
Conto como me contaram e, a seguir, o leitor entenderá como essa história veio parar aqui.
A queda acidental de um cavalo deixou manco de uma perna o filho de um casal. A mãe, sentimental, dizia ter sido aquilo uma “desgraça” e o marido, resignado, apenas comentava: “Veremos”. Logo a seguir, o país entrara em guerra e todos os jovens da vila foram recrutados para a morte nas trincheiras. Todos, menos um: o rapaz que ficara manco. E a mãe compreendeu, enfim, a resiliência paterna.
A história, ouvida há tempos, foi o que primeiro me veio à mente quando, ainda no domingo, me dei conta do que realmente havis se passado com o presidente Lula ao vencer o segundo turno – “de virada”, como se diz – e demonstrar, mais uma vez, sua capacidade de transformar adversidades em oportunidades – sua maestria.
Explico. Analisada à luz dos fatos, evidente está agora, com o enredo concluído, que não ter chegado ao segundo turno em vantagem numérica foi fundamental para a vitória de Lula. Isto é, caso tivesse alcançado seu limite ainda na primeira fase, quando grande parte do eleitorado se mantinha passivo diante da disputa, dificilmente reuniria força nova que lhe desse resistência diante das reações terríveis que a direita escravocrata deste país seria levada a escaramuçar contra ele. Mas, uma vez estando ele em desvantagem, lhe concederam, ao contrário, espaço para respirar.
E foi aí que eles se ferraram de vez: surgiu, do nada, uma futura ministra da Economia a nos prometer o Éden argentino de Milei, enquanto seu chefe, assustando os eleitores mais moderados, antecipava o desejo de alterar a Constituição.
Nos templos, seus pastores já ameaçavam destituir de todos os andores o dogma da Virgem Mãe do Cristo católico. Achando pouco, o abjeto Pablo Marçal foi convocado para dirigir in loco, no debate da Band, a cena patética de um moleque sem compostura tentando ridicularizar um homem de 81 anos que priva do respeito do mundo.
Enfim, enquanto a direita desfilava durante o segundo turno como se apenas esperasse o tempo passar, foi a desvantagem no primeiro turno que deu aos democratas do país a oportunidade de perceber, com real materialidade, o futuro sombrio que nos aguardava, caso insistíssemos no negacionismo inconsciente da nossa passividade.
Pudemos, enfim, perceber que estava próximo de assumir a presidência alguém que levaria o crime organizado para o coração do Estado, o palácio de governo, e estaria disposto a trocar nossas riquezas materiais pela proteção internacional da velha águia imperialista.
Passamos a ser postos com maior clareza diante das consequências mais prováveis quando um homem educado para ser bandido chegaria ao poder com ampla maioria parlamentar no momento em que a instância superior do judiciário se encontra desacreditada, jogada às cordas pelas perversões morais de seus próprios membros. O que nos restaria, afinal, como amparo? Os editoriais d’O Estadão? Ora.
O que vimos despertar nas ruas e no tráfego das redes sociais foi a afirmação de dois sentimentos. O primeiro, de civilidade. Uma metade da nação que não quis desistir dos ideais de cidadania que foram ama-de-leite da infanta democracia, há décadas anteriores. O segundo, um belo espírito de altivez da nacionalidade, um país que cresceu e se modernizou o suficiente para não mais aceitar “ser o quintal de ninguém” – na expressão feliz de Lula, em discurso na ONU.
Esses sentimentos encontraram expressão na sinergia surpreendente que foi construída entre as esquinas das cidades, ocupadas por incontrolável espontaneidade, e as avenidas digitais abertas por um “exército” desarmado que resolveu falar com o enigmático algoritmo de igual para igual.
É antiga a compreensão estratégica de que o fator “surpresa” tem sido um general indomável. E a direita ainda vestia as calças (para a posse, ao que pareceu) quando a crista do tsunami se pronunciou onde antes já parecia haver apenas as marolinhas do fato consumado.
Bem, agora Lula está eleito e já corre nas ruas a pergunta: o que virá? Respondo como o pai do menino que ficou manco e escapou da guerra na história contada no início deste artigo: “Veremos”.







