção esteja justamente naquilo que ainda não aparece de forma explícita. Ao organizar a sucessão estadual de 2026, essa composição também ajuda a moldar a eleição municipal de Fortaleza dois anos depois. Ao distribuir espaços, acomodar lideranças e reduzir potenciais focos de conflito, o grupo governista cria condições para chegar unido à disputa pela principal prefeitura do Estado. Na política, uma boa chapa raramente serve para apenas uma eleição; ela costuma organizar um ciclo inteiro de poder.
Nada disso significa que o desfecho esteja definido. Há interesses legítimos de outras lideranças, disputas por espaços e negociações que ainda exigirão habilidade política. As convenções estão adiante, e a política costuma reservar surpresas até o último instante.
Mas, segundo diversas fontes ouvidas pelo Focus Poder, é em torno dessa composição que hoje gravitam as conversas mais importantes do governismo cearense. Não porque ela seja a mais fácil de construir. Justamente o contrário. Porque, diante do novo cenário político imposto pela presença de Ciro Gomes como candidato no campo oposicionista, ela passou a ser vista como a chapa capaz de reunir, em um mesmo projeto, competitividade eleitoral, equilíbrio partidário e visão estratégica de longo prazo.






