Quem é o sujeito que escolhe? Por Patrícia Ciríaco

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“Ainda ter fome”: a interrupção do pensamento e a responsabilidade da escolha política.

As eleições presidenciais se aproximam. Periodicamente, a democracia devolve ao sujeito uma pergunta que, embora se materialize no gesto aparentemente simples de escolher entre as alternativas disponíveis, carrega consequências que ultrapassam largamente a individualidade daquele que escolhe. O voto é individual em sua manifestação, mas irremediavelmente coletivo em seus efeitos. Entre a consciência daquele que decide e a sociedade que experimentará as consequências da decisão existe, portanto, uma responsabilidade que não se esgota na liberdade formal de escolha.

Em períodos eleitorais, contudo, a discussão pública tende a ser rapidamente organizada em torno das próprias alternativas colocadas à disposição do eleitor. Nomes, partidos, programas, pesquisas, alianças, rejeições e preferências passam a ocupar o espaço político, e apergunta predominante torna-se, compreensivelmente “em quem votar?” Este artigo pretende suspender, por alguns instantes, essa pergunta. Não porque ela seja irrelevante. Ao contrário, precisamente porque sua resposta possui consequências relevantes demais para que seja formulada sem que uma questão anterior seja enfrentada. Afinal, antes de perguntar em quem escolher, talvez seja necessário compreender quem é o sujeito que escolhe.

A proposta deste texto não é analisar candidaturas, comparar programas políticos, estabelecer preferências partidárias ou oferecer qualquer direção ideológica ao exercício do voto. A essa altura do campeonato, você, o sujeito que escolhe, já deveria ter feito isso. Interessa-me outra coisa: o que acontece entre o momento em que um discurso político alcança o indivíduo e aquele em que esse mesmo indivíduo decide aderir a ele, reproduzi-lo ou legitimá-lo por meio de sua escolha?

Essa pergunta adquire especial relevância em um tempo marcado pela aceleração, em um mundo no qual discursos chegam antes que possam ser examinados, imagens produzem afetos antes que argumentos possam ser construídos e identidades políticas frequentemente precedem questões políticas concretas. Ou seja, opertencimento pode antecipar o julgamento, assim como a reação pode ocorrer antes do pensamento. Essa velocidade tende a eliminar os intervalos, e é justamente nesse desaparecimento que talvez resida uma das questões políticas mais relevantes do nosso tempo, pois o exercício responsável da escolha pressupõe a preservação da capacidade humana de interromper o curso ordinário das coisas, os valores recebidos antes de simplesmente reproduzi-los, o agir antes de transformá-lo em automatismo e, inclusive, as próprias certezas antes de convertê-las em decisão.

Chamarei ao diálogo o primeiro filósofo que me ajudará a chegar ao ponto central deste texto. Friedrich Nietzsche, em Assim falou Zaratustra, apresentou-nos a figura do último homem, inquietantemente atual. O último homem não é necessariamente mau, ignorante ou incapaz; ao contrário, pode ser perfeitamente funcional, trabalha, produz, relaciona-se, diverte-se e procura conforto, segurança e pequenas satisfações. Seu drama é outro, pois já não deseja superar-se e, tendo encontrado sua pequena felicidade, parece suficientemente satisfeito para não precisar interrogá-la. Em oposição a essa figura, Nietzsche apresenta o Übermensch, o além-do-homem ou super-homem, não como um homem biologicamente superior ou um modelo ideal a ser imitado, mas como expressão da autossuperação, isto é, do homem que não se compreende como realidade acabada e permanece capaz de colocar sob suspeita os valores que recebeu, superar aquilo que se tornou e criar novaspossibilidades de existência.

O que Nietzsche fez? Sua filosofia nos deixa, antes da urna, uma inquietação fundamental: por que isto vale? Trata-se de perguntar se os valores que orientam nossas escolhas foram efetivamente examinados ou apenas recebidos e reproduzidos. Afinal, é relativamente fácil exercer o pensamento crítico sobre aquilo que já rejeitamos, acontece que o verdadeiro acontecimento reflexivo começa quando somos capazes de dirigir a mesma suspeita à comodidade das nossas próprias certezas.

Nesse sentido, o problema contemporâneo não está simplesmente no celular, no algoritmo ou na infinidade de conteúdos que atravessam diariamente uma tela, mas no fluxo que nos conduz quase sem intervalo entre receber, reagir, compartilhar, reproduzir e continuar. Opiniões sucedem opiniões, indignações substituem indignações e identidades oferecem pertencimento, de modo que aquilo que se torna raro não é a informação, mas a interrupção necessária para interrogá-la. A escolha política pode reproduzir essa mesma dinâmica quando a identidade responde antes do próprio sujeito e expressões como “meu grupo pensa assim”, “o meu lado defende isso” ou “o outro lado representa aquilo” passam a anteceder o julgamento, fazendo com que o eleitor, em vez de propriamente escolher, apenas confirme aquilo que já estava previamente disposto a escolher.

Chamarei agora mais um reforço para apresentar um problema complementar, identificado por Hannah Arendt. Ao acompanhar o julgamento de Adolf Eichmann e formular sua conhecida reflexão sobre a banalidade do mal, Arendt deparou-se com uma ordinariedade perturbadora, pois, diante da monstruosidade dos crimes praticados durante o Holocausto, não encontrou a profundidade demoníaca que talvez se esperasse, mas um homem ordinário, burocrático, preso a fórmulas e incapaz de pensar criticamente sobre o significado daquilo de que participara. É claro que essa aproximação exige cautela, pois não se trata de comparar uma eleição democrática àquele totalitarismo, muito menos de transformar adversários políticos em Eichmanns contemporâneos, o que significaria banalizar justamente a experiência histórica da qual Arendt partiu; o que interessa aqui é a inquietação filosófica que permanece sobre o que pode acontecer quando o agir continua e o pensamento deixa de interrompê-lo.

Ao aproximar as reflexões desses dois filósofos, separados por mais de meio século e por contextos intelectuais profundamente distintos, encontramos duas perguntas que se complementam e permitem chegar ao ponto central desta reflexão: se Nietzsche nos pergunta “por que isto vale?”, Arendt acrescenta “o que estou fazendo?”, e é justamente no intervalo entre essas duas perguntas que me interessa localizar a responsabilidade daquele que escolhe nas urnas.

Pensar produz uma interrupção, porque cria distância entre aquilo que chega até nós e o que fazemos com aquilo que recebemos, entre a regra e sua execução, o pertencimento e a concordância, o discurso e sua reprodução e, sobretudo, entre a candidatura que desejamos e aquilo que estamos dispostos a admitir para continuar desejando-a. Talvez este seja o teste mais difícil do pensamento político, pois é relativamente fácil reconhecer a violência, a incoerência, a mentira ou a desumanização no discurso daquele em quem jamais votaríamos, uma vez que nossas próprias convicções já nos prepararam para enxergá-las. Muito mais difícil, contudo, é dirigir o mesmo julgamento àquilo que vem de quem consideramos “nosso”. Nesse momento, a pergunta deixa de ser “o que há de errado com o outro?” e passa a ser “o que estou disposto a não enxergar naquele em quem desejo votar?”, ou seja, o que relativizo quando vem do meu lado e condenaria se viesse do adversário é uma pergunta que desloca o julgamento do outro para nós mesmos.

Não se trata de responsabilizar o eleitor por cada ato futuro daquele que elege, mas de reconhecer que existe uma responsabilidade ético-política naquilo que escolhemos legitimar e que, por isso, nenhuma escolha responsável pode dispensar a reflexão sobre as pessoas que experimentarão suas consequências. Talvez a democracia precise, então, de algo além de sujeitos formalmente capazes de escolher, pois precisa de sujeitos capazes de interromper. E “interromper” não significa abandonar convicções, buscar uma neutralidade impossível ou permanecer indefinidamente indeciso, mas preservar um intervalo entre o estímulo e a escolha, um espaço em que o discurso possa ser interrogado, o pertencimento suspenso por alguns instantes e até a certeza mais confortável possa, novamente, transformar-se em pergunta.

E é nesse ponto que me ocorre a poesia de Adélia Prado quando escreve “(…) não quero faca nem queijo. Quero a fome”, trazendo a belíssima imagem da fome, tomada aqui como metáfora do desejo que nos mantém inquietos diante da existência. Se tudo é político, também existir é um ato político, e há algo profundamente humano e político em ainda ter fome, não por novas certezas, mas por aquilo que nos impede de nos tornarmos definitivamente satisfeitos com as respostas que já possuímos. Fome de pergunta, suficiente para desconfiar até das respostas que gostaríamos de encontrar, admitir a possibilidade do erro e não permitir que certezas, afetos ou pertencimentos dispensem o exercício do pensamento, sobretudo quando nossas escolhas alcançam outras pessoas e nos exigem a capacidade de continuar reconhecendo a pessoa humana para além das divergências que nos separam.

A fome de Adélia encontra, por contraste, o último homem de Nietzsche, aquele que já não tem fome, suficientemente satisfeito para não desejar aquilo que possa perturbá-lo, e encontra também a inquietação arendtiana, uma vez que pensar exige que alguma coisa permaneça aberta, que o sujeito não coincida inteiramente com aquilo que lhe foi dado e seja ainda capaz de interromper o funcionamento para perguntar pelo significado do próprio agir.

Penso que é justamente disso que precisamos às vésperas da urna, não de eleitores sem convicções ou pertencimentos, mas de pessoas cujas convicções não tenham adquirido o direito de dispensar o pensamento e para as quais nenhum pertencimento seja suficiente para suspender o julgamento; tampouco se trata de buscar neutralidade, mas de ter a coragem de submeter aquilo que desejamos ao mesmo escrutínio que dirigimos àquilo que rejeitamos, pois uma pessoa pode ser culta, informada, acompanhar a política diariamente, conhecer candidatos, propostas e pesquisas e, ainda assim, jamais interromper o próprio sistema de crenças e certezas.

O contrário do pensamento, afinal, não é necessariamente a ignorância; pode ser a continuidade. No domingo, diante da urna, haverá uma escolha, mas, antes dela, há um intervalo, e é justamente nesse espaço entre o discurso e a decisão que o eleitor deixa de ser mero destinatário para se tornar verdadeiramente sujeito político. É nesse intervalo que Nietzsche nos convida a perguntar “por que isto vale?”, enquanto Arendt nos confronta com “o que estou fazendo?”. Talvez caiba a cada um de nós apenas preservar esse espaço de pensamento e, antes da escolha, perguntar a si mesmo: ainda tenho fome suficiente para continuar perguntando?

02 de outubro de 2026.

Patrícia Ciríaco, advogada, sócia da Ciríaco & Ciríaco Advogados. Presidente da Comissão de Direito das Sucessões da OAB/CE e da Comissão de Direito das Sucessões do IBDFAM/CE; Diretora da Advocacia Sucessória do Estado do Ceará pelo IBDFAM/CE; Membro Consultivo da Comissão Especial de Direito das Sucessões do Conselho Federal da OAB. Doutora em Direito Constitucional nas Relações Privadas pelo PPGD (UNIFOR); Mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Coimbra/PT; Especialista em Direito das Famílias e Sucessões pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus/SP; Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM); Professora das disciplinas de Sucessão Testamentária, Planejamento Sucessório e Processo Sucessório da pós-graduação lato sensu da UNIFOR.

Patrícia Ciríaco, advogada, sócia da Ciríaco & Ciríaco Advogados. Presidente da Comissão de Direito das Sucessões da OAB/CE e da Comissão de Direito das Sucessões do IBDFAM/CE; Diretora da Advocacia Sucessória do Estado do Ceará pelo IBDFAM/CE; Membro Consultivo da Comissão Especial de Direito das Sucessões do Conselho Federal da OAB. Doutora em Direito Constitucional nas Relações Privadas pelo PPGD (UNIFOR); Mestre em Ciências Jurídico-Políticas pela Universidade de Coimbra/PT; Especialista em Direito das Famílias e Sucessões pela Faculdade de Direito Damásio de Jesus/SP; Membro do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM); Professora das disciplinas de Sucessão Testamentária, Planejamento Sucessório e Processo Sucessório da pós-graduação lato sensu da UNIFOR.

Referências
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

PRADO, Adélia. O coração disparado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.

 

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