O monopartidarismo discreto

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Rui Martinho é professor da UFC, advogado, bacharel em administração, mestre em sociologia e doutor em história. Com 6 livros publicados e vários artigos acadêmicos na área de história, educação e política. Assina coluna semanal no Focus.jor.

Por Rui Martinho
rui.martinho@terra.com.br

O pensamento socialista tornou-se hegemônico. Até os seus críticos se impregnaram dele. Defende a igualdade, o bem-estar e a justiça. Os nossos fracassos e culpas imputamos à sociedade. Rousseau (1712 – 1778) expressou a absolvição universal dizendo: o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Não disse, porém, quem corrompeu a sociedade. Podemos ser virtuosos sem fazer o bem, considerado assistencialismo. A luta é por “um mundo melhor”, que se faz apontando e castigando culpados, sem o ônus de socorrer necessitados.

Somos virtuosos. Também somos sábios porque “sabemos o que está por trás das aparências”; temos a ambição de poder “só para fazer justiça”; os nossos fracassos e crimes são culpa da sociedade. Temos a quem odiar e jogar todas as responsabilidades: o “sistema”. Podemos ser incoerentes: a dialética nos socorre com a unidade dos contrários. Somos pela cultura da paz e financiamos o crime violento comprando drogas. Somos internacionalistas ou nacionalistas conforme a conveniência da luta pelo poder. Desqualificamos os nossos críticos como “serviçais dos opressores”. Escapamos da crítica porque somos do lado do bem. Os nossos críticos são do mal. Fazemos pose de intelectual porque temos a companhia de quase todos eles nas posições que assumimos ou somos um deles.

Prometemos emancipação. Obediências só às normas em cuja elaboração participamos. Desfrutamos da solidariedade de irmãos de fé, digo, de “camaradas” ou “companheiros”. Transcendemos a finitude sendo parte de um todo orgânico: classe social, partido, movimentos políticos. Não precisamos de família, igreja ou pátria. Seguimos a deusa Bem-Aventurança pela estrada macia que leva ao bem-estar assegurado pelo Estado, que não precisa ser conquistado. Não pensamos em esforço. Seguimos comodamente o pensamento hegemônico. Citamos autores que não lemos, repetimos chavões e odiamos as injustiças sociais. Simples assim. Não há sedução maior.

Intelectuais são românticos. Poetas são mentirosos. Quem vende livro, escreve roteiro de filme ou novela de sucesso e quer aplauso precisa seduzir, explorar emoções,  vender fantasia. Engenheiros nucleares e físicos geniais e estudiosos não são intelectuais. Poetas e teóricos da cultura são intelectuais. Os modernos meios de comunicação difundiram as fantasias dos intelectuais. Chegamos ao declínio do dever, à cultura do Direito sem obrigação (LIPOVETSKY, Giles. A sociedade-pós-moralista. O crepúsculo do dever e a ética indolor dos novos tempos democráticos (Barueri: Manole, 2005).

Todos os partidos têm programas com forte influência socialista, configurando um monopartidarismo discreto. Todos os erários, por outro lado, estão endividados. A solução pretende-se que seja indolor. Até as igrejas têm sido influenciadas. A França do pós-guerra muito contribuiu para tal hegemonia ideológica. Mas igrejas e influência francesa são temas para outras reflexões.

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