Carta a Edson Queiroz: Narrativa dos acontecimentos pós-morte; Por Helder Moura

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A história de Edson Queiroz se entrelaça com o desenvolvimento socioeconômico e cultural do Ceará (Foto: Acervo FEQ)

Fortaleza, outubro de 2025
Prezado Chanceler Edson Queiroz,

Escrevo-lhe de um tempo distante do seu, quase meio século após sua partida, até hoje chorada e sentida. O senhor partiu subitamente, em 1982, num voo fatídico, deixando o Ceará e o Brasil mergulhados em um turbilhão de luto. Também deixou sementes que, desde então, floresceram em árvores frondosas e robustas. Hoje, em 2025, retorno a este diálogo como quem se dirige a um patriarca invisível, uma referência permanente, para relatar o que o mundo, o país, o Ceará, sua família e as empresas que carregam seu nome se tornaram.

O mundo que o senhor conheceu parecia imenso, marcado por distâncias intransponíveis. Pois bem, ele encolheu. As distâncias perderam sua força e sua tirania. Com o advento da internet, carregamos no bolso pequenos aparelhos chamados celulares, que são, ao mesmo tempo, telefone, biblioteca, jornal, escritório, rádio, máquina fotográfica e televisão. O senhor, que tanto acreditava no poder da comunicação e da informação, certamente se sentiria radiante.

A geopolítica mundial sofreu inflexões dramáticas. A Guerra Fria, que moldava as relações internacionais em sua época, chegou ao fim com a dissolução da União Soviética. Os Estados Unidos consolidaram-se, por um período, como potência hegemônica. Depois, a China emergiu como gigante econômico e hoje disputa com os norte-americanos a liderança em tecnologia, comércio e influência global.

O planeta viveu acontecimentos que antes pertenciam apenas aos livros de História. Guerras devastaram o Oriente Médio; Gaza voltou a arder; assistimos, em tempo real, ao atentado contra as Torres Gêmeas, em 2001; acompanhamos a queda de ditadores e, hoje, vemos pela televisão a Rússia esmagando sua irmã Ucrânia.

Também enfrentamos o desafio das mudanças climáticas. Os mares avançam, as florestas queimam e a humanidade ainda não reaprendeu a conviver com a natureza ferida, justamente aquela que lhe garante a própria vida.

O Brasil que o senhor deixou era outro. Vivíamos o crepúsculo da ditadura militar. A democracia, que então era um sonho, chegou cercada de dores, perseguições e contradições e continua, até hoje, saltitando na gangorra da polarização. Elegemos presidentes civis, enfrentamos impeachments, prisões, crises políticas e econômicas. Ainda assim, seguimos como uma nação que insiste em não desistir da liberdade.

O Plano Real conteve a hiperinflação, estabilizou a economia e nos entregou uma nova moeda: o real.

Mas o país também mudou de rosto. Cresceram os grandes centros urbanos, repletos de arranha-céus, desigualdades e violência. O agronegócio tornou-se uma potência mundial, alimentando milhões de pessoas, embora nem sempre receba o devido reconhecimento. A juventude permanece inquieta: muitos já não arrumam a própria cama, mas acreditam ser capazes de reorganizar o planeta. Trocaram seus antigos deuses e heróis pelos influenciadores digitais e, muitas vezes, têm dificuldade em compreender o valor do passado.

No Ceará, a política viveu uma ruptura saudável com a eleição de Tasso Jereissati, em 1986. Iniciou-se um modelo moderno de gestão pública e começou o declínio do velho coronelismo.

Vieram obras transformadoras. O Porto do Pecém consolidou-se como plataforma de exportação de minérios e frutas e tornou-se referência em energia renovável. O Açude Castanhão trouxe segurança hídrica e reduziu os efeitos das enchentes no Baixo Jaguaribe. O Aeroporto Internacional Pinto Martins, em nova estrutura e sob parceria europeia, elevou o Ceará a outro patamar no cenário internacional. O Projeto São José e o Programa Agente de Saúde mudaram indicadores sociais antes considerados inaceitáveis.

Na educação, o Ceará tornou-se referência nacional com o programa de alfabetização na idade certa. Na cultura, o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura consolidou-se como um dos maiores polos culturais do Nordeste. E, como se esperava, o Movimento Massafeira Livre, liderado por Ednardo e Augusto Pontes, produziu frutos extraordinários, revelando artistas que ajudaram a escrever a história da música cearense.

A saúde pública também avançou. Surgiram novos hospitais, escolas de formação profissional, um hospital veterinário, a Escola de Saúde Pública e uma ampla rede de Unidades de Pronto Atendimento. A grande estrela desse sistema passou a ser o Sistema Único de Saúde (SUS), regulamentado em 1990.

Nem tudo, porém, evoluiu na direção desejada. A violência urbana espalhou-se a partir dos anos 2000. O trânsito tornou-se caótico, agravado pelo crescimento acelerado das motocicletas.

Lembrei-me do futebol. Ceará e Fortaleza disputam hoje a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro. Em compensação, nosso outrora glorioso futebol de salão — agora chamado futsal — já não ocupa o lugar de destaque de outros tempos. Os antigos campinhos de várzea deram espaço às escolinhas particulares e às areninhas.

Os clubes sociais e esportivos — Náutico, Ideal e AABB — despertam nostalgia. Alguns preservam parte do antigo glamour; outros se curvaram lentamente à passagem do tempo.

Nossa gastronomia também se reinventou. A antiga arte culinária incorporou sabores do mundo sem abandonar suas raízes. A lagosta, os mariscos e a tradicional peixada cearense continuam entre os grandes símbolos da mesa do nosso povo.

Suas empresas, Dr. Edson, transformaram-se em pilares da economia brasileira. A Nacional Gás consolidou-se entre as maiores distribuidoras de GLP do país. A Esmaltec ampliou seu portfólio de eletrodomésticos sem abrir mão da identidade, da solidez e da confiança construídas ao longo das décadas.

Na comunicação, o Sistema Verdes Mares acompanhou a impressionante revolução tecnológica: da televisão em preto e branco ao sinal digital em alta definição; do rádio de válvulas ao streaming. Continua sendo uma das principais vozes do Ceará, levando informação, esporte, cultura e entretenimento. Apenas uma perda entristece: a digitalização praticamente extinguiu os jornais impressos distribuídos de porta em porta.

Na educação, o senhor certamente sentiria um orgulho ainda maior. A Universidade de Fortaleza (Unifor), nascida de sua fé inabalável na transformação pelo conhecimento, tornou-se referência nacional e internacional. Milhares de profissionais passaram por seus corredores, transformando não apenas suas próprias vidas, mas também o destino de inúmeras famílias.

A Fundação Edson Queiroz ampliou significativamente sua atuação por meio de escolas, projetos sociais, serviços médicos, jurídicos e iniciativas culturais, alcançando milhares de pessoas. Seu nome, Chanceler, tornou-se sinônimo de oportunidade, cidadania e futuro.

Hoje, no ano do centenário de seu nascimento, sua memória foi celebrada com a pedra fundamental do Complexo Yolanda e Edson Queiroz, espaço destinado a preservar a história e, ao mesmo tempo, projetar o amanhã. Museus, teatros, galerias e áreas educativas mostrarão às novas gerações quem foi o homem que ousou sonhar muito além de seu tempo.

Deve ser fascinante imaginar tudo isso. Suas empresas prosperaram porque se profissionalizaram, modernizaram-se e, sobretudo, preservaram os valores que o senhor lhes imprimiu: ética, ousadia e compromisso. Tudo isso sob a liderança firme e afetuosa de Dona Yolanda, inclusive durante os delicados processos sucessórios. Hoje, a terceira geração preserva esse legado com a mesma paixão.

Há, entretanto, algo ainda mais importante a registrar. Sua ausência foi sentida como um vazio irreparável, mas sua presença continua ecoando. Quem fala do Grupo Edson Queiroz fala inevitavelmente do senhor, como se ambas as histórias fossem inseparáveis. É como se, em cada produto, em cada ação filantrópica e em cada gesto visionário, houvesse uma maneira silenciosa de prolongar a vida interrompida em 1982.

Chanceler, o senhor não viu a chegada da internet, não conheceu o milagre das vacinas modernas nem os extraordinários avanços da medicina. Não testemunhou as crises e conquistas da democracia brasileira, tampouco a dimensão alcançada por seu grupo empresarial. Mas tudo isso, de certa forma, já estava presente em sua visão de mundo, construída desde o Seminário da Prainha, fortalecida no Liceu do Ceará e consolidada na formação técnica em Contabilidade: acreditar na inovação, apostar no trabalho e confiar no futuro.

Enfim, talvez nenhuma frase traduza tão bem seu pensamento quanto esta, verdadeira bússola para todos nós:

“Se um dia vocês forem surpreendidos pela injustiça ou pela ingratidão, não deixem de crer na vida, de engrandecê-la pela decência e construí-la pelo trabalho.”

Receba esta carta como um gesto de memória, admiração e profunda gratidão. O Ceará, o Brasil e até mesmo o mundo continuam a colher os frutos das sementes que o senhor plantou.

Com profunda admiração,

Helder Moura é Cirurgião Dentista, especialista em saúde pública, prótese dentária e ortodontia e ortopedia dos maxilares. Membro Fundador da Academia de artes e letras de Cajazeiras.

Helder Ferreira de Moura
Agricultor da Caatinga

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