Sábios, sabidos e simplórios

COMPARTILHE A NOTÍCIA

Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Tem seis livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho Rodrigues
rui.martinho@focuspoder.com.br
A história das civilizações é cíclica, como demonstrou Arnold Joseph Toynbee (1889 – 1975). Desgasta-se o ordenamento cognitivo. Vem a sucessão de correntes teóricas e metodológicas, padrões estéticos. Este tem modismos mais visíveis do que a alternância das tendências filosóficas. Classicismo, romantismo, modernismo são exemplos do desgaste e sucessão das tendências em uma dimensão diversa dos ciclos descritos por Toynbee, mas também representam ciclos. Pré-socráticos e sofistas são exemplos de sucessão relacionada com o desgate cíclico do ordenamento cognitivo, como da sensibilidade.
O desgaste das fórmulas políticas foi apontado por Aristóteles (384 a.C.– 322 a.C.). O estagirita apontou a tirania como a decadência da monarquia, oligarquia como aristocracia decaída, demagogia como democracia degenerada. Hoje aludimos ao populismo, ao invés de demagogia. O obstáculo epistemológico constituído pelo saber, conforme Gaston Bachelard (1884 – 1962) é atenuado com o abalo dos paradigmas (Thomas Samuel Kuhn, 1922 – 1996). O acesso ao exercício da livre cogitação é favorecido.
O declinínio do ordenamento social, político, econômico e cognitivo da Idade Média favoreceu as tendências mais díspara. Deu lugar a um Galileu Galilei (1564 – 1642) e a um Michel de Nostradame (1503 – 1566). O declínio da modernidade repete este fenômeno. Galileu, representante exemplar do tipo de sensibilidade e pensamento modernos, era laico, buscava discenir regularidades na forma de leis, era matemático, acreditava nos raciocínios rigorosos e nas verdades objetiva e lógica (na forma de dedução e indução) estudava o ser na dimensão fenomenológica, renunciando ao saber que pretende prescrever o dever ser ôntico e ontológico.
A modernidade começou a tentar usar o método científico (em sentido estrito) nas ciências sociais, iniciando uma mudança. Irregularidade dos fenômenos, volição, sensibilidade e ação finalista, condição de sujeito da ação, obstaculou a “Física Social” pretendida por Isidore Auguste François Xavier Comte (1798 – 1857). Este é apenas o exemplo mais claro do equívoco. Começou a modernidade a se desviar do próprio caminho antes de Comte. Passou a buscar o dever ser, usando o adjetivo “ciência” como panóplia para especulação.
A engenharia social não pode captar regularidades e leis inexistentes. Não tem previsibilidade, salvo nos pequenos fragmentos da realidade ou tendências genéricas. Nas salas de aula, encontram-se pessoas que no futuro estarão casadas, terão filhos, irão divorciar-se. Não sabemos, porém, quando, nem quem estará nestas condições. O adjetivo “científico” foi largamente usado pelo socialismo. Muitos imaginavam uma ciência ao modo newtoniano, com leis, previsibilidade, apta a orientar a política. Firedrich Engels (1820 – 1895), no prefácio a uma edição do manifesto comunista, lançada em memória da Karl Heirinch Marx (1818 – 1883), cita inúmeras vezes a expressão “leis da História”.
A luta pelo status de ciência é comum a muitos estudos. O significado do que seja tal coisa, porém, é polissêmico. Nas ciências da natureza é fenomênico, tem leis ou probabilidades como arrimo, previsibilidade, corrige os próprios erros substituindo modelos infirmados na prática. Não reivindica superioridade moral ou virtudes cívicas como fundamento de suas proposições.
Não é assim nas ciências da humanas. A contemporaneidade tende a recusar a lógica dos raciocínios rigorosos, lineares, não exige de si mesma precisão nos conceitos nem resultados previsíveis, é relativista, não corrige os seus erros. Até a filosofia da práxis se evade da responsabilidade por suas experiências históricas. Os erros dos pensadores abalaram a hegemonia das grandes narrativas. Sábios eram sabidos. A pregação da fraternidade deu lugar à guilhotina dos jacobinos. O igualitarismo levou ao que Milovan Djilas (1911 – 1995), teórico do partido comunista iuguslavo, depois que decepcionou-se chamou de “nova classe”, a desigualdade criada pelos igualitaristas no poder. Foi assim em todas as experiências históricas. O abalo das referencias medievais ensejou a liberdade e levou à ciência como ao misticismo. A pós-modernidade tem sabidos contumazes, sonhadores e diligentes competentes ou incompetentes. Simplórios tornaram-se sujeitos da história: falam a linguagem do povo e expressam a indignação das massas. Talvez errem menos do que os sábios sabidos. O tempo dirá.

COMPARTILHE A NOTÍCIA

PUBLICIDADE

Confira Também

Camilo e Luizianne reabrem canal político após anos de distanciamento

A aposta do Ibmec no capital humano cearense

Fortaleza domina Enem 2025: capital ocupa as 3 primeiras posições do BR e tem 4 escolas entre as 10 melhores

Ibmec chega a Fortaleza e firma Ceará como polo nacional de educação, inovação e negócios

Pesquisa Atlasintel Piauí 2026: eleição praticamente resolvida a favor do PT

Pesquisa Focus Poder/Atlasintel explica decisão de Ciro e PSDB de manter distância de Flávio

PSD dos “Domingos” leva Comissão de Orçamento do Congresso e reforça musculatura para a vice no Ceará

Focus/Atlasintel: Lula abre larga vantagem no Ceará e reforça ativo eleitoral de Elmano para 2026

Pesquisa Focus/Atlas para o Senado Ceará: Cenários embolados com Cid favorito; sem sua candidatura, Luizianne salta

Pesquisa Focus Poder + Atlasintel: Ciro e Elmano empatam na corrida ao Governo

UFC entra no Top 15 nacional de patentes e reforça posição como polo de inovação

Governo do Ceará: Pesquisa Focus Poder/AtlasIntel será divulgada nesta segunda-feira

MAIS LIDAS DO DIA

O valor da propriedade intelectual no mundo da moda. Por Frederico Cortez

A sabedoria do não sei; Por Gera Teixeira

A insustentável leveza da democracia; Por Paulo Elpídio de Menezes Neto