André Fernandes, o bloquinho e a ilusão de conquistar Fortaleza dançando para convertidos

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O deputado transformou a campanha de Flávio Bolsonaro no Ceará em uma demonstração de protagonismo pessoal. Apostou nos bloquinhos, nas dancinhas, no funk de confronto e na mobilização das redes sociais. Mas as urnas revelaram os limites dessa estratégia: em Fortaleza, Lula ampliou sua vantagem e chegou a 60% dos votos válidos. O resultado também abre uma discussão sobre o projeto político de André para a Prefeitura em 2028.

Há uma diferença fundamental entre mobilizar uma multidão e conquistar um eleitorado. A primeira tarefa exige capacidade de convocação, entusiasmo e identificação com uma causa. A segunda exige algo mais difícil: convencer quem ainda não está convencido. É precisamente nessa diferença que reside uma das principais questões políticas deixadas pela eleição presidencial de 2026 em Fortaleza.

O deputado federal André Fernandes (PL) assumiu o protagonismo da campanha de Flávio Bolsonaro no Ceará. Foi o rosto mais visível da mobilização, organizou eventos, comandou manifestações e emprestou ao candidato presidencial sua linguagem política, marcada pela comunicação digital, pelo confronto e pela mobilização da militância. Chegou a ser constrangedor o papel de coadjuvante de figuras públicas que até recentemente eram referências em nossa política.

O chamado “Bloquinho do 22” tornou-se a principal expressão dessa estratégia. Houve eventos no Conjunto Ceará, Maraponga, Jangurussu, Barra do Ceará e outras localidades. Em torno deles, uma estética de festa eleitoral, com música, dança, trios elétricos e palavras de ordem contra o PT.

A aposta era na capacidade de transformar entusiasmo em votos. O resultado suscita uma pergunta incômoda: o bloquinho conseguiu ultrapassar os limites do eleitorado que já estava disposto a votar em Flávio Bolsonaro?

O Nikolas do Ceará
Em artigo publicado nesta segunda-feira (26), no Poder360, sob o título A soberba precede a ruína, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (o carater do personagem não elimina a qualidade de sua análise) sustenta que Flávio Bolsonaro cometeu um erro estratégico ao permitir que o deputado Nikolas Ferreira assumisse tamanho protagonismo na campanha do segundo turno.

Para Cunha, Nikolas é um comunicador eficiente dentro do universo bolsonarista, mas sua linguagem não necessariamente conquista eleitores externos a esse campo. O articulista também questiona se o deputado mineiro não estaria construindo um projeto pessoal de liderança da direita, paralelo aos objetivos eleitorais imediatos de Flávio.

O raciocínio oferece uma chave interessante para compreender o que aconteceu no Ceará. André Fernandes desempenhou, em escala estadual, um papel semelhante ao de Nikolas Ferreira em Minas Gerais. Ambos representam uma geração de políticos cuja força está nas redes sociais, na comunicação direta com seus seguidores e na capacidade de transformar atos políticos em acontecimentos digitais.

Essa competência é real. André não se tornou um fenômeno eleitoral por acaso. Foi reeleito deputado federal com aproximadamente 684 mil votos, dos quais cerca de 313,5 mil somente em Fortaleza.

Entretanto, a eleição presidencial apresentava um desafio distinto. Não bastava mobilizar seguidores. Era necessário ampliar a votação do candidato do PL entre eleitores que não pertenciam ao núcleo mais identificado com o bolsonarismo.

Nesse ambiente, a escolha do repertório de campanha merece análise.

O funk de confronto, as letras de tom agressivo, as dancinhas e as provocações aos adversários podem funcionar como instrumentos de identificação entre militantes. O que não está demonstrado é sua capacidade de convencer o eleitor moderado, o indeciso ou aquele que rejeita a radicalização política.

É possível que tenham produzido entusiasmo entre os apoiadores. Também é possível que tenham reforçado resistências em outros segmentos. Os resultados eleitorais, isoladamente, não permitem medir esses efeitos. Mas permitem avaliar o tamanho do desafio que permaneceu sem solução.

O resultado que o bloquinho não conseguiu alterar

ELEIÇÃO PRESIDENCIAL EM FORTALEZA — 2026

Candidato 1º turno 2º turno
Lula (PT) 797.002 932.282
Flávio Bolsonaro (PL) 586.251 619.634
Vantagem de Lula 210.751 312.648

Fonte: resultados eleitorais divulgados com base nos dados do TSE.

CNN Brasil

Participação nos votos válidos em Fortaleza

Comparação dos percentuais entre os dois turnos de 2026.

Chart■ Lula

■ Flávio Bolsonaro

Os números mostram que Lula conquistou 135.280 votos adicionais entre os dois turnos. Flávio Bolsonaro acrescentou 33.383. Em outras palavras, para cada novo voto incorporado à votação de Flávio, Lula somou aproximadamente quatro. A vantagem do petista, que já era expressiva, aumentou em 101.897 votos. E a abstenção na capital caiu de 13,02% no primeiro turno para 11,02% no segundo.

É importante observar que nem todos os votos adicionais vieram de eleitores que haviam se abstido. Houve também a redistribuição dos votos destinados a outros candidatos e alterações no comparecimento. O dado central, porém, é inequívoco: Flávio Bolsonaro cresceu em números absolutos, mas Lula cresceu muito mais.

Isso não significa que os bloquinhos tenham causado a derrota do candidato do PL. Significa que a mobilização conduzida por André Fernandes coexistiu com uma ampliação substancial da vantagem do adversário.

A geografia eleitoral e os limites da festa
Há outro elemento revelador. No primeiro turno, segundo levantamento do HubPolítico, Lula venceu em 97 dos 104 bairros incluídos naquele recorte. Uma metodologia diferente, utilizada pelo Diário do Nordeste, identificou vitória do petista em 106 dos 114 bairros com seções eleitorais. Ambas evidenciam uma distribuição territorial amplamente favorável ao presidente.

Flávio concentrou suas principais vantagens na faixa de maior renda da cidade, especialmente Aldeota, Meireles, Cocó e bairros vizinhos.Já nas áreas populares, onde os organizadores dos bloquinhos também procuraram marcar presença, Lula manteve sua predominância eleitoral.Messejana, Bom Jardim, Mondubim, Jangurussu, Barra do Ceará e Conjunto Ceará permaneceram no campo de votação majoritária do petista no primeiro turno.

É verdade que Flávio registrou avanços em segmentos da periferia na comparação com 2022. Esse dado impede qualquer conclusão simplista de que a comunicação da direita não encontrou receptividade nesses territórios. Mas a expansão não foi suficiente para alterar o domínio eleitoral de Lula na capital. E o segundo turno ampliou a distância entre os dois.

Há, portanto, uma contradição política relevante: os atos de campanha podiam oferecer imagens de ruas movimentadas, enquanto a contagem dos votos revelava um eleitorado muito mais amplo e diverso do que aquele mobilizado nas manifestações. A multidão que aparece na fotografia não é necessariamente uma amostra da cidade que comparece às urnas.

E onde estavam Capitão Wagner e Roberto Cláudio?
A centralidade alcançada por André Fernandes também levanta uma questão sobre a organização da direita cearense. Capitão Wagner e Roberto Cláudio são personagens com trajetórias políticas, experiências administrativas ou eleitorais e públicos próprios. Ainda assim, na exposição pública das mobilizações do segundo turno, André assumiu posição predominante. A cobertura jornalística da reta final registrou expressamente sua centralidade na campanha de Flávio no Ceará.

Os demais líderes não desapareceram da política estadual, mas ficaram em segundo plano na imagem construída por essa mobilização. É justamente aqui que a hipótese de uma campanha voltada também para 2028 ganha sentido.

André disputou a Prefeitura de Fortaleza em 2024. Seu desempenho naquela eleição o colocou no centro da oposição municipal. A mobilização presidencial de 2026 lhe ofereceu uma oportunidade adicional de manter suas estruturas políticas ativas, ocupar os bairros, consolidar a identificação com o número 22 e fortalecer sua liderança entre os eleitores do PL.

Do ponto de vista de sua trajetória, esses movimentos são compatíveis com a preparação de uma nova candidatura a prefeito em 2028. Isso não prova que André tenha subordinado a campanha presidencial a um projeto pessoal. A intenção exige evidências próprias. Mas a sobreposição de objetivos políticos é visível: trabalhar pela eleição de Flávio também significava ampliar a presença pública do deputado em Fortaleza.

A questão que fica é saber se os interesses eleitorais de curto e médio prazos foram conduzidos de maneira complementar ou se acabaram produzindo prioridades distintas.

O problema de confundir engajamento com persuasão
Uma das características mais importantes das campanhas contemporâneas é a transformação da política em conteúdo. Eventos são concebidos para circular nas redes. Discursos são preparados para virar cortes. Provocações produzem compartilhamentos. A repercussão digital passa a funcionar como medida de sucesso. André Fernandes domina esse ambiente.

Mas as eleições majoritárias apresentam uma dificuldade que não pode ser resolvida apenas pela multiplicação de visualizações. Um candidato precisa conversar também com quem não acompanha suas redes, não participa dos seus atos e não se identifica com seu estilo.

O eleitor que aplaude uma música de confronto já pode estar politicamente decidido. O eleitor que ainda considera as alternativas talvez esteja interessado em propostas, estabilidade, serviços públicos e capacidade de governo. Nenhuma dessas linguagens é incompatível com a outra. Uma campanha pode mobilizar sua base e, simultaneamente, procurar ampliar sua influência. O problema surge quando a comunicação destinada aos convertidos ocupa quase todo o espaço disponível.

Foi esse o argumento central apresentado por Eduardo Cunha em sua crítica à atuação de Nikolas Ferreira. No Ceará, os resultados oferecem razões para discutir a mesma hipótese em relação a André Fernandes.

O que fica para 2028
Seria um equívoco interpretar o resultado de Fortaleza como uma derrota pessoal de André Fernandes. Ele não era o candidato presidencial, e a decisão dos eleitores foi influenciada por fatores nacionais, estaduais e locais que ultrapassam a atuação de qualquer coordenador de campanha.

Também seria precipitado concluir que sua capacidade de mobilização perdeu força. Sua expressiva votação para deputado federal demonstra a existência de uma base política relevante. O que as urnas permitem afirmar é algo mais específico: a estratégia de mobilização associada à sua liderança não impediu que Lula ampliasse consideravelmente sua vantagem em Fortaleza.

Para 2028, a questão assume outra dimensão. A disputa pela Prefeitura exigirá de André uma combinação entre a preservação de sua base e a capacidade de estabelecer conexões com segmentos eleitorais que não compartilham necessariamente sua linguagem política. Isso dependerá de diversos fatores: o desempenho da administração municipal, a composição das alianças, o quadro de candidaturas e a agenda concreta da cidade.

O deputado chega ao novo ciclo eleitoral com visibilidade, estrutura política e uma votação expressiva. Mas também com um dado a ser examinado: o eleitorado fortalezense mostrou, na disputa presidencial, uma amplitude de preferências que não se confunde com a presença nas manifestações de campanha.

Ao fim, permanece uma distinção que a política digital frequentemente obscurece. O bloquinho mede a disposição dos que saem às ruas para apoiar. A urna mede a decisão dos que saem de casa para votar. E, em Fortaleza, os dois retratos de outubro de 2026 foram bastante diferentes.

 

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