Valeu, Boechat!

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Catarina Rochamonte é graduada em Filosofia pela UECE, Mestre em Filosofia pela UFRN e Doutora em Filosofia pela Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Por Catarina Rochamonte
Boechat foi, antes de tudo, necessário. Era independente e a independência deve ser a qualidade primeira do jornalista. Nas suas apresentações matinais na Rádio ou como âncora do Jornal da Band, ficava claro, naqueles seus rompantes, que sua fala não era premeditada ou decorada.
Irreverência, por sua vez, não é qualidade primeira do jornalismo; irreverência é luxo. Boechat se deu a esse luxo como poucos. Sua dobradinha com o Macaco Simão na FM era para muitos ouvintes a boa dose diária de irreverência e humor para começar o dia. Sua pegada era quase sempre política, mas sem grandes ranços ideológicos. Falava, escrevia, pensava e dizia não o que convém, mas o que importa.
Seu último comentário tratou de uma matéria do jornal O Globo sobre as tragédias de Brumadinho e dos garotos do Flamengo, no qual afirmou:
“A síntese desse levantamento feito pelo Globo é que as consequências não deram em nada. Esse é o ponto que une todas essas tragédias —  A impunidade é o que rege, o que comanda as orquestras das tragédias nacionais. — É preciso que as ações sejam mais rápidas no campo policial, no campo do Ministério Público para que não fique no oba-oba, depois apoiado pelo esquecimento, pela nossa velha tradição de deixar para lá e tocar adiante.”
A indignação diante da injustiça é traço de nobreza e o saber expressá-la corretamente é um talento. Em meio às emoções confusas dos dias atuais, que seja dado o devido crédito à emoção ritmada pela indignação genuína.
O meio jornalístico é um meio propício a explosões de ânimo, melindres e egos inflados, mas, mesmo aí, projetam-se, vez ou outra, algumas mentes lúcidas, sensatas e honestas. A mídia tem carecido de honestidade e sensatez e é por isso que hoje prestamos homenagem a Boechat, porque com esse gesto homenageamos, na figura dele, todos os profissionais do jornalismo que no trato diário com a notícia conseguem trazer à baila o sentimento de indignação justa sem manipular as emoções perniciosas que por vezes a acompanha.
Em tempos de tragédias coletivas como as que vivemos recentemente, pouco se atenta para a tragédia cotidiana das mentes enfermas arrebatadas pelas emoções negativas e plasmadas pelos piores vícios e comportamentos.
Sem menoscabar a dor lancinante daqueles que estiveram envolvidos nos lances dificultosos das tragédias desse começo de ano, mas, ao contrário, com a intenção justamente de lhes preservar a dignidade, gostaríamos de chamar atenção para o equívoco daqueles que misturam o luto aos embates ideológicos e que, mesmo diante de uma fatalidade, de um drama, de uma tragédia, não conseguem ceder nem enxergar nada para além das divergências políticas.
Na minha família, sempre que alguém está assim meio obtuso, meio egoísta, meio cego para o que realmente tem relevância naquele momento, a minha madrinha cita dois versos do Canto I dos Lusíadas: “Cesse tudo o que a musa antiga canta; que outro valor mais alto se alevanta”.
No sofrimento, na dor, na morte que a todos irmana não há espaço para fazer política. Nem o Boechat, que vivia na arena do combate político, limitava-se a tratar só desse assunto. De vez em quando, visceral que era, desnudava-se. Não faz muito tempo, comoveu muita gente num longo desabafo sobre uma crise de depressão que o derrubou, no qual alertou:“Quem cai num quadro desses perde qualquer condição de continuar ativo, de pensar as coisas mais simples. A pessoa morre ficando viva….”
Mesmo assim ele se ergueu, deixando uma lição pessoal de luta e superação e uma lição profissional de ética e dignidade. Valeu, Boechat!

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