Lavareda vê “ilusão de ótica” no 1º turno: Lula perdeu para a abstenção

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A leitura de que Flávio Bolsonaro (PL) deu uma arrancada na reta final e ultrapassou Lula (PT) no primeiro turno pode ser, na avaliação do cientista político Antonio Lavareda, uma “ilusão de ótica”.

Em entrevista ao jornalista Ricardo Noblat, publicada nesta terça-feira (6) pelo Metrópoles, Lavareda sustenta que Flávio chegou às urnas praticamente no mesmo patamar que vinha sendo projetado pelas pesquisas. O movimento decisivo teria ocorrido do outro lado: Lula perdeu eleitores para a abstenção.

A conta de Lavareda
Segundo Lavareda, Flávio tinha cerca de 35% do eleitorado total nas projeções e terminou a votação praticamente nesse mesmo nível. Em votos válidos, o candidato do PL alcançou 47,07%. Lula, por sua vez, teria saído de aproximadamente 39% do eleitorado total para 34% no momento da votação.

A diferença, portanto, não teria sido criada por um crescimento extraordinário de Flávio, mas pelo recuo de Lula.

“O Lula tinha 39 no total e chegou na urna com 34, perdeu cinco pontos. Perdeu para quem? Perdeu para a abstenção”, afirmou Lavareda a Noblat.

A metáfora utilizada pelo cientista político é a de uma corrida: Flávio não teria ultrapassado Lula porque acelerou, mas porque Lula recuou.

O ponto central
A interpretação desloca o foco da chamada “virada”. Em vez de uma transferência maciça de votos para Flávio, Lavareda identifica um fenômeno de desmobilização do eleitorado de Lula. A questão, portanto, não seria apenas quantos votos cada candidato conquistou, mas quantos eleitores que poderiam votar em cada um efetivamente compareceram às urnas.

O primeiro turno terminou com Flávio em 47,03% dos votos válidos e Lula em 45,16%, diferença de 1,87 ponto percentual, a menor entre os dois primeiros colocados em um primeiro turno presidencial desde a redemocratização.

A abstenção entra no centro da disputa
A leitura de Lavareda ganha importância porque coloca a participação eleitoral como uma das variáveis centrais do segundo turno. A diferença em relação a 2022, segundo ele, não estaria simplesmente em uma explosão da abstenção. O dado mais importante seria quem deixou de comparecer.

É nesse ponto que a análise se torna particularmente relevante para a campanha de Lula: recuperar eleitores que estavam potencialmente em seu campo pode ser tão importante quanto conquistar novos votos. Do outro lado, Flávio precisa consolidar os votos que recebeu no primeiro turno e buscar eleitores dos candidatos que ficaram fora da disputa.

Por que importa
A tese de Lavareda contrasta com a narrativa de que Flávio teria produzido uma grande virada eleitoral na reta final. Sua interpretação é mais específica: o candidato do PL teria mantido aproximadamente o patamar que as pesquisas já indicavam, enquanto Lula perdeu força no comparecimento às urnas.

Isso transforma a eleição do segundo turno em uma disputa não apenas por voto, mas também por mobilização.

Vá mais fundo: quem é Lavareda
A análise ganha uma dimensão especial no Ceará por causa da trajetória de Antonio Lavareda. Nascido no Recife, Lavareda construiu uma longa carreira como cientista político, pesquisador e profissional de marketing político, tornando-se uma das referências brasileiras em pesquisas eleitorais e comportamento do eleitor.

Sua história profissional passa diretamente pelo Ceará. Em 1986, Lavareda participou da equipe de comunicação da campanha de Tasso Jereissati ao Governo do Estado, uma eleição que marcou a chegada do grupo empresarial ao poder e inaugurou o ciclo conhecido como “Governo das Mudanças”. Pesquisa acadêmica sobre aquela campanha registra a presença de Lavareda entre os profissionais contratados para o marketing político de Tasso.

A campanha de 1986 foi marcada pelo uso mais sofisticado de pesquisas de opinião, planejamento de comunicação e recursos audiovisuais, ajudando a transformar a ideia de mudança em uma marca política. A relação de Lavareda com a política cearense prosseguiu nas décadas seguintes. Seu instituto, o Ipespe, esteve ligado a pesquisas e trabalhos políticos envolvendo nomes como Tasso Jereissati e Ciro Gomes.

É, portanto, um analista que acompanha o comportamento eleitoral brasileiro há décadas e que conhece de perto uma das experiências políticas mais importantes da história recente do Ceará: a construção de uma candidatura fundada justamente na ideia de mudança.

Quarenta anos depois, é essa mesma palavra que aparece novamente no centro de sua leitura sobre a eleição presidencial.

A entrevista: Antonio Lavareda falou ao jornalista Ricardo Noblat, em entrevista publicada pelo Metrópoles nesta terça-feira (6). É a partir dessa conversa que surge a tese de que a “virada” de Flávio pode ser menos uma arrancada do candidato do PL e mais um recuo de Lula provocado pela perda de eleitores para a abstenção.

https://x.com/Metropoles/status/2107293804701131209?s=20

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