O argumento conservador, por Rui Martinho

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
ruimartinho@focuspoder.com.br
Conservador teve, no Brasil, o sentido de anátema. Poucos assumiam tal identidade, como poucos se dizem comunistas, preferindo dizer-se vagamente esquerdista ou até adeptos da filosofia da práxis, expressão usada por Antonio Gramsci (1891 – 1937) para burlar a censura. A pós-modernidade tem conceitos líquidos. Seria quem não aceita mudanças, querendo congelar a história? Apreço pela preservação de instituições culturias, jurídicas e políticas? Entendimento de que o homem não se pertence?
Congelar a história não é comum a todos os conservadores e é encontrado em outros grupos poíticos. Quando o Afeganistão era monarquia, o rei daquele país impediu a construção de uma ferrovia. Houve quem disse que era uma tentativa conservadora de barrar a evolução histórica. Conservadores fizeram muitas ferrovias em outros países. O multiculturalismo diferencialista tenta congelar a cultura de afrodescendentes e índios, mas não é conservador ou não é do mesmo tipo. A doutrina Brejnev (Leonid Brejnev, 1906 – 1982) advogava o princípio da “vedação ao retrocesso”, pelo qual a URSS pretendia legitimar invasões como a da Tchecoslováquia em 1968, para preservar os regimes comunistas. Mas os seus adeptos não se consideravam conservadores.
A preservação das instituições culturais, jurídicas e políticas é associada ao conservadorismo. Sucede que até os revolucionários se esforçam por preservar as suas instituições, quando no poder. Nem toda tradição tem o amparo dos conservadores, que criticam os vícios do Estado patrimonial burocrático descrito por Raymundo Faoro (1925 – 2003), em seu opus magnum Os donos do Poder (Editora Globo, 1986). O grupo vagamente referido como progressista, não havido como conservador, defende a preservação de identidades culturais nos termos do multiculturalismo diferencialista. Por outro lado, a preservação das instituições jurídicas e políticas é defendida por todos quantos se achem no poder, usufruindo delas, até revolucionários.
Liberais defendem as instituições democráticas, como a separação, independência e harmonia das funções do Poder do Estado e o império da lei. Liberais e conservadores são diferentes. É inconsistente a classificação de ambos como se tivessem uma mesma identidade rotulada como “direita”, em classificação dicotômica incompatível com a diversidade do pensamento e das práticas políticas.
A essência do conservadorismo é a ideia de que o homem não se pertence, conforme Robert Nisbet (1913 – 1996), na obra O conservadorismo (Editora Estampa, 1987), que assim os distingue dos liberais, para quem o homem pertence a si mesmo. A busca da superação da finitude pelo pertencimento ao partido, igreja, classe social, pátria, família ou etnia aproxima conservadores dos revolucionários. O pertencimento dos conservadores geralmente é à família, igreja e pátria. Mas o nacionalismo não é exclusividade dos deles. Religiões seculares, civis ou políticas, próprias de revolucionários, entendem que o homem não pertence si mesmo, mas ao partido ou classe social.
Os opostos se assemelham e talvez não se distingam, sendo os lados de uma mesma moeda. O pertencimento a etnia, racismo reverso do multiculturaismo diferencialista, entende que o homem pertence ao que chamam “raça”. É uma postura conservadora, mas um conservadorismo diferente, distinguindo-se pelo objeto do esforço de preservação. Tal distinção não alcança as práticas políticas tendentes à presunção de superioridade moral e à intolerância.
Porto Alegre, 13/2/19.

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