A sede de mudança; Por Assis de Mesquita Ciríaco

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“A pergunta é se a política brasileira será capaz de compreender aquilo que o eleitor parece estar dizendo quando muda de posição, rompe antigos alinhamentos ou simplesmente deixa de acreditar nas respostas de sempre.”

Quando uma sociedade deixa de acreditar nas velhas respostas
Por Francisco Assis de Mesquita Ciríaco*

Há movimentos políticos que parecem inexplicáveis quando observados apenas pela régua tradicional da ideologia. Personagens que, até pouco tempo atrás, procuravam se apresentar como alternativas à polarização ou mantinham distância de determinados setores da direita passaram, depois do primeiro turno das eleições de 2026, a admitir, apoiar ou buscar aproximação com o candidato que representa hoje a principal força da direita brasileira.

A explicação mais imediata é conhecida: cálculo político, conveniência eleitoral, pragmatismo, sobrevivência ou simples percepção de que o vento mudou. Tudo isso pode existir. Mas talvez não seja suficiente.

Talvez a pergunta mais interessante não seja por que determinados líderes mudaram de posição, mas o que mudou na sociedade para que essas novas posições passassem a parecer possíveis, aceitáveis ou até necessárias.

O primeiro turno de 2026 oferece um cenário eloquente. Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro foram os dois candidatos mais votados e disputarão o segundo turno em 25 de outubro. Com 99,99% das urnas apuradas, Flávio obteve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%.

O resultado não é apenas uma fotografia eleitoral. Ele revela uma sociedade ainda profundamente dividida, mas também mostra que o campo político à direita conseguiu reunir uma força eleitoral que ultrapassa os limites de uma única liderança.

É nesse contexto que os movimentos de Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Michel Temer deixam de ser apenas episódios individuais e passam a merecer outra leitura. Talvez não estejamos diante simplesmente de uma conversão ideológica. Talvez estejamos diante de uma sede de mudança.

A expressão exige cuidado. Sede de mudança não significa, necessariamente, desejo de ruptura. Também não significa negar tudo o que foi construído no passado. Significa, antes, perguntar quando uma sociedade deixa de se satisfazer com respostas que, durante determinado período, foram suficientes para organizar suas esperanças.

O Partido dos Trabalhadores ocupa uma posição singular nessa reflexão. Lula governou o país entre 2003 e 2010; Dilma Rousseff, entre 2011 e 2016; Lula retornou ao Palácio do Planalto em 2023 e exerce atualmente seu terceiro mandato. Depois de tantos anos de experiência, o partido já não é julgado apenas por aquilo que promete. É julgado também por aquilo que a sociedade viu, viveu e aprendeu a comparar.

Isso muda a natureza da relação entre promessa e eleitor. Um projeto político que chega ao poder pela primeira vez pode ser avaliado predominantemente pela expectativa que produz. Depois de longos períodos de governo, passa a ser medido também pela experiência acumulada.

E essa experiência é complexa. Seria intelectualmente desonesto negar os resultados positivos dos governos petistas: expansão do emprego em determinados ciclos, aumento real da renda, redução da pobreza, ampliação de políticas sociais e períodos relevantes de crescimento econômico.

Mas a mesma memória social registra também a forte reversão econômica no final do governo Dilma, quando o PIB brasileiro caiu 3,5% em 2015 e 3,3% em 2016, segundo o IBGE. Não seria correto atribuir mecanicamente uma recessão dessa magnitude a uma única causa, partido ou governo. Crises econômicas são produzidas por múltiplos fatores.

O ponto político é outro: depois de muitos anos, o eleitor passa a ter memória. Já viu crescimento e recessão, emprego e desemprego, expansão de políticas sociais e inflação, diferentes governos e diferentes promessas. A política perde, então, parte de sua capacidade de se apresentar como novidade permanente e começa a ser cobrada por aquilo que entrega.

Alexis de Tocqueville ajuda a compreender por que esse fenômeno não é contraditório. A democracia não torna necessariamente uma sociedade mais acomodada à medida que ela conquista direitos, liberdade e igualdade. Pode ocorrer justamente o contrário. Quanto mais o cidadão percebe que possui voz, direitos e capacidade de participação, maiores tendem a ser suas expectativas em relação às instituições. A democracia, portanto, não apenas responde a expectativas sociais: ela também cria novas expectativas.

O brasileiro de hoje não compara sua realidade apenas com o Brasil de vinte anos atrás. Compara-a com outros países, com serviços privados, com outros governos, com indicadores, salários, oportunidades e experiências que chegam diariamente pela tela do celular. A internet tornou a comparação quase permanente e retirou da política o monopólio da narrativa sobre a realidade.

Uma sociedade que compara mais também cobra mais.

É nesse ponto que Francis Fukuyama oferece outra chave importante. Ao discutir a ordem política moderna, ele destaca três elementos fundamentais: Estado, Estado de Direito e responsabilização democrática.

A pergunta brasileira pode ser formulada de maneira simples: o Estado consegue entregar aquilo que a sociedade passou a exigir? Talvez essa pergunta seja, em muitos momentos, mais decisiva do que a velha oposição entre esquerda e direita. Uma democracia pode realizar eleições regulares, preservar instituições e garantir liberdade política, mas, se o cidadão não percebe melhoria concreta em sua vida, a legitimidade do sistema se desgasta.

Os dados da OCDE citados neste debate são reveladores. Entre 2022 e 2025, a confiança alta ou moderadamente alta no governo federal brasileiro subiu de 26% para 38%, ainda abaixo da média de 40% dos países da organização. Em 2025, 58% dos brasileiros declararam confiança alta ou moderadamente alta na polícia, 45% nos tribunais e apenas 20% nos partidos políticos.

Mais significativo ainda é o dado sobre voz política: a parcela de brasileiros que considera que pessoas como elas têm voz nas decisões governamentais passou de 16% em 2022 para 28% em 2025. O problema brasileiro, portanto, não parece ser apenas a polarização. É também uma crise de representação.

A pergunta do cidadão já não é apenas “quem governa?”. É, cada vez mais, “a minha opinião produz alguma consequência?”. Essa mudança ajuda a compreender por que o Brasil de 2026 não cabe inteiramente nos rótulos políticos do Brasil de 2002. Novos grupos ganharam voz, novas lideranças surgiram, as redes sociais romperam antigos monopólios de produção da opinião política e as identidades se tornaram mais fragmentadas.

Um cidadão pode defender programas sociais e exigir responsabilidade fiscal; apoiar o SUS e cobrar eficiência administrativa; defender direitos trabalhistas e desejar maior liberdade econômica; sustentar políticas de redução da pobreza e pedir mais rigor na segurança pública; defender a democracia e, ao mesmo tempo, questionar decisões do Judiciário.

Essa combinação não precisa ser lida como incoerência. Pode ser simplesmente a pluralização da escolha política. O eleitor não se sente mais obrigado a comprar um pacote ideológico inteiro. Escolhe valores, prioridades, pessoas, experiências e aquilo que acredita que possa funcionar.

Talvez seja por isso que os movimentos ocorridos depois do primeiro turno mereçam ser observados menos como confissões ideológicas e mais como respostas a uma nova circunstância. Romeu Zema, durante a preparação para a eleição presidencial, procurou preservar identidade própria dentro do campo da direita e foi apresentado como alternativa ao bolsonarismo.

Depois do primeiro turno, fora da disputa, declarou apoio a Flávio Bolsonaro e justificou a decisão com a necessidade de mudança, afirmando que não ficaria “em cima do muro”. A decisão pode ser interpretada como pragmatismo, mas pode também significar que a pergunta mudou.

No primeiro turno, a questão era quem melhor representaria sua visão política. No segundo, diante de duas alternativas concretas, a prioridade passou a ser outra. Ronaldo Caiado percorreu caminho semelhante. Buscou construir-se como uma alternativa de direita que não fosse mera extensão do bolsonarismo, terminou o primeiro turno fora da disputa final e, no dia seguinte, anunciou apoio a Flávio Bolsonaro.

Novamente, é possível enxergar apenas conveniência. Mas também é possível perceber que, quando a eleição se reduz a dois projetos, diferenças que pareciam centrais no primeiro turno podem perder peso diante de uma escolha binária. A sede de mudança, nesse sentido, pode funcionar como força de compressão das divergências internas de um mesmo campo político.

O caso de Michel Temer é ainda mais revelador porque sua trajetória não se confunde com o bolsonarismo. Ligado historicamente ao MDB, ao centro e a uma concepção institucional de governo, Temer anunciou apoio a Flávio Bolsonaro em 5 de outubro de 2026 e apresentou sua decisão como uma leitura das urnas: segundo ele, o eleitor teria deixado claro o desejo de mudança.

A formulação desloca o debate. A pergunta menos interessante é “Temer virou bolsonarista?”. A pergunta mais produtiva é “o que Temer está dizendo que as urnas disseram?”. Porque, nesse segundo plano, a decisão deixa de ser apenas pessoal e passa a ser interpretada como sintoma de uma percepção mais ampla sobre o humor social.

Falar em esgotamento de uma fórmula política, contudo, não equivale a afirmar que todos os seus valores fracassaram. Tampouco significa defender o abandono de políticas sociais ou negar conquistas produzidas por governos anteriores. Um projeto pode preservar valores legítimos e, ainda assim, perder a capacidade de convencer a sociedade de que consegue produzir o futuro que promete.

Talvez seja essa a pergunta mais incômoda para qualquer partido que permaneça muito tempo no poder: não se tudo o que fez deu errado, mas se as respostas que oferece continuam correspondendo às expectativas de uma sociedade que mudou.

Joseph Schumpeter permite avançar mais um passo. A democracia é também um método competitivo de escolha de lideranças, e a alternância não precisa ser compreendida como condenação moral absoluta de quem governou. Às vezes, o eleitor diz algo mais simples: “já experimentamos esta fórmula; agora queremos experimentar outra”.

Existe uma diferença importante entre afirmar que tudo o que foi feito estava errado e concluir que é preciso tentar outra maneira de fazer. A primeira é ruptura. A segunda pode ser apenas alternância. E talvez seja nesse intervalo que a política brasileira esteja se movendo. A sede de mudança, portanto, não precisa ser uma sede de destruição. Pode ser uma demanda por renovação.

Crescimento econômico sustentável, responsabilidade fiscal, políticas sociais eficazes, segurança pública, eficiência administrativa, liberdade econômica, redução das desigualdades, segurança jurídica e fortalecimento institucional não são bandeiras que pertencem exclusivamente à esquerda ou à direita.

São exigências que podem coexistir numa sociedade que amadureceu suas expectativas.

O que ela parece pedir não é necessariamente menos Estado ou mais Estado, mas um Estado que funcione; não menos política social, mas política social que produza resultado; não menos democracia, mas democracia capaz de mostrar por que merece continuar sendo acreditada.

É impossível, entretanto, discutir essa insatisfação sem enfrentar o problema institucional. O Judiciário ocupa lugar central nessa conversa. Defender instituições fortes significa defender a independência judicial, mas instituição forte não é sinônimo de instituição imune à crítica.

Há diferença entre independência e impossibilidade de questionamento público das decisões. A primeira é indispensável à democracia constitucional. A segunda não decorre necessariamente dela. É legítimo, portanto, discutir os limites do protagonismo judicial sem transformar toda crítica em ataque à Justiça.

O ponto delicado está na fronteira entre interpretar a Constituição e substituir escolhas que, pela própria arquitetura constitucional, deveriam ser realizadas pelos Poderes politicamente responsáveis perante o eleitor. Quando essas fronteiras se confundem excessivamente, surge uma pergunta incômoda: quem responde politicamente pela decisão? O parlamentar? O governo? O juiz? A instituição?

A responsabilidade democrática pressupõe que o cidadão consiga identificar quem decidiu e, em alguma medida, cobrar as consequências da decisão. Quando isso se torna nebuloso, a sensação de distância entre sociedade e instituições aumenta. Talvez parte da atual sede de mudança não esteja dirigida apenas aos governos, mas ao modo como as próprias instituições se relacionam com seus limites, com sua legitimidade e com a crítica pública.

Sérgio Buarque de Holanda continua indispensável nesse ponto. A formação brasileira foi marcada pelo personalismo e pela dificuldade histórica de separar completamente a esfera pública das relações pessoais. Talvez o desafio contemporâneo seja construir justamente o contrário: instituições maiores do que as pessoas que temporariamente as ocupam.

Isso vale para o Executivo, para o Congresso, para o Supremo Tribunal Federal, para os partidos, para a oposição e para a própria sociedade. Uma democracia madura não pode depender da virtude excepcional de seus governantes. Precisa de instituições capazes de funcionar razoavelmente bem mesmo quando pessoas imperfeitas ocupam posições de poder.

Mas há um alerta necessário para quem interpreta o atual movimento como autorização irrestrita para a direita. Se houver alternância, a sociedade não estará entregando um cheque em branco. A direita será submetida às mesmas perguntas que hoje dirige à esquerda.

Como crescer? Como controlar a despesa pública? Como aumentar a produtividade? Como melhorar a educação? Como combater a criminalidade? Como reduzir desigualdades? Como preservar políticas sociais? Como fortalecer instituições? Como garantir segurança jurídica? Como governar sem transformar a política em permanente guerra cultural?

Porque existe uma diferença fundamental entre ser oposição e ser governo: na oposição, é possível apontar o que está errado; no governo, é preciso apresentar uma solução. E a solução precisa funcionar. Talvez, então, estejamos descrevendo de maneira insuficiente o momento brasileiro quando o reduzimos a uma batalha entre esquerda e direita.

A disputa mais profunda pode estar em outro plano: entre continuidade e mudança; entre uma política baseada na promessa e uma política obrigada a demonstrar capacidade de entrega; entre instituições que reivindicam autoridade e instituições que precisam preservar legitimidade; entre um Estado que arrecada e um Estado que precisa mostrar, concretamente, para que arrecada; entre uma sociedade que durante muito tempo aceitou determinadas respostas e uma sociedade que começa a perguntar se essas respostas ainda bastam.

A imagem da sede talvez ajude justamente porque a sede não nasce da negação de tudo o que já foi bebido. Ela nasce quando aquilo que antes bastava deixa de bastar. Uma sociedade pode reconhecer avanços do passado e, ainda assim, querer outra direção. Pode desejar proteção social e crescimento, liberdade e responsabilidade, Estado de Direito e instituições fortes, independência e limites, democracia e resultados.

Pode, sobretudo, desejar recuperar a sensação de que o futuro não está condenado à repetição das mesmas fórmulas. Talvez seja esse o significado mais profundo dos movimentos políticos que estamos assistindo. Não necessariamente uma conversão coletiva à direita. Não necessariamente uma rejeição absoluta à esquerda.

Mas uma sociedade que começa a exigir uma nova equação política: que quer continuar democrática, mas deseja que a democracia funcione melhor; que quer proteção social, mas também crescimento; que quer Estado, mas um Estado eficiente; que quer Justiça, mas também previsibilidade; que quer instituições fortes, mas não instituições sem limites; que quer liberdade, mas também responsabilidade.

Depois de tantas promessas e de tantas experiências acumuladas, a pergunta talvez já não seja apenas quem vencerá a próxima eleição. A pergunta é se a política brasileira será capaz de compreender aquilo que o eleitor parece estar dizendo quando muda de posição, rompe antigos alinhamentos ou simplesmente deixa de acreditar nas respostas de sempre. Porque a verdadeira sede de mudança talvez não seja a esperança de que um novo grupo político resolva todos os problemas do país.

Talvez seja algo mais exigente: a esperança de que ainda seja possível governar o Brasil de uma maneira diferente — e, desta vez, demonstrar que essa diferença produz resultado.

Referências bibliográficas
FUKUYAMA
, Francis. Political Order and Political Decay: From the Industrial Revolution to the Globalization of Democracy. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2014.

FUKUYAMA, Francis. States and democracy. Democratization, v. 21, n. 7, p. 1326–1340, 2014.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. 26. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

ORTEGA Y GASSET, José. A Rebelião das Massas. Campinas: Vide Editorial, 2016. Originalmente publicado em 1930.

SCHUMPETER, Joseph A. Capitalism, Socialism and Democracy. New York: Harper & Brothers, 1942.

TOCQUEVILLE, Alexis de. Democracy in America. Translated and edited by Harvey C. Mansfield and Delba Winthrop. Chicago: University of Chicago Press, 2000.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT — OECD. OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results: Brazil. Paris: OECD Publishing, 2026.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL — TSE. Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT) vão disputar o 2º turno para a Presidência da República. Brasília, 5 out. 2026.

IBGE — INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Contas Nacionais Trimestrais. Rio de Janeiro: IBGE.

BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Constituição, separação de Poderes e jurisdição constitucional. Brasília: STF.

Assis Ciríaco é Bacharel em Ciências Contábeis, advogado empresarial e tributarista, especialista em Planejamento Patrimonial e Sucessório, membro do escritório Ciríaco & Ciríaco Advogados Associados.

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