O que as urnas disseram?

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
Tivemos uma eleição na qual a renovação das casas legislativas superou todas as expectativas; os grandes partidos foram derrotados; o tempo de televisão dado aos postulantes não produziu resultados; as chamadas máquinas governamentais falharam, com exceção do Nordeste; o apoio dos artistas e intelectuais não foi decisivo; a aptidão para a oratória não prevaleceu; os ataques dirigidos contra a pessoa dos candidatos ou aos seus apoiadores não influenciaram decisivamente os resultados; nem o financiamento das campanhas preponderou. O que aconteceu?
O eleitor disse nas urnas que quer políticas de segurança pública mais efetivas. A criminalidade tornou-se insuportável; que intelectuais, artistas, bons oradores e líderes perderam credibilidade. A institucionalização da corrupção, explicitada pelo fim do segredo ocasionado pelas novas tecnologias, com registros eletrônicos indeléveis das transações financeiras, gravadores e câmeras por toda parte registrando condutas; celulares documentando contatos; paraísos fiscais divulgando fortunas de origem inexplicável; Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário independentes são uma nova realidade.
Santarrões havidos como defensores dos menos favorecidos foram desmascarados. O controle da informação e da produção de narrativas, obtida por meio da conquista daquilo que Louis Althusser (1918 – 1990) chamava de “aparelhos ideológicos” não funcionou. A internet deu voz a quem não tinha tribuna, quebrando a hegemonia dos aparelhos ideológicos. O monopólio da narrativa social e política foi abalado juntamente com o controle das manifestações de rua. O ex-ministro José Dirceu declarou que houve mais do que uma derrota eleitoral, tendo ocorrido uma derrota ideológica. Reconheceu ainda a base social do fenômeno.
O debate político adotou uma agenda identitária. A polêmica sobre os costumes ganhou destaque. O homem simples, não tem opinião firme sobre questões complexas como reforma tributária, política cambial e matriz enérgica. Mas tem opinião formada sobre os costumes. Macunaíma sempre foi tolerante. Mas não gostou da promoção oficial de profundas transformações culturais. Não gostou de um discurso de paz e amor que agride violentamente quem não acompanha, acoimando de estúpido, de ignorante, ou fascista quem dele discorda. Tentava-se impor uma aculturação dos brasileiros ao mesmo tempo pregando a intocabilidade das culturas minoritárias. O multiculturalismo do tipo diferencialista não agradou. O multiculturalismo do nosso povo é do tipo interativista. A perda de prestígio dos intelectuais e artistas resultou disso e de outros fatores.
A agenda dos políticos precisa ser revista. A empáfia dos intelectuais e artistas já não é tão poderosa. As urnas disseram: o mundo mudou; há um limite para manipulação da opinião pública; a agenda identitária e o multiculturalismo diferencialista não convenceram; as práticas políticas viciadas já não são toleradas; discursos eloquentes não bastam; alguma coisa nova precisa ser feita no campo da segurança pública. Ou os políticos mudam ou o povo muda os políticos, assumindo o risco da mudança.

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