
Sou papiro e memória; arquivo, bíblia, alcorão e torá. Por minhas páginas, transitaram a seiva da cultura e os alicerces da civilização. Guardo segredos milenares e fórmulas de alquimia, mas também sou a carta de amor desbotada, o testamento lacrado, o bilhete de barganha e o humilde papel que embrulha o pão na feira.
Sou instrumento multissecular: educação, informação, comunicação e refúgio. Tenho cor, brilho e opacidade; sou tecido de fibras, farrapos e camadas que desafiam os séculos. Resisto ao tempo implacável, à umidade dos porões e ao calor dos desertos. Tenho sangue de celulose, alma de tinta e uma força indomável que teima em respirar.
Levo comigo o peso das notícias, as boas e as amargas. Carrego verdades que libertam e mentiras que acorrentam, o ardor do amor e o gelo do desamor. Pinto o sete, enfeito o arco-íris e registro a balança da justiça e a mancha da infâmia. Sou o suporte legítimo do humor e da sátira, da rabugice e da cara feia; do desaforo cuspido, da violência do mundo e da paixão desmedida.
Trago no lombo a ciência exata e a superstição ancestral, a ebulição das ideias e a densidade dos pensamentos. Guardo fotografias amareladas, esboços, desenhos e caricaturas que zombam dos poderosos, mas também aceito com dignidade o destino singelo de limpar balcões, forrar gavetas e enxugar mãos aflitas. Carrego a partitura da música, o fôlego da prosa, o verso solto do cordel e o fervor da devoção. Em mim cabem a imensidão dos astros, a profundeza dos oceanos e até o murmúrio das águas baldias.
Sou feito de elogios rasgados, esquecimentos dolorosos e trovas ferozes de maldição. Suporto estoicamente a poeira dos anos, o ácaro invisível, o cheiro de mofo e a ingratidão dos homens. Já vivi confinado em malas de viagem, trancado em baús de tesouro e ostentado em estantes de nobreza; fui venerado, beijado e guardado em altares. Sou laço que une gerações e destino que se cumpre, mas nunca nó que cega ou sufoca!
Escrevo o mar revolto, as serras ancestrais e o sertão sem sorte. Descrevo matizes de cores, raças e credos em sua infinita polifonia. Línguas de todas as origens me habitam e me proclamam. Sou a Mata Atlântica que restou, o Pantanal em brasa e a selva profunda. Sou, ao mesmo tempo, o juiz severo, o promotor incansável e o perdão que absolve. Alerto sobre a maré baixa, a ventania de agosto e o corisco da tempestade. Traduzo a grandiosidade das metrópoles, o silêncio dos grotões, o grito da pátria e o labirinto das paixões humanas.
Hoje, porém, sinto o frio do abandono; sou preterido pelas telas frias e pela pressa digital. Nem sequer me saqueiam quando o caminhão de carga tomba na estrada. Sou xingado de obsoleto, desdenhado por mãos apressadas, jogado ao lixo como bagagem inútil. Mas não desisto da minha travessia: trago no peito a certeza incorruptível de que ainda hei de ser estrela acesa na imensa biblioteca do céu.

Helder Ferreira de Moura
29/10/2026.
Academia Cajazeirense de Artes e Letras (ACAL).
Instituto do Ceará (Histórico, Gegráfico e Antropológico). Sócio Colaborador.
Relembrando o dia do Livro.






